Guilherme Studart - (1856-1938) d.C
Autor: Alysomax Soares
Introdução
Guilherme Chambly Studart - Foi um filósofo cearense ligado às correntes de pensamento da filosofia
historiográfica. Atuou como médico, historiador, filósofo e cônsul. Ficou
conhecido como o “Barão de Studart”. Iniciou seus primeiros estudos no Ateneu Cearense,
deslocando-se em seguida para o Ginásio Baiano, onde concluiu seus estudos
secundários na área de Humanidades. Depois ingressou na faculdade de Medicina
da Bahia, formando-se por volta do ano de 1877. Retornou ao Ceará, onde passou
a exercer atividades médicas no Hospital da Caridade de Fortaleza. Escreveu
sobre uma variedade de assuntos técnicos e científicos, tratando de temas
históricos, geográficos, médicos e literários. Chegou a atuar como professor,
lecionando as disciplinas de Inglês, Geografia e História do Brasil. Participou
de variadas agremiações nacionais e internacionais. Foi um dos fundadores da
Academia Cearense de Letras, tendo ocupado inicialmente a cadeira de número 2, migrando
posteriormente para a cadeira de número 11; além disso, ocupa o quadro de honra
deste cenáculo.
Era filho de um Cônsul Inglês chamado John William Studart e da senhora
Leonísia de Castro Barbosa Studart. Na linhagem genealógica, pelo lado paterno,
era sobrinho de José Smith de Vasconcelos, primeiro “Barão de Vasconcelos”. Pelo
lado materno, era bisneto de Joaquim José Barbosa e de João Facundo de Castro
Meneses, o “Major Facundo”. Nasceu na cidade de Fortaleza, no dia 5 de janeiro
de 1856, e faleceu na capital cearense, no dia 25 de setembro de 1938.
Filosofia da História
Contribuiu notavelmente com a sistematização da história alencarina, produzindo um conjunto de obras que ajudaram na compreensão da história do Ceará. Reuniu um arsenal literário e uma variedade de documentos que serviram de fontes para o entendimento da vida e dos costumes do povo cearense. Produziu obras de destaque sobre o folclore e a cultura popular nordestina. A obra intelectual de Guilherme Studart estendeu-se por diversas áreas do saber. A produção bibliográfica do Barão de Studart totalizou mais de cem trabalhos de elevado saber e ampla projeção mundial. Realizou várias viagens pelo mundo, a fim de reunir documentos comprobatórios que validassem as informações dos historiadores. Muitos desses documentos foram importantes para a comprovação de fatos relacionados à História do Estado. Entre suas principais viagens de pesquisa estão países como Inglaterra, Portugal, França, Holanda e Espanha.
A metodologia abordada pelo Studart, nas suas obras, buscava apresentar
uma verdade mais detalhista do ponto de vista histórico, utilizando documentos
autênticos e inéditos que legitimassem essa verdade. Além disso, é possível
compreender certo criticismo apresentado por ele sobre a questão das
dificuldades que existiam na realização do trabalho de pesquisador
historiográfico, apontando também sua dedicação e afeição pelo Ceará. Defendia
um tipo de história fundamentada na pesquisa documental, na autenticidade das
fontes e na imparcialidade do historiador. Essa estratégia, segundo ele, visava
incorporar matérias e materiais para os futuros historiadores, servindo de
referência vindoura para os estudos históricos cearenses. Dedicava-se a
inventariar, colecionar e publicar documentos e textos sobre a História do
Ceará, aplicando de maneira rigorosa os métodos científicos de pesquisa
histórica. Boa parte de sua obra foi, e ainda é, uma importante fonte de
consulta, não apenas histórica, mas também política e jurídica, pois muitas
vezes serviu de bússola orientadora para solução de contendas envolvendo terras
e limites territoriais.
No âmbito local, o barão realizou inúmeras ações a fim de reunir seu
acervo sobre a história. Muitos negociantes e grandes personalidades lhe
procuravam com a finalidade de retribuir alguns auxílios solidários, enviando,
para ele, como forma de agradecimento, importantes documentos históricos, pois
sabiam que Studart estaria montando uma espécie de museu documental. Seu acervo
não se limitava apenas a documentos, mas também tinha outros objetos e demais
peças de estimado valor patrimonial e histórico. Relata-se que, logo após a sua
morte, o acervo histórico do Barão teria sido esquecido e abandonado. Ele teria
deixado e doado uma grande quantidade de documentos originais e inéditos sobre
a História do Ceará e do Brasil; porém, devido ao descaso e à falta de cuidados
do poder público, grande parte de seu material se perdeu no tempo. Todavia, épocas
depois, o historiador Raimundo Girão conseguiu salvar e preservar partes do
acervo, o que mais tarde se constituiu na chamada “Coleção Studart”.
