quarta-feira, 22 de abril de 2026

Guilherme Studart

Guilherme Studart - (1856-1938) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Guilherme Chambly Studart - Foi um filósofo cearense ligado às correntes de pensamento da filosofia historiográfica. Atuou como médico, historiador, filósofo e cônsul. Ficou conhecido como o “Barão de Studart”. Iniciou seus primeiros estudos no Ateneu Cearense, deslocando-se em seguida para o Ginásio Baiano, onde concluiu seus estudos secundários na área de Humanidades. Depois ingressou na faculdade de Medicina da Bahia, formando-se por volta do ano de 1877. Retornou ao Ceará, onde passou a exercer atividades médicas no Hospital da Caridade de Fortaleza. Escreveu sobre uma variedade de assuntos técnicos e científicos, tratando de temas históricos, geográficos, médicos e literários. Chegou a atuar como professor, lecionando as disciplinas de Inglês, Geografia e História do Brasil. Participou de variadas agremiações nacionais e internacionais. Foi um dos fundadores da Academia Cearense de Letras, tendo ocupado inicialmente a cadeira de número 2, migrando posteriormente para a cadeira de número 11; além disso, ocupa o quadro de honra deste cenáculo.

Era filho de um Cônsul Inglês chamado John William Studart e da senhora Leonísia de Castro Barbosa Studart. Na linhagem genealógica, pelo lado paterno, era sobrinho de José Smith de Vasconcelos, primeiro “Barão de Vasconcelos”. Pelo lado materno, era bisneto de Joaquim José Barbosa e de João Facundo de Castro Meneses, o “Major Facundo”. Nasceu na cidade de Fortaleza, no dia 5 de janeiro de 1856, e faleceu na capital cearense, no dia 25 de setembro de 1938.

Filosofia da História

Contribuiu notavelmente com a sistematização da história alencarina, produzindo um conjunto de obras que ajudaram na compreensão da história do Ceará. Reuniu um arsenal literário e uma variedade de documentos que serviram de fontes para o entendimento da vida e dos costumes do povo cearense. Produziu obras de destaque sobre o folclore e a cultura popular nordestina. A obra intelectual de Guilherme Studart estendeu-se por diversas áreas do saber. A produção bibliográfica do Barão de Studart totalizou mais de cem trabalhos de elevado saber e ampla projeção mundial. Realizou várias viagens pelo mundo, a fim de reunir documentos comprobatórios que validassem as informações dos historiadores. Muitos desses documentos foram importantes para a comprovação de fatos relacionados à História do Estado. Entre suas principais viagens de pesquisa estão países como Inglaterra, Portugal, França, Holanda e Espanha.

A metodologia abordada pelo Studart, nas suas obras, buscava apresentar uma verdade mais detalhista do ponto de vista histórico, utilizando documentos autênticos e inéditos que legitimassem essa verdade. Além disso, é possível compreender certo criticismo apresentado por ele sobre a questão das dificuldades que existiam na realização do trabalho de pesquisador historiográfico, apontando também sua dedicação e afeição pelo Ceará. Defendia um tipo de história fundamentada na pesquisa documental, na autenticidade das fontes e na imparcialidade do historiador. Essa estratégia, segundo ele, visava incorporar matérias e materiais para os futuros historiadores, servindo de referência vindoura para os estudos históricos cearenses. Dedicava-se a inventariar, colecionar e publicar documentos e textos sobre a História do Ceará, aplicando de maneira rigorosa os métodos científicos de pesquisa histórica. Boa parte de sua obra foi, e ainda é, uma importante fonte de consulta, não apenas histórica, mas também política e jurídica, pois muitas vezes serviu de bússola orientadora para solução de contendas envolvendo terras e limites territoriais.

No âmbito local, o barão realizou inúmeras ações a fim de reunir seu acervo sobre a história. Muitos negociantes e grandes personalidades lhe procuravam com a finalidade de retribuir alguns auxílios solidários, enviando, para ele, como forma de agradecimento, importantes documentos históricos, pois sabiam que Studart estaria montando uma espécie de museu documental. Seu acervo não se limitava apenas a documentos, mas também tinha outros objetos e demais peças de estimado valor patrimonial e histórico. Relata-se que, logo após a sua morte, o acervo histórico do Barão teria sido esquecido e abandonado. Ele teria deixado e doado uma grande quantidade de documentos originais e inéditos sobre a História do Ceará e do Brasil; porém, devido ao descaso e à falta de cuidados do poder público, grande parte de seu material se perdeu no tempo. Todavia, épocas depois, o historiador Raimundo Girão conseguiu salvar e preservar partes do acervo, o que mais tarde se constituiu na chamada “Coleção Studart”.

