domingo, 29 de março de 2026

Escola Eleata

Escola Eleata

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi uma escola de pensamento filosófico da Antiguidade grega, pertencente à fase pré-socrática, por volta dos séculos (IV e V) a.C. Recebeu esse nome devido à sua localização, situada na região da cidade de Eleia. O mentor e inspirador dessa escola é apontado por muitos pensadores como sendo o filósofo Xenófanes de Cólofon, porém a escola ganhou maior notoriedade com o pensador Parmênides de Eleia, que teria sido seu discípulo. Além desses nomes, a escola também se destacou com outros importantes membros, como Zenão de Eleia e Melisso de Samos.

O desenvolvimento da filosofia eleata ou eleática pode ser compreendido da seguinte forma: Xenófanes apresentou um formato de monismo ainda incompleto, em processo de formação, com forte caráter teológico. Já Parmênides aprofundou o pensamento eleata de modo mais rigoroso, formulando um racionalismo de natureza metafísica. Zenão dedicou-se a sustentar e defender, por meio da dialética e dos paradoxos, as ideias de Parmênides; e, por fim, Melisso executou e relacionou essas ideias no campo físico da natureza. Os eleatas empreenderam concepções do fenomenismo, bem como também do ilusionismo, ao afirmarem que as mudanças não possuem existência real, sendo apenas aparências enganosas produzidas pelos sentidos, os quais deveriam ser retificados pela razão.

Filosofia Eleata

Refletiram sobre a natureza da realidade, defendendo a ideia do monismo e do imobilismo, opondo-se aos conceitos de multiplicidade e mobilidade das coisas, explicando que a mudança não seria real, mas apenas fruto da ilusão dos sentidos. Nesse contexto, a realidade axiomática só poderia ser reconhecida por meio da razão, e não pelo conhecimento sensitivo. Os eleatas se utilizavam da ideia de “logos” para introduzir o raciocínio lógico na percepção da realidade. Caracterizando-se, em explicar a realidade, pelo logos, e não mais, propriamente, pela natureza física da matéria.

A influência de Xenófanes, nessa escola, pode ser descrita pelo fato de ele ter sido, possivelmente, um dos mestres de Parmênides, direcionando-o em alguns pensamentos. Xenófanes combateu o chamado antropomorfismo teológico, introduzindo o monoteísmo filosófico, pois argumentava que a divindade seria una, imóvel e imutável. Diferenciou a verdade da opinião, sugerindo que o conhecimento humano era limitado e que a verdadeira compreensão pertenceria ao "Deus uno". Escreveu em formato de versos, desenvolvendo um estilo de escrita lógico-crítico, baseado na unidade e na razão, distanciando-se dos pensadores da época que focavam na matéria.  

Outro dos principais representantes da escola de Eleia era conhecido como Parmênides. Ele acreditava que a realidade era única, imutável e eterna, argumentando que “o ser é e o não ser não é”, ou seja, “tudo que é, ‘é’, e não pode deixar de “ser”. A essência da realidade não seria mutável, mas a aparência das coisas poderia mudar. Afirmava que tudo estaria em um eterno repouso, concluindo que “toda mutação é ilusória”. Explicava que haveria dois caminhos para o entendimento da realidade, que seriam: a razão e a opinião. No primeiro era possível se chegar à verdade; já no segundo o homem seria levado a um entendimento ilusório ou aparente das coisas. Para Parmênides, os sentidos conduziam o indivíduo ao engano, afastando-o da verdade autêntica, ao produzirem contradições; isso levaria os indivíduos a confundirem o “ser” com o “não-ser”.

O pensador Zenão de Eleia buscou aprofundar as ideias de Parmênides, utilizando os paradoxos para demonstrar que a noção de movimento era apenas uma ilusão, constituída por sucessivos e constantes instantes de momento. Demonstrava que o movimento e a pluralidade seriam logicamente impossíveis, defendendo a ideia de imobilidade do ser. Seu método utilizava técnicas de argumentação que ficaram conhecidas como “redução ao absurdo”. A dialética de Zenão refutava um argumento a partir de princípios admitidos pelo seu interlocutor. Partindo dos paradoxos, ele passava a demonstrar como as opiniões ou contradições poderiam levar seus interlocutores a pensamentos equivocados sobre determinados assuntos.