Filosofia Humanista
Participou ativamente de movimentos sociais e políticos de sua época. Apesar
de ser considerado politicamente conservador, Studart atuou de forma
significativa no movimento abolicionista do Ceará, integrando inicialmente a
Sociedade Cearense Libertadora. No entanto, por não concordar com os métodos
adotados por essa entidade, afastou-se e, juntamente com Meton de Alencar e
outros intelectuais de peso, fundou o Centro Abolicionista “25 de Dezembro”, reforçando
seu compromisso com o fim da escravidão. Lecionou de maneira altruísta,
promovendo a instrução pública e criando espaços de leitura. Para ele, o Ceará
teria a capacidade de colaborar com a formação de uma nação civilizada por meio
da produção intelectual e literária.
Desempenhou um conjunto de ações caridosas que ajudaram a aliviar o
sofrimento do povo cearense. Entre suas principais iniciativas estão as que ele
exerceu na sua atuação como médico. Criou algumas instituições filantrópicas
alinhadas com a Igreja Católica que buscavam socorrer enfermos, instruir
crianças desamparadas e consolar os aflitos de alma. Seu trabalho, em favor dos
mais necessitados, lhe rendeu a alcunha de o “Barão da Caridade”. Como
reconhecimento, o então bispo do Ceará, D. Joaquim Vieira solicitou a outorga
do título de barão da Santa Sé, concedido, em 1900, pelo Papa Leão XIII. Paralelamente,
em ratificação aos seus serviços prestados à sociedade e à cultura brasileira,
recebeu o título de nobreza de Barão de Studart, autorizado conjuntamente pela Igreja
Católica e pelo governo brasileiro. Esse título simbolizou não apenas seu
prestígio social, mas também a importância de sua atuação intelectual e
humanitária. Desse modo, sua filosofia pode ser sintetizada na frase que
simbolizava a Sociedade de São Vicente de Paulo: “Enlacemos o mundo numa
grande rede de caridade”.
Filosofia Sapiencial
+ “A providência tudo preside”
+ “Os gênios não têm pátria, são cosmopolitas”
+ “Nem sempre é possível fugir da fria realidade”
+ “É condição essencial num historiador a inteira imparcialidade”
+ “As pesquisas e estudos historiográficos me distraem ‘das agruras da
minha vida de médico’.
+ “Não posso esquecer esses investigadores do passado da nossa história
que fazem dos salões do Instituto o campo de suas operações”
+ “Conto que meus filhos jamais se afastem dos ensinamentos sobre Pátria
e Religião, que jamais eles esqueçam, deverá ser a sua divisa e o seu Norte”.
+ “Peço que minhas obras sejam recebidas com o rigor, que deve haver
para as obras desse gênero. Da minha parte nas apreciações criteriosas e
desapaixonadas sobre seu valor beberei lições e adquirirei incentivos”
+ “Holocaustava-me no altar da ideia, que há longos anos me seduz, e
pela qual há muito me bato, a organização e difusão das associações como
escolas de moralização, como um dos elementos primordiais do progresso humano”
+ “Transmitir às massas populares, ilesa e ininterrupta, a tradição, ensinar-lhes
os altos feitos dos nossos maiores, zelar com carinho as datas nacionais quer
de guerra, quer de paz, é manter brilhante e fecunda escola de civismo, é
conservar viva e pujante a sementeira do patriotismo e da liberdade”.
+ “Na Pátria de Iracema, o que ele, Camões, mereceu-nos, o que ao
Gabinete de Leitura despertou a magia de seu nome, proclamam bem alto esse
alcançar das letras, e essa instituição em hora feliz projetada de um curso
noturno para a grande família dos artífices. Que ele seja perene são os votos
ardentes dos pelejadores da causa sagrada da instrução popular; eis o que nós
almejamos”.
+ “Para a existência de muitos desses documentos, o amanhã será
demasiado tarde; a ignorância, o desleixo, as afrontas do tempo os terão
consumido em parte ou totalmente; é mister, pois, velar por eles, e o melhor
modo de fazer é confiá-los à letra impressa. Assim considerando, é que faço
públicos meus documentos, muitos deles originais. Que eles aproveitem a alguém
e dar-me-ei por contente”.
Fatos e Curiosidades:
Segundo os biógrafos descrevem, o interesse de Guilherme Studart pela
pesquisa histórica surgiu após seu retorno ao estado do Ceará. Depois de
formado, ao regressar, constatou que havia apenas registros fragmentados sobre
a história local, com ausência de fontes fundamentais para uma compreensão mais
ampla do passado. Motivado por essa lacuna, financiou do próprio bolso diversas
viagens à Europa, onde realizou pesquisas aprofundadas nas principais bibliotecas
europeias. Como resultado, trouxe ao Brasil documentos até então desconhecidos
pelos estudiosos da história cearense.