Filosofia Humanista

Participou ativamente de movimentos sociais e políticos de sua época. Apesar de ser considerado politicamente conservador, Studart atuou de forma significativa no movimento abolicionista do Ceará, integrando inicialmente a Sociedade Cearense Libertadora. No entanto, por não concordar com os métodos adotados por essa entidade, afastou-se e, juntamente com Meton de Alencar e outros intelectuais de peso, fundou o Centro Abolicionista “25 de Dezembro”, reforçando seu compromisso com o fim da escravidão. Lecionou de maneira altruísta, promovendo a instrução pública e criando espaços de leitura. Para ele, o Ceará teria a capacidade de colaborar com a formação de uma nação civilizada por meio da produção intelectual e literária.

Desempenhou um conjunto de ações caridosas que ajudaram a aliviar o sofrimento do povo cearense. Entre suas principais iniciativas estão as que ele exerceu na sua atuação como médico. Criou algumas instituições filantrópicas alinhadas com a Igreja Católica que buscavam socorrer enfermos, instruir crianças desamparadas e consolar os aflitos de alma. Seu trabalho, em favor dos mais necessitados, lhe rendeu a alcunha de o “Barão da Caridade”. Como reconhecimento, o então bispo do Ceará, D. Joaquim Vieira solicitou a outorga do título de barão da Santa Sé, concedido, em 1900, pelo Papa Leão XIII. Paralelamente, em ratificação aos seus serviços prestados à sociedade e à cultura brasileira, recebeu o título de nobreza de Barão de Studart, autorizado conjuntamente pela Igreja Católica e pelo governo brasileiro. Esse título simbolizou não apenas seu prestígio social, mas também a importância de sua atuação intelectual e humanitária. Desse modo, sua filosofia pode ser sintetizada na frase que simbolizava a Sociedade de São Vicente de Paulo: “Enlacemos o mundo numa grande rede de caridade”.

Filosofia Sapiencial

+ “A providência tudo preside”

+ “Os gênios não têm pátria, são cosmopolitas”

+ “Nem sempre é possível fugir da fria realidade”

+ “É condição essencial num historiador a inteira imparcialidade”

+ “As pesquisas e estudos historiográficos me distraem ‘das agruras da minha vida de médico’.

+ “Não posso esquecer esses investigadores do passado da nossa história que fazem dos salões do Instituto o campo de suas operações”

+ “Conto que meus filhos jamais se afastem dos ensinamentos sobre Pátria e Religião, que jamais eles esqueçam, deverá ser a sua divisa e o seu Norte”.

+ “Peço que minhas obras sejam recebidas com o rigor, que deve haver para as obras desse gênero. Da minha parte nas apreciações criteriosas e desapaixonadas sobre seu valor beberei lições e adquirirei incentivos”

+ “Holocaustava-me no altar da ideia, que há longos anos me seduz, e pela qual há muito me bato, a organização e difusão das associações como escolas de moralização, como um dos elementos primordiais do progresso humano”

+ “Transmitir às massas populares, ilesa e ininterrupta, a tradição, ensinar-lhes os altos feitos dos nossos maiores, zelar com carinho as datas nacionais quer de guerra, quer de paz, é manter brilhante e fecunda escola de civismo, é conservar viva e pujante a sementeira do patriotismo e da liberdade”.

+ “Na Pátria de Iracema, o que ele, Camões, mereceu-nos, o que ao Gabinete de Leitura despertou a magia de seu nome, proclamam bem alto esse alcançar das letras, e essa instituição em hora feliz projetada de um curso noturno para a grande família dos artífices. Que ele seja perene são os votos ardentes dos pelejadores da causa sagrada da instrução popular; eis o que nós almejamos”.

+ “Para a existência de muitos desses documentos, o amanhã será demasiado tarde; a ignorância, o desleixo, as afrontas do tempo os terão consumido em parte ou totalmente; é mister, pois, velar por eles, e o melhor modo de fazer é confiá-los à letra impressa. Assim considerando, é que faço públicos meus documentos, muitos deles originais. Que eles aproveitem a alguém e dar-me-ei por contente”.

