segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Filosofia da Filosofia

Filosofia da Filosofia

Autor: Alysomax Soares

Introdução ao tema

A chamada “metafilosofia”, conhecida também como “filosofia da filosofia” é uma área do saber filosófico que busca investigar o que é a filosofia e problematizar as questões relativas à filosofia, enquanto área do conhecimento. A filosofia da filosofia é a investigação crítica da natureza, dos fundamentos, dos métodos, dos objetivos e dos limites da própria filosofia. A teoria do conhecimento trabalha com a ideia de que o ser humano pode chegar ao conhecimento de algo por meio dos seguintes saberes: teológico, intuitivo, empírico, filosófico e científico. A filosofia tem uma ramificação muito ampla, tendo como principais áreas de seu objeto de estudos a filosofia moral, a metafísica, a teoria do conhecimento, a filosofia política, a lógica e a estética. Além disso, relaciona-se também com a gnosiologia, com a epistemologia e com a filosofia da ciência.

A filosofia pode ser entendida como o estudo crítico e racional de questões fundamentais sobre o conhecimento. A filosofia, ao discutir um problema, busca realizar uma análise reflexiva, introspectiva, extrospectiva, crítica, sistematizadora e problematizadora do fenômeno investigado. Todo conhecimento científico precisa da filosofia para consolidar seu desenvolvimento, por isso, a filosofia, é muitas vezes descrita como a mãe das ciências. Ela busca compreender o conhecimento humano em suas partes, singularidades e totalidades.

Cada época construiu um conceito de filosofia que se modificou ao longo do tempo, podendo ser pontuado que a filosofia, além de complexa, também é dinâmica. As definições construídas ao longo da história muitas vezes redefinem ou complementam novas conceituações. Pensadores renomados colocaram a Grécia antiga como a criadora da filosofia, porém essa interpretação é rebatida por alguns pesquisadores, que consideram essa visão eurocêntrica, eles esclarecem que os gregos apenas nomearam a concepção de filosofia e construíram uma ideia de filosofia à sua maneira. Para lançar mais luz a essa questão, alguns conceitos e definições serão abordados e apresentados com a finalidade de evidenciar uma visão mais holística da filosofia.

Filosofia Primitiva

A filosofia na Mesopotâmia Antiga desenvolveu-se por meio das reflexões dos povos que habitaram a região localizada entre os rios Tigre e Eufrates, onde atualmente se encontra principalmente o Iraque. Entre os principais povos mesopotâmicos estavam os sumérios, acádios, babilônios e assírios. O pensamento mesopotâmico estava profundamente ligado à religião, aos mitos, à observação da natureza e à organização da sociedade. Procurava compreender a origem do mundo, o funcionamento da natureza, o destino humano e a relação entre os seres humanos e os deuses. Seu sistema de pensamento contribuiu significativamente para o desenvolvimento da matemática, da astronomia, do direito e das primeiras reflexões sobre a existência humana.

A importância do pensamento mesopotâmico está em suas primeiras tentativas de compreender o universo, explicar a existência humana, organizar a vida coletiva e estabelecer princípios de justiça. A filosofia na Mesopotâmia Antiga caracterizou-se pela união entre religião, mitologia, observação da natureza e reflexão sobre a existência. Por meio de obras como a Epopeia de Gilgamesh, do poema Enuma Elish e de suas tradições jurídicas e astronômicas, os mesopotâmicos desenvolveram formas de compreender a origem do universo, a mortalidade, a justiça e a organização social. Seu legado demonstra que o ser humano já procurava respostas para grandes questões da existência, bem antes do surgimento da filosofia grega.

Os chineses antigos tinham uma concepção de filosofia muito ampla. Contudo, eles estabeleciam uma relação entre teologia, política e filosofia. Um conceito fundamental visto como “tian”, isto é, “mandato do céu”, era entendido como a ideia de que a realidade possuía uma ordem moral que os seres humanos deveriam compreender e respeitar. Juntamente a esse conceito, relacionava-se a noção de “Yin e Yang” que representava a complementaridade e o equilíbrio de tendências opostas ou diferentes que participavam dos processos de transformação natural. Desse modo, a realidade poderia ser compreendida por meio da interação e da mutação de tendências diferentes.

O “Dao ou o Tao”, também chamado de caminho do meio, deu origem à filosofia do taoísmo, que pregava a ideia de que viver bem exigia compreender o curso das coisas e evitar ações desnecessariamente contrárias à dinâmica da realidade. Paralelamente ao taoísmo, surgiu o confucionismo em outra região da China, defendendo a importância da educação, da virtude, do respeito, dos ritos e das responsabilidades sociais. Considerava que o aperfeiçoamento moral das pessoas contribuía para a construção de uma sociedade mais justa e organizada. Seu foco principal era a formação ética do indivíduo e a qualidade das relações humanas. Essas concepções contribuíram para o desenvolvimento posterior de uma filosofia preocupada com a ética, a política e a harmonia entre o mundo humano e o universo. Sua contribuição filosófica consistia em relacionar o exercício do poder à responsabilidade moral. Por isso, a filosofia chinesa da antiguidade mantinha uma forte relação entre moralidade, natureza e poder político.

A filosofia indiana surgiu na Antiguidade, no território da Índia, e desenvolveu-se principalmente a partir das tradições religiosas, dos questionamentos sobre a existência humana e da busca pelo conhecimento e pela libertação espiritual. Suas origens estão relacionadas aos textos sagrados dos Vedas, que foram produzidos ao longo do segundo milênio a.C. A filosofia indiana dedicou grande atenção à relação entre o ser humano, a realidade, a consciência, o sofrimento e a dimensão espiritual da existência cósmica. Desenvolveu diferentes escolas de pensamento, que apresentavam interpretações variadas sobre a realidade e a libertação humana. O sistema filosófico indiano influenciou várias correntes de pensamento, como o hinduísmo, o budismo e o jainismo.

A filosofia indiana contribuiu para o desenvolvimento de reflexões sobre a consciência, a ética, a natureza da realidade e o sentido da existência. Suas tradições influenciaram profundamente a cultura e a espiritualidade asiáticas. A filosofia indiana na Antiguidade foi uma das grandes tradições intelectuais da humanidade. Por meio dos Vedas, das Upanishads e de escolas como o budismo e o jainismo, os pensadores indianos buscaram compreender a realidade, explicar o sofrimento e encontrar caminhos para uma vida mais consciente e equilibrada. Seu legado demonstra que diferentes civilizações desenvolveram formas próprias de investigar as grandes questões da existência humana.