Participou de diversas instituições culturais, literárias, científicas e
filantrópicas:
Academia Cearense de Letras; O Instituto do Ceará; O Centro Literário; O
Centro Abolicionista; A Associação Médico-Farmacêutica do Ceará; O Centro Médico
Cearense; O Círculo Católico de Fortaleza; O Círculo dos Operários Católicos de
Fortaleza; O Instituto Pasteur; A filial da Cruz Vermelha no Ceará; O Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro; Gabinete de Leitura do Aracati; Colônia
Cristina; O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia; O Instituto Histórico e
Geográfico Pernambucano; Sociedade de Estudos Paraenses; O Instituto Histórico
e Geográfico de Santa Catarina; O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo;
O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano; O Instituto Histórico e
Geográfico Fluminense; A British Medical Association, a Sociedade de Geografia
de Paris e a Sociedade de Geografia de Lisboa; Iracema e Boêmia Literária; Gabinete
de Leitura Camucinense; Gabinete Viçosense de Leitura; Sociedade de Estudos
Paraenses; Instituto Histórico do Pará; Instituto Geográfico e Histórico
Piauiense; Arcádia Americana; Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas;
Academia Anchieta de Friburgo; Instituto Histórico e Geográfico de Minas
Gerais; Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte; Instituto
Histórico e Geográfico de Sergipe; Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de
Janeiro; Grêmio Literário e Recreativo Paraibano; Sociedade Brasileira de
Homens de Letras; Academia Mineira de Letras; Instituto Geográfico e Histórico
do Rio Grande do Sul; Instituto de História e Geografia do Maranhão; Centro de
Letras do Paraná; Grêmio Literário e Cívico do Colégio Militar do Ceará;
Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo; Instituto Arqueológico e
Histórico Alagoano; Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro; Academia
Pernambucana de Letras; Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa; Londres;
Societé de Geographie, Paris; Societé de Geographie de Havre; Societé
Bibliographique de France; Academia Físico-Química Italiana de Palermo;
Academia Americana de La História em Buenos Aires; Academia Nacional de
História da Venezuela; e Sociedade Acadêmica de História Internacional de Paris;
Membro honorário da Academia Anchieta de Curitiba; Professor emérito da
Faculdade de Filosofia e Letras do Rio de Janeiro; Conselho Central
Metropolitano das organizações vicentinas.
Obras:
Dicionário bibliográfico cearense; A diocese do Ceará; Família Castro,
ligeiros apontamentos; Elementos da gramática inglesa; Geografia do Ceará; Seiscentas
datas para a história do Ceará na segunda metade do século XVIII; Climatologia,
epidemias e endemias do Ceará; Notas para a História do Ceará; Datas e Fatos
Para a História do Ceará; Notas sobre a linguagem e costumes do Ceará; Documentos
para a história de Martim Soares Moreno; Três mil datas para a história do
Ceará no presente século; Documentos para a história do Brasil, especialmente
do Ceará; Tese de Doutorado sobre a Eletroterapia;
Fontes:
AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme. Barão de Studart: memória e
distinção. Fortaleza: Museu do Ceará e Secretaria da Cultura e Desporto do
Ceará, 2002.
AMORA, Manoel Albano. Academia Cearense de Letras: Síntese Histórica.
Revista da academia Cearense de Letras. Fortaleza: Imprensa Universitária do
Ceará,1957.
AZEVEDO, Rubens. Os 40 da casa do Barão. Brasília: Revista
instituto do Ceará, 1993.
BARREIRA, Dolor. História da Literatura Cearense. Fortaleza:
Editora do Instituto do Ceará, 1948.
BATISTA, Paula Virgínia Pinheiro. Arquivo de si e do Ceará: a coleção
e a escrita de Guilherme Studart (1892–1938). Tese de Doutorado. Fortaleza:
UFC, 2014.
FILHO, Rogaciano Leite. A História Do Ceará Passa Por Esta Rua. Fortaleza:
Fundação Demócrito Rocha, 2002.
GARCIA, Fátima. Barão de Studart: O Historiador do Ceará. Fortaleza:
Blog Ceará em Fotos e História. Publicado em 14 de agosto de 2015, Acesso em
05/04/2026.
GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.
NOBRE, F. Silva. 1001 Cearenses Notáveis. Rio de Janeiro: Editora
Casa do Ceará, 1996.
SACRAMENTO BLAKE. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1895.
STUDART, Luís. Apontamentos para a biografia do Barão de Studart.
Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1956.