Para Melisso de Samos, a realidade, além de única, eterna e imutável, também seria infinita. Sua principal contribuição com a escola visou igualar a ideia de natureza ao conceito de ser, além disso, desenvolveu a percepção de infinitude eleática. Realizou uma comparação entre os valores do pensamento sensitivo e do pensamento racional. Desenvolveu uma teoria que ficou conhecida como “a natureza infinita e inalterável do ser”. Sobre a imutabilidade do “ser”, ele afirmava que o "ser" não se transformava e não se alterava. Sistematizou grande parte dos conhecimentos dessa escola, organizando e corrigindo alguns desses saberes.

Considerações Finais

Nessa perspectiva, os principais pontos em comum entre os pensadores dessa escola eram a ideia de que a realidade seria única, imóvel, eterna, imutável, sem princípio ou fim, contínua e indivisível. Partes desses conceitos foram definidas como sendo uma espécie de monismo radical. Entre as principais características da filosofia eleata estão a ideia de monismo, que seria a crença em uma única substância, enquanto ser. Um modelo de racionalismo que poderia ser compreendido pela valorização da razão (logos) sobre o conhecimento sensitivo, definindo uma “lógica-do-ser”, que seria o entendimento de que o “ser” não pode vir do “não-ser”. A contraposição de ideias à filosofia heraclitiana mobilista do “devir”, que se apoiava na noção de mudança da realidade. Quanto à imutabilidade e eternidade, nenhum “ser” poderia gerar outro, nem deixar de existir, pois isso implicaria aumento ou diminuição do próprio “ser”, algo considerado impossível. O pensamento eleata contribuiu, significativamente, para o desenvolvimento da metafísica e da dialética.

Fontes:

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2012.

BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Editora Cultrix, 1967.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia. Vol. 2. São Paulo. Editora Companhia das letras. 2010.

COPLESTON, Frederick. História da Filosofia: Grécia e Roma. São Paulo: Editora Loyola, 2021.

DUMONT, Jean. Paul. Elementos de história da filosofia antiga. Brasília: EdUnB, 2005.

KENNY, Anthony. História Concisa da Filosofia Ocidental. Lisboa, Temas e Debates, 1999.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Editora Paulus, 2017.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental. São Paulo. Companhia editora nacional. 1957.

SIMPLICÍO. Física.  Trad. Alexandre Costa. Anais de filosofia clássica. Vol. 3. N; 06. UFRJ. 2009.

SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos: Primeiros mestres da filosofia e da ciência grega. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

 

domingo, 15 de março de 2026

Heráclito Graça

Heráclito Graça – (1837 a 1914) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Heráclito de Alencastro Pereira da Graça - Foi um filósofo cearense ligado as correntes de pensamento da filosofia linguística. Escreveu uma importante obra gramatical chamada de “Fatos da Linguagem”. Laborou como escritor, político, magistrado e filólogo. Formou-se em Direito, por volta de 1857, na escola de Recife. Migrou para a cidade de São Luiz onde exerceu atividade de Promotor de Justiça. Assumiu os cargos políticos de Deputado Provincial e Deputado Geral pelo estado do Maranhão. Posteriormente, atuou como presidente das províncias da Paraíba e do Ceará. Encantou-se com o mundo das letras, buscando realizar um ativismo político através da escrita de periódicos. Exerceu algumas atividades laborativas ao lado do pensador José de Alencar, com quem mantinha certo grau de amizade. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto do Ceará. É considerado patrono da cadeira n° 12 da Academia Cearense de Letras e da cadeira n° 19 da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro (ACCLARJ). Era filho de José Pereira da Graça, popularmente conhecido como o “Barão de Aracati”, e da senhora Maria Adelaide da Graça. Heráclito Graça também era tio do escritor pré-modernista Graça Aranha. Nasceu no município de Icó, em 18 de outubro de 1837, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1914. Recebeu, em sua homenagem, o nome de uma importante avenida que corta o centro de Fortaleza.