A filosofia no Egito antigo articulava conhecimentos práticos, ensinamentos morais, crenças religiosas e reflexões sobre a existência humana. Um dos conceitos mais importantes desse pensamento era o de Maat, que representava a verdade, a justiça, o equilíbrio, a harmonia e a ordem universal. Os egípcios argumentavam que a sociedade e o universo deveriam permanecer em equilíbrio. Eles acreditavam na continuidade da existência depois da morte física e consideravam importante viver de maneira justa para alcançar uma condição favorável no além. Essa crença influenciou suas práticas funerárias, a mumificação e a produção de textos religiosos, como o chamado Livro dos Mortos.

O pensamento egípcio também valorizava a sabedoria, a prudência, o respeito aos mais velhos, a moderação e o bom comportamento. Esses ensinamentos apareciam em textos conhecidos como Instruções de Sabedoria, nos quais mestres e autoridades transmitiam orientações sobre como agir corretamente, governar, conviver em sociedade e tomar decisões. A filosofia no Egito Antigo foi uma forma de pensamento que procurava compreender a ordem do universo, orientar a conduta humana e estabelecer uma convivência social justa e harmoniosa. Sua principal característica foi a integração entre religião, moral, conhecimento prático e reflexão sobre a vida e a morte.

O Despertar da Filosofia

Os primeiros filósofos gregos, conhecidos como pré-socráticos, compreendiam que filosofar significava, sobretudo, investigar racionalmente a realidade, procurar as causas dos fenômenos e descobrir o princípio fundamental que organizava o universo. Por isso, muitos deles ficaram conhecidos como filósofos da natureza. Do ponto de vista literal, a filosofia é definida etimologicamente como “amor à sabedoria”. Contudo, essa definição clássica é vista por muitos estudiosos como uma visão superficial da filosofia, sendo sua conceituação algo bem mais profundo e mutável. Embora Tales de Mileto seja muitas vezes descrito como o primeiro filósofo da Grécia Antiga, credita-se a Pitágoras a concepção do termo “filosofia”, tendo ele provavelmente chegado a essa definição por influência de uma pensadora famosa em seu tempo, conhecida por Temistocleia de Delfos. Ela teria ensinado muitas coisas a Pitágoras, levando-o a chegar à conclusão, sob a influência dela, de que ele seria apenas um amigo do saber. Portanto, para os pré-socráticos, filosofar significava, além de investigar racionalmente a realidade, buscar compreender sua origem, seus princípios, sua estrutura e suas transformações.

Na era clássica, foi que a filosofia ensaiou seu primeiro processo de sistematização. Sócrates buscou relacionar o filosofar com a ideia de autoconhecimento. Para ele, filosofar era questionar, reconhecer a própria ignorância e buscar, por meio do diálogo e da razão, o conhecimento seguro para se obter uma vida virtuosa. A filosofia, então, não seria apenas um conhecimento teórico, ela deveria contribuir para que o indivíduo buscasse viver melhor e de maneira moralmente correta. Para seu discípulo Platão, a filosofia era uma constante busca pela verdade e pelo conhecimento verdadeiro. Ele explicava que filosofar seria buscar, por meio da razão, ultrapassar as aparências e alcançar o conhecimento da verdade e das realidades inteligíveis, ou seja, a busca pela contemplação de ideias. Posteriormente, outro grande pensador conhecido como Aristóteles pontuou que o conhecimento filosófico se inicia com a admiração e o espanto diante da realidade. Desse modo, o ser humano observa o mundo e procura compreender por que as coisas são como elas são. Ele desenvolveu uma concepção mais sistemática da filosofia. Portanto, pode-se concluir que, para os pensadores clássicos filosofar seria investigar a realidade visando entender seus fundamentos.

Na fase helenística, o filósofo Epicuro buscou definir a filosofia como sendo uma atividade prática capaz de conduzir o ser humano à felicidade e à ausência de perturbação da alma, também chamada de ataraxia. Segundo ele, a filosofia era um exercício para alcançar uma vida feliz e tranquila. Paralelamente, os pensadores estoicos buscaram definir a filosofia como a arte do bem viver. Desse modo, o ser humano deveria controlar suas atitudes, procurando dominar suas paixões para alcançar uma vida virtuosa. Por isso, segundo eles, filosofar era aprender a viver.

Para os céticos dessa época, a filosofia seria uma investigação contínua da realidade, entretanto como o homem não era capaz de explicar tudo, deveria suspender o juízo nos casos em que não tivesse plena certeza do fenômeno investigado. Nesse contexto, o filosofar seria investigar, questionar e suspender o julgamento diante daquilo que não poderia ser conhecido com absoluta segurança. Logo após, a escola Cínica procurou construir uma ideia de filosofia que buscasse viver de maneira simples e independente, baseada na liberdade, na autossuficiência e na rejeição das convenções sociais consideradas antinaturais. Dessa maneira, filosofar era viver de acordo com a natureza, libertando-se das convenções e necessidades artificiais.

O Desabrochar da Filosofia

Para a maioria dos pensadores medievais, filosofar era buscar racionalmente a verdade, compreender a realidade e aproximar-se de Deus por meio da razão, sem necessariamente considerar a razão como algo superior à fé. Agostinho de Hipona entendia a filosofia como uma busca pela verdade e pela sabedoria, sendo a verdadeira sabedoria aquela que conduz o ser humano a Deus. Para ele, filosofia e religião não eram necessariamente opostas. A razão poderia auxiliar na compreensão das verdades da fé. Nesse sentido, ele dizia: “Crê para compreender e compreende para crer”.

Para Avicena, a filosofia era uma forma de conhecimento racional que permitia ao ser humano investigar as causas e os princípios fundamentais de tudo o que existe. Ele acreditava que, por meio da razão e da investigação intelectual, era possível compreender a natureza, a existência dos seres e a relação entre o mundo e Deus. Já o pensador Averróis conceituava a filosofia como o estudo racional da realidade, especialmente por meio da lógica e da investigação das causas naturais. Para Averróis, a filosofia era uma atividade racional que permitia investigar a realidade e aprofundar a compreensão da verdade, sem necessariamente entrar em conflito com a religião.

Pedro Abelardo, outro filósofo medieval, utilizou a ideia de razão, da dúvida e da investigação racional como instrumentos de compreensão da realidade. Para ele, questionar não significava necessariamente negar a fé. A dúvida poderia ser um instrumento para alcançar uma compreensão mais profunda. O fundador do tomismo, conhecido como São Tomás de Aquino defendia a tese de que existem verdades que podem ser alcançadas pela razão “natural” e outras que dependem da revelação “divina”. Enquanto isso, para Guilherme de Ockham, era necessário distinguir aquilo que poderia ser conhecido pela experiência e pela razão, daquilo que pertenceria à fé e à revelação. Compreende-se que, nessa fase, a filosofia e a teologia tiveram forte relação, mantendo, entre si, influências recíprocas.   