Fatos e Curiosidades:

Segundo os biógrafos descrevem, o interesse de Guilherme Studart pela pesquisa histórica surgiu após seu retorno ao estado do Ceará. Depois de formado, ao regressar, constatou que havia apenas registros fragmentados sobre a história local, com ausência de fontes fundamentais para uma compreensão mais ampla do passado. Motivado por essa lacuna, financiou do próprio bolso diversas viagens à Europa, onde realizou pesquisas aprofundadas nas principais bibliotecas europeias. Como resultado, trouxe ao Brasil documentos até então desconhecidos pelos estudiosos da história cearense.

Participou de diversas instituições culturais, literárias, científicas e filantrópicas:

Academia Cearense de Letras; O Instituto do Ceará; O Centro Literário; O Centro Abolicionista; A Associação Médico-Farmacêutica do Ceará; O Centro Médico Cearense; O Círculo Católico de Fortaleza; O Círculo dos Operários Católicos de Fortaleza; O Instituto Pasteur; A filial da Cruz Vermelha no Ceará; O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; Gabinete de Leitura do Aracati; Colônia Cristina; O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia; O Instituto Histórico e Geográfico Pernambucano; Sociedade de Estudos Paraenses; O Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano; O Instituto Histórico e Geográfico Fluminense; A British Medical Association, a Sociedade de Geografia de Paris e a Sociedade de Geografia de Lisboa; Iracema e Boêmia Literária; Gabinete de Leitura Camucinense; Gabinete Viçosense de Leitura; Sociedade de Estudos Paraenses; Instituto Histórico do Pará; Instituto Geográfico e Histórico Piauiense; Arcádia Americana; Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas; Academia Anchieta de Friburgo; Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais; Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte; Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe; Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro; Grêmio Literário e Recreativo Paraibano; Sociedade Brasileira de Homens de Letras; Academia Mineira de Letras; Instituto Geográfico e Histórico do Rio Grande do Sul; Instituto de História e Geografia do Maranhão; Centro de Letras do Paraná; Grêmio Literário e Cívico do Colégio Militar do Ceará; Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo; Instituto Arqueológico e Histórico Alagoano; Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro; Academia Pernambucana de Letras; Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa; Londres; Societé de Geographie, Paris; Societé de Geographie de Havre; Societé Bibliographique de France; Academia Físico-Química Italiana de Palermo; Academia Americana de La História em Buenos Aires; Academia Nacional de História da Venezuela; e Sociedade Acadêmica de História Internacional de Paris; Membro honorário da Academia Anchieta de Curitiba; Professor emérito da Faculdade de Filosofia e Letras do Rio de Janeiro; Conselho Central Metropolitano das organizações vicentinas.

Obras:

Dicionário bibliográfico cearense; A diocese do Ceará; Família Castro, ligeiros apontamentos; Elementos da gramática inglesa; Geografia do Ceará; Seiscentas datas para a história do Ceará na segunda metade do século XVIII; Climatologia, epidemias e endemias do Ceará; Notas para a História do Ceará; Datas e Fatos Para a História do Ceará; Notas sobre a linguagem e costumes do Ceará; Documentos para a história de Martim Soares Moreno; Três mil datas para a história do Ceará no presente século; Documentos para a história do Brasil, especialmente do Ceará; Tese de Doutorado sobre a Eletroterapia;

Fontes:

AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme. Barão de Studart: memória e distinção. Fortaleza: Museu do Ceará e Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2002.

AMORA, Manoel Albano. Academia Cearense de Letras: Síntese Histórica. Revista da academia Cearense de Letras. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará,1957.

AZEVEDO, Rubens. Os 40 da casa do Barão. Brasília: Revista instituto do Ceará, 1993.

BARREIRA, Dolor. História da Literatura Cearense. Fortaleza: Editora do Instituto do Ceará, 1948.

BATISTA, Paula Virgínia Pinheiro. Arquivo de si e do Ceará: a coleção e a escrita de Guilherme Studart (1892–1938). Tese de Doutorado. Fortaleza: UFC, 2014.

FILHO, Rogaciano Leite. A História Do Ceará Passa Por Esta Rua. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2002.

GARCIA, Fátima. Barão de Studart: O Historiador do Ceará. Fortaleza: Blog Ceará em Fotos e História. Publicado em 14 de agosto de 2015, Acesso em 05/04/2026.

GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.

NOBRE, F. Silva. 1001 Cearenses Notáveis. Rio de Janeiro: Editora Casa do Ceará, 1996.

SACRAMENTO BLAKE. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1895.

STUDART, Luís. Apontamentos para a biografia do Barão de Studart. Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1956.