Filosofia da Linguagem

Dedicou-se aos estudos da gramática, da história da língua e da literatura no Brasil. Segundo os biógrafos, ele era avesso ao mundo da publicidade, sendo muitas vezes descrito como um homem modesto, por conta da discrição que mantinha sobre seu trabalho. Dissecou uma análise reflexiva a respeito das obras do lexicógrafo português Cândido de Figueredo. Afirmava que era preciso ser impessoal na análise reflexiva sobre o uso da linguagem. Criticava o contexto educacional brasileiro que ensinava a língua portuguesa de maneira simplista, ou seja, sem explorar o refinamento que a língua possuía. Advertia que o brasileiro não tinha clara consciência de sua língua. Na obra Fatos da Linguagem, buscou utilizar um estilo vocabular que unia precisão e concisão, alternando, ao mesmo tempo, entre uma linguagem elevada e compreensível. Valorizando o registro de expressões populares e regionais, que já haviam se integrado ao idioma. Posicionava-se contrário ao chamado purismo exagerado da língua, porém, paralelamente a isso, defendia certo rigor gramatical, registrando uma característica singular aos seus textos. Apropriava-se do método histórico-comparativo com a finalidade de abordar variadas visões sobre o universo linguístico.

Filosofia Juspolítica

Vivenciou partes dos acontecimentos políticos do período imperial e início do republicanismo. Nesse contexto, escreveu para importantes revistas de cunho político e jurídico. Fundando um periódico chamado “A Situação” em que defendia ideias do partido conservador. Operou estudos hermenêuticos, relacionando seus saberes linguísticos com os conhecimentos jurídicos, objetivando esclarecer possíveis equívocos interpretativos, que poderiam ocorrer, caso um jurista empregasse mal uma palavra, ou não fosse claro e assertivo, na escrita correta de suas alegações. Colaborou com um semanário literário de cunho cultural que tinha outros importantes intelectuais como Gentil Braga, Trajano Galvão e Joaquim Serra. Participou de grandes debates políticos sobre a reforma judiciária, o recrutamento eleitoral e a lei do ventre livre. Como administrador, sofreu forte resistência das classes dirigentes, por conta de seu caráter austero e probo. No campo acadêmico, colaborou com a revista jurídica de Pernambuco. Desempenhou consultorias jurídicas trabalhando como advogado do Ministério das Relações Exteriores, na cidade do Rio de Janeiro. Explicava que a noção de paz seria um reflexo do trabalho árduo e habitual, praticado diariamente com esforço, resultando disso, a consolidação de direitos, a prosperidade e o progresso social.

Filosofia Sapiencial

+ “O dialeto é o mais poderoso reparador e conservador da língua”

+ “Em todas as línguas e na sua constante evolução há e há de haver dúvidas e incertezas”.

+ “Somente a paz firma direitos, e desenvolve a prosperidade e o progresso das sociedades”

+ “Que lucre também a língua portuguesa com o nosso limitado debate, separando do joio, o bom trigo, é o meu mais ardente desejo”.

+ “Só os espíritos pequeninos se consideram sabedores de tudo e indefectíveis em suas ideias e pareceres, bamboleando-se em vaidades, que se enviperam irritadiças à primeira e mais leve observação”.

+ “O filósofo Protágoras formulou regras sobre os gêneros, e increpou as de Homero, por isso que divergiam das suas; vaníssima lhe foi a empresa. Homero, o divino Homero sobrepujou ao crítico, em cujas palavras nem os contemporâneos nem os pósteros jamais juraram”.

 

Obras:

Notações Filológicas; Fatos da Linguagem; Periódicos.

 

Fontes:

AMORA, Manoel Albano. Academia Cearense de Letras: Síntese Histórica. Revista da academia Cearense de Letras. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará,1957.

BARRETO, Mário. Estudos da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1903.

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; ABL, 2001.

GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.

GONÇALVES, Inez Beatriz de Castro Martins. A banda de música da Força Policial Militar do Ceará: Uma História Social de Práticas e Identidades Musicais. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: UFMG/UNL, 2017.

GRAÇA, Heráclito. Fatos da Linguagem. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2005.

INEP. Guia de fontes em política educacional do Ceará. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, acesso em 2026.

LEÃO, Múcio. Suplemento Literário de “A Manhã”: Autores e Livros. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1945.

MACIEL, Maximino. A Gramática Descritiva. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves & Cia, 1914.  

MELO, Hélio. Heráclito Graça: Grandeza e Simplicidade. Fortaleza: ABL, 1977.