O Florescimento da Filosofia

René Descartes explicava que filosofar significava buscar conhecimentos seguros por meio da razão, colocando em dúvida aquilo que pudesse ser questionado. Utilizava a dúvida metódica, isto é, duvidar das crenças e conhecimentos que não apresentam certezas suficientes. Para ele, a filosofia seria uma investigação racional que buscava alcançar conhecimentos verdadeiros e seguros. Segundo Francis Bacon, o conhecimento não deveria permanecer apenas no campo da especulação. Era necessário observar, experimentar e investigar a natureza. A filosofia deveria investigar racionalmente a realidade e produzir conhecimentos capazes de ampliar o domínio humano sobre a natureza. Sua filosofia influenciou o desenvolvimento do método experimental e da ciência moderna.

O filósofo Thomas Hobbes compreendia a filosofia especialmente pela investigação das causas e consequências dos fenômenos. Para Hobbes, filosofar significava compreender racionalmente como as coisas acontecem e quais são suas causas. Já o pensador John Locke deslocou a atenção filosófica para o problema do conhecimento humano. Segundo ele, a filosofia seria uma investigação crítica sobre a origem, a possibilidade e os limites do conhecimento humano. O racionalista Leibniz defendia que a filosofia deveria buscar os princípios fundamentais da realidade, ou seja, a investigação dos fundamentos últimos das coisas. Enquanto isso, o empirista David Hume advertia que a filosofia era uma investigação crítica da experiência humana e dos “limites” do conhecimento. O teórico Kant argumentava que a filosofia era uma reflexão crítica e racional sobre o conhecimento, a moral, a liberdade, a existência e as “condições” da razão humana. Nesse sentido, a filosofia moderna transmutou uma conceituação de que a filosofia seria a busca racional, empírica e crítica da origem, dos fins e dos fundamentos do conhecimento.

O Desenvolvimento da Filosofia

Para Hegel, a realidade não é estática, ela se desenvolve por meio de contradições e transformações. A filosofia procura compreender racionalmente esse processo. Portanto, filosofia seria a compreensão racional do movimento e do desenvolvimento da realidade histórica. O filósofo Karl Marx definia a filosofia como crítica e transformadora da sociedade. Para ele, não basta interpretar o mundo, é necessário compreender suas estruturas sociais e contribuir para sua transformação. A filosofia, então, é um instrumento de crítica da realidade e de reflexão sobre as condições de transformação da sociedade. Para Nietzsche, filosofar significava questionar os valores que orientam a existência humana. A filosofia seria uma atividade crítica que questiona valores, verdades e formas estabelecidas de interpretar a existência. Para ele, filosofar também envolve uma afirmação da vida e uma criação de novos valores.

Edmund Husserl, fundador da fenomenologia, procurou transformar a filosofia em uma investigação rigorosa da experiência e da consciência. Nesse sentido, a filosofia seria a investigação rigorosa da experiência e dos modos pelos quais os fenômenos se apresentam à consciência. Sartre definiu a filosofia como uma reflexão crítica sobre a existência, a liberdade, a responsabilidade e as escolhas humanas, enquanto Ludwig Wittgenstein apresentou uma concepção diferente, para ele, muitos problemas filosóficos surgem porque utilizamos a linguagem de maneira confusa. A tarefa da filosofia seria, portanto, esclarecer o funcionamento da linguagem e dissolver determinados problemas conceituais. Dessa maneira, a filosofia poderia ser definida como uma atividade de esclarecimento da linguagem e dos conceitos que utilizamos para pensar e falar sobre o mundo. A definição de Michel Foucault observava a filosofia como uma prática crítica que questiona os regimes de verdade, as relações de poder e os processos que constituem os sujeitos.

Considerações Finais

Alguns pensadores consideram a filosofia como sendo apenas uma forma de conhecimento, porém outros estudiosos consideram a filosofia como uma ciência.  E ainda há outros tantos que apontam que a filosofia seria o caminho entre o conhecer e o conhecido, ou seja, uma ponte de elucidação da própria filosofia até seu resultado que seria a ciência, portanto a ideia de filosofia transita entre os vários estágios de conhecimento, podendo ser delimitada tanto como conhecimento em vias de formação, tanto como ciência já produzida.

Para Gilles Deleuze e Félix Guattari, a filosofia é a arte de formar, de inventar e de fabricar conceitos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos. Para Caio Prado Júnior, a filosofia não pode ser reduzida a uma atividade baseada em especulações livres, desprovidas de organização ou fundamentação. Ele descreve a filosofia como uma modalidade de conhecimento caracterizada pelo rigor racional e pela análise crítica. Sua particularidade está, sobretudo, em tomar o próprio conhecimento humano como objeto de investigação. Nesse sentido, a filosofia pode ser compreendida como uma reflexão sobre o saber, examinando suas bases, seus limites, seus critérios de validade e os significados atribuídos aos diferentes conhecimentos construídos pela humanidade.

Nessa perspectiva, a filosofia é o "conhecimento do conhecimento". Seu papel é distinto, consiste em questionar criticamente os fundamentos e as condições que possibilitam as diferentes formas de conhecimento. A filosofia possui como uma de suas principais características a investigação crítica do conhecimento humano. Enquanto as ciências particulares concentram suas pesquisas em determinados objetos e aspectos da realidade, a filosofia procura ultrapassar essas delimitações para analisar os fundamentos, os métodos, os pressupostos e os critérios de validade do próprio saber. Portanto, a filosofia exerce uma função crítica e reflexiva, voltada não apenas para aquilo que conhecemos, mas também para a maneira como o conhecimento é produzido, fundamentado e validado.

 

Fontes:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Editora Moderna, 2010.

BORNHEIM, Gerd. Introdução ao filosofar. Rio de Janeiro: Editora Record, 1980.

BUZZI, Arcângelo. Introdução ao pensar: o ser, o conhecimento e a linguagem. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Editora Cultrix, 1997.

CARREIRA, José Nunes. Filosofia Antes dos Gregos. Lisboa: Europa-América, 1994.

CHAUÍ, Marilena de Souza. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2012.

COSTA, Matheus Oliva da. Filosofia Chinesa I: Textos Selecionados. Série Investigação filosófica. Pelotas: Editora UFPle / Dissertation, 2022.

COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirta. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva: 2010.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Filosofia Antiga. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

LIBERA, Alain de. A Filosofia Medieval. São Paulo: Editora Loyola, 1998

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

MARTINS, Roberto de Andrade. Muṇḍaka Upaniṣad: o conhecimento de Brahman e do Atman. São Paulo: LF Editorial, 2019.

PRADO JÚNIOR, Caio. O que é filosofia. São Paulo: Editora Brasiliense, 2005.

REALE, Giovani. História da filosofia. São Paulo: Editora Paulinas, 2006.

RUSSELL, Bertrand. Os problemas da filosofia. Florianópolis: NEL/UFSC Publicações, 2025.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Liberato Barroso

Liberato Barroso – (1830 a 1885)

Autor: Alysomax Soares

Introdução

José Liberato Barroso - Foi um filósofo cearense ligado às correntes de pensamento da filosofia pública, inclinando-se para as áreas jurídicas e educacionais. Atuou como magistrado, escritor, filósofo, tradutor e político brasileiro. Era considerado um dos principais intelectuais de seu tempo. Recebeu o título de “Conselheiro” devido aos seus altos serviços prestados à coroa imperial, tendo ficado conhecido como o Conselheiro Doutor José Liberato Barroso. Liberato deriva do latim "liberatus", que significa "libertado" ou "solto". É considerado o patrono da cadeira de número 20 da Academia Cearense de Letras. Foi membro da loja maçônica Fraternidade Cearense. Recebeu a condecoração da Grã-Cruz da Ordem Ernestina, da Casa Ducal da Saxônia. Exerceu atividades de deputado provincial e geral pelo Ceará. Presidiu a Província do Ceará e de Pernambuco. Laborou como senador do Império e Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

Era filho de Joaquim Liberato Barroso com a senhora Francisca Luduvina Barroso. Nasceu no município de Aracati, Ceará, no dia 21 de setembro de 1830. Faleceu no dia 2 de outubro de 1885, na cidade do Rio de Janeiro. Seu prestígio político e intelectual fez com que diversas cidades brasileiras lhe prestassem homenagens, incluindo a tradicional Rua Liberato Barroso, no Centro de Fortaleza.

Filosofia do Direito

Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife no ano de 1852 e, aproximadamente em 1857, obteve o grau de Doutor em Ciências Jurídicas. Ao longo de sua trajetória acadêmica, exerceu o magistério na própria instituição, ministrando disciplinas voltadas às ciências jurídicas e sociais. Paralelamente à carreira docente, destacou-se como advogado e integrou o círculo de conselheiros do Imperador durante o segundo reinado do Brasil. Chegou a trabalhar como promotor público na cidade de Aracati. Suas obras sobre direito comercial e direito criminal buscavam sistematizar e modernizar o ordenamento jurídico brasileiro. Nesses estudos, refletia sobre temas ligados à segurança jurídica, ao aperfeiçoamento da máquina pública e das legislações nacionais. Posicionava-se a favor de que, nos anos iniciais de estudo do curso de Direito, fossem implementadas as disciplinas de Filosofia, Literatura e Ciências Gerais como introdução ao estudo e letramento do universo jurídico.

Entre suas contribuições intelectuais, elaborou um compêndio legislativo que reunia informações sobre a instalação e o encerramento das sessões da Assembleia Provincial do Ceará, abrangendo o período de 1835 a 1861. Esse texto continha leis, resoluções e regulamentos focados na administração, infraestrutura e organização das vilas, bem como mapeava a construção do Estado, a estruturação institucional e a sociedade cearense no início de sua autonomia política provincial. A obra constitui uma importante fonte documental para a compreensão da atividade legislativa da época, permitindo analisar o processo de elaboração, discussão e aprovação das normas jurídicas, além de oferecer valiosas informações para o estudo da história do direito e das instituições políticas daquele tempo.

Filosofia Política

Dotado de forte espírito nacionalista e patriótico, ele destacou-se por sua atuação na defesa da modernização do Estado, da expansão da instrução pública, do fortalecimento das instituições liberais e da valorização da educação como instrumento de progresso nacional. Seu pensamento influenciou debates sobre administração pública, direito, ensino e cidadania. Criticava os efeitos herdados do colonialismo brasileiro, explicando que eles seriam os principais responsáveis por alguns dos problemas sociais.

Realizou publicações no periódico “O Aracati”, promovendo seu ativismo político pelo Partido Liberal. Influenciado, em parte, pelo liberalismo, defendia que o desenvolvimento nacional dependia da formação intelectual e moral da população. Lutou pelo fim da escravidão, participando de atividades da Sociedade Abolicionista Cearense. Fontes registram que, entre suas contribuições para o avanço da modernidade alencarina, está a colaboração para a iluminação pública a gás da capital cearense. Fundou uma importante sociedade de aclimação com a finalidade de conservação da natureza, projetada para cultivar, estudar e expor a flora brasileira.

Filosofia da Educação

Defendia uma visão de educação universal, isto é, para todos, pontuando que o Estado deveria investir continuamente na expansão do ensino. Para ele, a educação deveria ser pública, permanente e acessível. Ao longo de sua carreira, publicou numerosas obras jurídicas, políticas e educacionais. Também escreveu trabalhos sobre direito comercial, direito criminal, legislação provincial e filosofia moral, além de interpretações literárias de autores europeus, traduzindo textos nas línguas francesa, inglesa, alemã e espanhola.

Escreveu uma importante obra clássica sobre a educação no Brasil, denominada “A Instrução Pública no Brasil”, em que descreve todo o sistema educacional e seus principais pontos de colaboração com a formação pública. Sua obra analisava e discutia a respeito do ensino primário, secundário, técnico, superior e religioso. Bem como outras formas alternativas de educação, como a Normal e a Militar. Os resultados de seu trabalho evidenciaram que as iniciativas educacionais desenvolvidas nesse período necessitavam ser alinhadas com o propósito de modernizar o sistema de ensino e fortalecer a construção de uma identidade nacional. Nesse contexto, em relação ao ensino Militar, Liberato explicava que este se revelou um elemento de significativa importância histórica, contribuindo para a formação social, política e cultural do Brasil. A obra serviu de orientação para a compreensão de todo o sistema de ensino, tendo a finalidade de subsidiar algumas reformas na área de educação.

Argumentava que a educação constituía a base da prosperidade das nações e da consolidação das instituições democráticas. Defendia a liberdade de cátedra no ensino, buscando equilibrar, de forma moderada, a responsabilidade estatal com a autonomia intelectual. Segundo Liberato Barroso, a escola não deveria se limitar à simples transmissão de conhecimentos técnicos, mas também contribuir para formar cidadãos honestos, disciplinados e comprometidos com a sociedade. Explicava que a família, da mesma forma, possuía um papel fundamental nesse processo, afirmando que os princípios essenciais da educação e da moral eram adquiridos inicialmente no ambiente doméstico, tendo a escola a responsabilidade e o dever de aperfeiçoá-los.   

Filosofia Sapiencial

+ “O crime não é um direito”.

+ “Cada um paga, como pode, o seu tributo à causa da pátria, os que podem mais, cumpram o seu dever”. 

+ “O Brasil deveria aproveitar das nações estrangeiras o que é útil em todos os países e em todos os tempos”.

+ “É necessário ensinar a ler a todos os filhos do povo, pois a educação elementar é a base moral da sociedade”. 

+ “A calúnia e a difamação pela imprensa são uma especulação, com que alguns miseráveis têm conseguido os seus fins”.

+ “Parafraseando Lamartine, o pensamento de um povo inteiro palpita muitas vezes no cérebro do indivíduo mais ignorado de uma grande multidão”.

+ “A liberdade de imprensa e a liberdade de expressão, não podem ser confundidas com libertinagem para a prática de injúria, calúnia e difamação”.

+ “Uma nação não pode por muito tempo abafar um remorso, pois a nação que tem a coragem de: encarar as suas faltas e repará-las, ainda está longe da decadência”.

+ “É sobre a liberdade, que se pode construir um plano largo e completo de ensino, levantá-lo como um edifício soberbo, vasto, regular e majestoso, que satisfaça as necessidades de um grande povo e de uma grande época”.

+ “Quando tantos e tão brilhantes talentos se inutilizam, e gastam-se em uma luta estéril, e prejudicial aos verdadeiros interesses do país, deve achar benevolência, aquele que aplica a sua fraca inteligência ao estudo da mais importante das necessidades sociais”.

+ “O homem livre e forte, acostumado a medir as suas forças com as procelas do oceano, afirmou perante o governo do seu país a necessidade indeclinável, imprescritível, inadiável, iniludível, de quebrar os ferros da escravidão no império brasileiro, de levantar o bloqueio moral, que nos separa do mundo civilizado”.

Fatos e Curiosidades

Sua família teve grande influência na história política e intelectual do Ceará. Liberato Barroso não teve filhos, mas era tio de Benjamim Liberato Barroso (Benjamim Barroso), outro importante intelectual e militar cearense. Também se destacou na linhagem familiar o ilustre pensador Gustavo Barroso. Esses familiares eram conhecidos como a família Barroso de Aracati.

Obras:

A instrução pública no Brasil; Questões políticas de direito criminal; Índice alfabético do Código Comercial; A letra de câmbio segundo o direito pátrio; Compilação das leis provinciais do Ceará; Criação da Vila do Aracati; O espírito do Cristianismo; Necrológio do Desembargador Antônio José Machado; Observações sobre o art. 61 da Constituição política do Império; Não se pode dar conflito entre o Direito e a Moral; Contratos e obrigações mercantis; Direito de Necessidade; O Livro Triste.

Fontes:

BARROSO, Liberato. A Instrução Pública no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1867.

_________________ Questões políticas de direito criminal. Rio de Janeiro: Garnier, 1866.

BRASIL. Coleção das Leis do Império do Brasil de 1838. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1839.

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1980.

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; ABL, 2001.

CUNHA, Beatriz Rietmann da Costa. Assistência e profissionalização no Exército: Elementos para uma história do Imperial Colégio Militar. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UERJ, 2006.

NASCIMENTO, Luciana Marinho do; NUNES, Debora Rafaela. O Ensino Militar no Segundo Império na visão de José Liberato Barroso. Revista Cadernos de Educação e Desenvolvimento. v.17, n.4, p. 01-16. Portugal: UNIFA, 2025.

NOBRE, Francisco Silva. 1001 Cearenses Notáveis. Rio de Janeiro: Editora Casa do Ceará, 1996.

SACRAMENTO BLAKE. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1895.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2013.

SILVA, Waldinei Santos. História das ideias pedagógicas no Brasil Império: o ensino de línguas estrangeiras entre 1823 e 1890. Tese de Doutorado. São Cristóvão: UFSE, 2022.


sábado, 18 de julho de 2026

Filosofia Moderna

Filosofia Moderna

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um período da filosofia que se iniciou no século XV e se estendeu até o século XVIII. Em termos históricos, costuma-se situar seu início em 1453, com a queda de Constantinopla, e seu término em 1789, com a Revolução Francesa. Embora muitos pensadores discordem sobre qual momento específico poderia melhor caracterizar a filosofia moderna, a maior parte concorda que a transição do período medieval para a filosofia moderna teve como principal marco a fase intermediária do Renascimento. Esse tempo foi marcado pela revolução do pensamento teológico, filosófico e científico. Nessa perspectiva, esse momento consolidou-se pela elucubração da razão, da consciência e do iluminismo. Trouxe descobertas científicas e grandes transformações culturais. Ficou conhecido também como a transição do teocentrismo para o antropocentrismo, ou seja, de um pensamento mais teológico e religioso para uma concepção em que o homem se vê no centro das ideias. Passando, então, a valorizar mais a razão e o conhecimento humano. A elaboração de um pensamento mais crítico proporcionou uma expansão da liberdade de expressão. As verdades que antes eram consideradas axiomáticas passaram a ser instrumentalizadas, transmutando-se em saberes praxiológicos.

Desenvolvimento da Filosofia Moderna

No campo histórico e social, alguns fatores são elencados como condicionantes que contribuíram para a formação do pensamento moderno, como, por exemplo: a expansão marítima, a descoberta de novas terras, as reformas religiosas, o Renascimento, a modernização da imprensa, o surgimento dos estados modernos, o desenvolvimento do mercantilismo, o surgimento da burguesia e o advento dos regimes absolutistas. A filosofia moderna passou por três grandes fases chamadas de: fase renascentista, na qual houve um forte debate entre o humanismo e o cientificismo; a segunda fase, em que surgiu o confronto entre o racionalismo e o empirismo; e a terceira fase, descrita como iluminista.

No período renascentista, houve uma afirmação dos valores da cultura clássica, isto é, os pensadores dessa fase passaram a enaltecer o saber dos gregos antigos. Ficou marcada devido às grandes mudanças no campo religioso, com as chamadas reformas protestantes e contrarreformas. A imprensa também contribuiu para a divulgação de novos conhecimentos. Sucedeu-se uma introdução do Humanismo, representando uma mudança de paradigma, que privilegiava o ser humano como referência principal do conhecimento e da cultura, em oposição ao teocentrismo da Idade Média.

A fase racionalista e empirista mostrou-se como o apogeu da filosofia moderna, consolidando e firmando o cientificismo presente nesse tempo. Inicia-se a sistematização de uma reflexão crítica que trouxe uma inovação metodológica na investigação da ciência. Enquanto os racionalistas defendiam que a “razão” seria o principal meio para se chegar ao conhecimento verdadeiro, os empiristas sustentavam que a “experiência” era o caminho mais seguro para se alcançar um saber autêntico. Novos elementos de abordagem ao conhecimento foram empregados, como a dúvida, a experimentação, a indução e as provas. No campo político, esse embate auxiliou na formação do Estado moderno, sendo fundamentado em ideias absolutistas e contratualistas.

Durante a etapa iluminista, ocorreu uma grande valorização da razão, da ciência, da liberdade e do progresso. A elevação do pensamento crítico ajudou a consolidar princípios humanistas como liberdade, igualdade, fraternidade e justiça. Os iluministas acreditavam que o progresso técnico e científico seria o principal responsável pelo desenvolvimento moral e social. Esses filósofos acreditavam que o uso racional do conhecimento poderia promover o progresso da humanidade, combater a ignorância e superar o autoritarismo político e religioso. O ser humano passou a ser compreendido como um sujeito capaz de pensar criticamente, questionar tradições, tomar decisões fundamentadas na razão e construir seu próprio conhecimento.

Kant buscou realizar um ensaio crítico da razão, esse sistema de pensamento ficou conhecido como criticismo. Empenhou-se no esforço de conciliar a filosofia racionalista com a empirista. Para ele, o conhecimento se dividia em duas modalidades fundamentais: o conhecimento empírico, que se originava da experiência sensível, e o conhecimento puro, que seria independente da experiência e se fundamentava em princípios “a priori”. Para o filósofo, o processo de conhecer resultaria da articulação entre essas estruturas racionais prévias e os dados fornecidos pela experiência. Assim, o ser humano não apreende a realidade em sua essência objetiva, mas apenas os fenômenos, tal como são organizados e percebidos pela mente. Seu sistema de pensamento impulsionou mudanças nos campos da epistemologia, da metafísica, da lógica e da ontologia.

Considerações Finais

Foi possível compreender que a filosofia moderna ficou marcada por várias mudanças em muitos campos do pensamento humano. Esse período se consolidou pelas profundas transformações políticas, econômicas, científicas, culturais e religiosas ocorridas na Europa, como o Renascimento, a Reforma Protestante, a Revolução Científica e, posteriormente, o Iluminismo. Desse modo, as novas perspectivas de pensamento que floresceram com o Renascimento e se expandiram por meio do Humanismo contribuíram para o surgimento e a consolidação da Filosofia Moderna. A adoção do método científico e a crescente importância atribuída à observação empírica proporcionaram novas formas de compreender a realidade. A filosofia moderna passou a se centrar mais no indivíduo e em questões epistemológicas. Com isso, ganhou destaque o surgimento do liberalismo, do idealismo e do iluminismo.

O ser humano começou a refletir sobre a própria forma de pensar, transformando o pensamento em objeto de investigação. Consolidou-se a ideia de que o homem possuía a capacidade de exercer domínio técnico sobre a natureza e sobre as estruturas sociais. A realidade passou a ser compreendida como racional por constituir um conjunto organizado de relações de causa e efeito, passíveis de compreensão e de transformação pela ação humana. Dessa forma, visto que essa realidade passou a ser explicada por meio dos conceitos desenvolvidos pelo sujeito cognoscente, o ser humano tornou-se capaz de atuar sobre ela, modificando-a e atribuindo-lhe novos significados. A confiança na razão voltou-se a ocupar um lugar central no pensamento filosófico, estimulando o desenvolvimento do método científico e da investigação crítica.

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Trad. Antônio Borges Coelho. Lisboa: Editora Presença, 2000.

BELGIOIOSO, Giulia. História da filosofia moderna. São Paulo: Editora Unicamp, 2022.

BRÉHIER, Émile. História da filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.

CHAUÍ, Marilena. Iniciação à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2017

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Editora Saraiva, 2002.

HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. Rio de Janeiro: Forense, 1982.

MOSCA, Gaetano. História das Doutrinas Políticas. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1983.

REALE, Giovani. História da filosofia. São Paulo: Editora Paulinas, 2006.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna. São Paulo: Editora Loyola, 1999.

SCRUTON, Roger. Uma Breve História da Filosofia Moderna. São Paulo: Editora José Olympio, 2008.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Guilherme Studart

Guilherme Studart - (1856-1938) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Guilherme Chambly Studart - Foi um filósofo cearense ligado às correntes de pensamento da filosofia historiográfica. Atuou como médico, historiador, filósofo e cônsul. Ficou conhecido como o “Barão de Studart”. Iniciou seus primeiros estudos no Ateneu Cearense, deslocando-se em seguida para o Ginásio Baiano, onde concluiu seus estudos secundários na área de Humanidades. Depois ingressou na faculdade de Medicina da Bahia, formando-se por volta do ano de 1877. Retornou ao Ceará, onde passou a exercer atividades médicas no Hospital da Caridade de Fortaleza. Escreveu sobre uma variedade de assuntos técnicos e científicos, tratando de temas históricos, geográficos, médicos e literários. Chegou a atuar como professor, lecionando as disciplinas de Inglês, Geografia e História do Brasil. Participou de variadas agremiações nacionais e internacionais. Foi um dos fundadores da Academia Cearense de Letras, tendo ocupado inicialmente a cadeira de número 2, migrando posteriormente para a cadeira de número 11; além disso, ocupa o quadro de honra deste cenáculo.

Era filho de um Cônsul Inglês chamado John William Studart e da senhora Leonísia de Castro Barbosa Studart. Na linhagem genealógica, pelo lado paterno, era sobrinho de José Smith de Vasconcelos, primeiro “Barão de Vasconcelos”. Pelo lado materno, era bisneto de Joaquim José Barbosa e de João Facundo de Castro Meneses, o “Major Facundo”. Nasceu na cidade de Fortaleza, no dia 5 de janeiro de 1856, e faleceu na capital cearense, no dia 25 de setembro de 1938.

Filosofia da História

Contribuiu notavelmente com a sistematização da história alencarina, produzindo um conjunto de obras que ajudaram na compreensão da história do Ceará. Reuniu um arsenal literário e uma variedade de documentos que serviram de fontes para o entendimento da vida e dos costumes do povo cearense. Produziu obras de destaque sobre o folclore e a cultura popular nordestina. A obra intelectual de Guilherme Studart estendeu-se por diversas áreas do saber. A produção bibliográfica do Barão totalizou mais de cem trabalhos de elevado saber e ampla projeção mundial. Realizou várias viagens pelo mundo, a fim de reunir documentos comprobatórios que validassem as informações dos historiadores. Muitos desses documentos foram importantes para a comprovação de fatos relacionados à História do Estado. Entre suas principais viagens de pesquisa estão países como Inglaterra, Portugal, França, Holanda e Espanha.

A metodologia abordada pelo Studart, nas suas obras, buscava apresentar uma verdade mais detalhista do ponto de vista histórico, utilizando documentos autênticos e inéditos que legitimassem essa verdade. Além disso, é possível compreender certo criticismo apresentado por ele sobre a questão das dificuldades que existiam na realização do trabalho de pesquisador historiográfico, apontando também sua dedicação e afeição pelo Ceará. Defendia um tipo de história fundamentada na pesquisa documental, na autenticidade das fontes e na imparcialidade do historiador. Essa estratégia, segundo ele, visava incorporar matérias e materiais para os futuros historiadores, servindo de referência vindoura para os estudos históricos cearenses. Dedicava-se a inventariar, colecionar e publicar documentos e textos sobre a História do Ceará, aplicando de maneira rigorosa os métodos científicos de pesquisa histórica. Boa parte de sua obra foi, e ainda é, uma importante fonte de consulta, não apenas histórica, mas também política e jurídica, pois muitas vezes serviu de bússola orientadora para solução de contendas envolvendo terras e limites territoriais.

No âmbito local, o barão realizou inúmeras ações a fim de reunir seu acervo sobre a história. Muitos negociantes e grandes personalidades lhe procuravam com a finalidade de retribuir alguns auxílios solidários, enviando, para ele, como forma de agradecimento, importantes documentos históricos, pois sabiam que Studart estaria montando uma espécie de museu documental. Seu acervo não se limitava apenas a documentos, mas também tinha outros objetos e demais peças de estimado valor patrimonial e histórico. Relata-se que, logo após a sua morte, o acervo histórico do Barão teria sido esquecido e abandonado. Ele teria deixado e doado uma grande quantidade de documentos originais e inéditos sobre a História do Ceará e do Brasil; porém, devido ao descaso e à falta de cuidados do poder público, grande parte de seu material se perdeu no tempo. Todavia, épocas depois, o historiador Raimundo Girão conseguiu salvar e preservar partes do acervo, o que mais tarde se constituiu na chamada “Coleção Studart”.

Filosofia Humanista

Participou ativamente de movimentos sociais e políticos de sua época. Apesar de ser considerado politicamente conservador, Studart atuou de forma significativa no movimento abolicionista do Ceará, integrando inicialmente a Sociedade Cearense Libertadora. No entanto, por não concordar com os métodos adotados por essa entidade, afastou-se e, juntamente com Meton de Alencar e outros intelectuais de peso, fundou o Centro Abolicionista “25 de Dezembro”, reforçando seu compromisso com o fim da escravidão. Lecionou de maneira altruísta, promovendo a instrução pública e criando espaços de leitura. Para ele, o Ceará teria a capacidade de colaborar com a formação de uma nação civilizada por meio da produção intelectual e literária.

Desempenhou um conjunto de ações caridosas que ajudaram a aliviar o sofrimento do povo cearense. Entre suas principais iniciativas estão as que ele exerceu na sua atuação como médico. Criou algumas instituições filantrópicas alinhadas com a Igreja Católica que buscavam socorrer enfermos, instruir crianças desamparadas e consolar os aflitos de alma. Seu trabalho, em favor dos mais necessitados, lhe rendeu a alcunha de o “Barão da Caridade”. Como reconhecimento, o então bispo do Ceará, D. Joaquim Vieira solicitou a outorga do título de barão da Santa Sé, concedido, em 1900, pelo Papa Leão XIII. Paralelamente, em ratificação aos seus serviços prestados à sociedade e à cultura brasileira, recebeu o título de nobreza de Barão de Studart, autorizado conjuntamente pela Igreja Católica e pelo governo brasileiro. Esse título simbolizou não apenas seu prestígio social, mas também a importância de sua atuação intelectual e humanitária. Desse modo, sua filosofia pode ser sintetizada na frase que simbolizava a Sociedade de São Vicente de Paulo: “Enlacemos o mundo numa grande rede de caridade”.

Filosofia Sapiencial

+ “A providência tudo preside”

+ “Os gênios não têm pátria, são cosmopolitas”

+ “Nem sempre é possível fugir da fria realidade”

+ “É condição essencial num historiador a inteira imparcialidade”

+ “As pesquisas e estudos historiográficos me distraem ‘das agruras da minha vida de médico’.

+ “Não posso esquecer esses investigadores do passado da nossa história que fazem dos salões do Instituto o campo de suas operações”

+ “Conto que meus filhos jamais se afastem dos ensinamentos sobre Pátria e Religião, que jamais eles esqueçam, deverá ser a sua divisa e o seu Norte”.

+ “Peço que minhas obras sejam recebidas com o rigor, que deve haver para as obras desse gênero. Da minha parte nas apreciações criteriosas e desapaixonadas sobre seu valor beberei lições e adquirirei incentivos”

+ “Holocaustava-me no altar da ideia, que há longos anos me seduz, e pela qual há muito me bato, a organização e difusão das associações como escolas de moralização, como um dos elementos primordiais do progresso humano”

+ “Transmitir às massas populares, ilesa e ininterrupta, a tradição, ensinar-lhes os altos feitos dos nossos maiores, zelar com carinho as datas nacionais quer de guerra, quer de paz, é manter brilhante e fecunda escola de civismo, é conservar viva e pujante a sementeira do patriotismo e da liberdade”.

+ “Na Pátria de Iracema, o que ele, Camões, mereceu-nos, o que ao Gabinete de Leitura despertou a magia de seu nome, proclamam bem alto esse alcançar das letras, e essa instituição em hora feliz projetada de um curso noturno para a grande família dos artífices. Que ele seja perene são os votos ardentes dos pelejadores da causa sagrada da instrução popular; eis o que nós almejamos”.

+ “Para a existência de muitos desses documentos, o amanhã será demasiado tarde; a ignorância, o desleixo, as afrontas do tempo os terão consumido em parte ou totalmente; é mister, pois, velar por eles, e o melhor modo de fazer é confiá-los à letra impressa. Assim considerando, é que faço públicos meus documentos, muitos deles originais. Que eles aproveitem a alguém e dar-me-ei por contente”.

Fatos e Curiosidades:

Segundo os biógrafos descrevem, o interesse de Guilherme Studart pela pesquisa histórica surgiu após seu retorno ao estado do Ceará. Depois de formado, ao regressar, constatou que havia apenas registros fragmentados sobre a história local, com ausência de fontes fundamentais para uma compreensão mais ampla do passado. Motivado por essa lacuna, financiou do próprio bolso diversas viagens à Europa, onde realizou pesquisas aprofundadas nas principais bibliotecas europeias. Como resultado, trouxe ao Brasil documentos até então desconhecidos pelos estudiosos da história cearense.

Participou de diversas instituições culturais, literárias, científicas e filantrópicas:

Academia Cearense de Letras; O Instituto do Ceará; O Centro Literário; O Centro Abolicionista; A Associação Médico-Farmacêutica do Ceará; O Centro Médico Cearense; O Círculo Católico de Fortaleza; O Círculo dos Operários Católicos de Fortaleza; O Instituto Pasteur; A filial da Cruz Vermelha no Ceará; O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; Gabinete de Leitura do Aracati; Colônia Cristina; O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia; O Instituto Histórico e Geográfico Pernambucano; Sociedade de Estudos Paraenses; O Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano; O Instituto Histórico e Geográfico Fluminense; A British Medical Association, a Sociedade de Geografia de Paris e a Sociedade de Geografia de Lisboa; Iracema e Boêmia Literária; Gabinete de Leitura Camucinense; Gabinete Viçosense de Leitura; Sociedade de Estudos Paraenses; Instituto Histórico do Pará; Instituto Geográfico e Histórico Piauiense; Arcádia Americana; Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas; Academia Anchieta de Friburgo; Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais; Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte; Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe; Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro; Grêmio Literário e Recreativo Paraibano; Sociedade Brasileira de Homens de Letras; Academia Mineira de Letras; Instituto Geográfico e Histórico do Rio Grande do Sul; Instituto de História e Geografia do Maranhão; Centro de Letras do Paraná; Grêmio Literário e Cívico do Colégio Militar do Ceará; Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo; Instituto Arqueológico e Histórico Alagoano; Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro; Academia Pernambucana de Letras; Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa; Londres; Societé de Geographie, Paris; Societé de Geographie de Havre; Societé Bibliographique de France; Academia Físico-Química Italiana de Palermo; Academia Americana de La História em Buenos Aires; Academia Nacional de História da Venezuela; e Sociedade Acadêmica de História Internacional de Paris; Membro honorário da Academia Anchieta de Curitiba; Professor emérito da Faculdade de Filosofia e Letras do Rio de Janeiro; Conselho Central Metropolitano das organizações vicentinas.

Obras:

Dicionário bibliográfico cearense; A diocese do Ceará; Família Castro, ligeiros apontamentos; Elementos da gramática inglesa; Geografia do Ceará; Seiscentas datas para a história do Ceará na segunda metade do século XVIII; Climatologia, epidemias e endemias do Ceará; Notas para a História do Ceará; Datas e Fatos Para a História do Ceará; Notas sobre a linguagem e costumes do Ceará; Documentos para a história de Martim Soares Moreno; Três mil datas para a história do Ceará no presente século; Documentos para a história do Brasil, especialmente do Ceará; Tese de Doutorado sobre a Eletroterapia;

Fontes:

AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme. Barão de Studart: memória e distinção. Fortaleza: Museu do Ceará e Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2002.

AMORA, Manoel Albano. Academia Cearense de Letras: Síntese Histórica. Revista da academia Cearense de Letras. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará,1957.

AZEVEDO, Rubens. Os 40 da casa do Barão. Brasília: Revista instituto do Ceará, 1993.

BARREIRA, Dolor. História da Literatura Cearense. Fortaleza: Editora do Instituto do Ceará, 1948.

BATISTA, Paula Virgínia Pinheiro. Arquivo de si e do Ceará: a coleção e a escrita de Guilherme Studart (1892–1938). Tese de Doutorado. Fortaleza: UFC, 2014.

FILHO, Rogaciano Leite. A História Do Ceará Passa Por Esta Rua. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2002.

GARCIA, Fátima. Barão de Studart: O Historiador do Ceará. Fortaleza: Blog Ceará em Fotos e História. Publicado em 14 de agosto de 2015, Acesso em 05/04/2026.

GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.

NOBRE, Francisco Silva. 1001 Cearenses Notáveis. Rio de Janeiro: Editora Casa do Ceará, 1996.

SACRAMENTO BLAKE. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1895.

STUDART, Luís. Apontamentos para a biografia do Barão de Studart. Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1956.

domingo, 29 de março de 2026

Escola Eleata

Escola Eleata

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi uma escola de pensamento filosófico da Antiguidade grega, pertencente à fase pré-socrática, por volta dos séculos (IV e V) a.C. Recebeu esse nome devido à sua localização, situada na região da cidade de Eleia. O mentor e inspirador dessa escola é apontado por muitos pensadores como sendo o filósofo Xenófanes de Cólofon, porém a escola ganhou maior notoriedade com o pensador Parmênides de Eleia, que teria sido seu discípulo. Além desses nomes, a escola também se destacou com outros importantes membros, como Zenão de Eleia e Melisso de Samos.

O desenvolvimento da filosofia eleata ou eleática pode ser compreendido da seguinte forma: Xenófanes apresentou um formato de monismo ainda incompleto, em processo de formação, com forte caráter teológico. Já Parmênides aprofundou o pensamento eleata de modo mais rigoroso, formulando um racionalismo de natureza metafísica. Zenão dedicou-se a sustentar e defender, por meio da dialética e dos paradoxos, as ideias de Parmênides; e, por fim, Melisso executou e relacionou essas ideias no campo físico da natureza. Os eleatas empreenderam concepções do fenomenismo, bem como também do ilusionismo, ao afirmarem que as mudanças não possuem existência real, sendo apenas aparências enganosas produzidas pelos sentidos, os quais deveriam ser retificados pela razão.

Filosofia Eleata

Refletiram sobre a natureza da realidade, defendendo a ideia do monismo e do imobilismo, opondo-se aos conceitos de multiplicidade e mobilidade das coisas, explicando que a mudança não seria real, mas apenas fruto da ilusão dos sentidos. Nesse contexto, a realidade axiomática só poderia ser reconhecida por meio da razão, e não pelo conhecimento sensitivo. Os eleatas se utilizavam da ideia de “logos” para introduzir o raciocínio lógico na percepção da realidade. Caracterizando-se, em explicar a realidade, pelo logos, e não mais, propriamente, pela natureza física da matéria.

A influência de Xenófanes, nessa escola, pode ser descrita pelo fato de ele ter sido, possivelmente, um dos mestres de Parmênides, direcionando-o em alguns pensamentos. Xenófanes combateu o chamado antropomorfismo teológico, introduzindo o monoteísmo filosófico, pois argumentava que a divindade seria una, imóvel e imutável. Diferenciou a verdade da opinião, sugerindo que o conhecimento humano era limitado e que a verdadeira compreensão pertenceria ao "Deus uno". Escreveu em formato de versos, desenvolvendo um estilo de escrita lógico-crítico, baseado na unidade e na razão, distanciando-se dos pensadores da época que focavam na matéria.  

Outro dos principais representantes da escola de Eleia era conhecido como Parmênides. Ele acreditava que a realidade era única, imutável e eterna, argumentando que “o ser é e o não ser não é”, ou seja, “tudo que é, ‘é’, e não pode deixar de “ser”. A essência da realidade não seria mutável, mas a aparência das coisas poderia mudar. Afirmava que tudo estaria em um eterno repouso, concluindo que “toda mutação é ilusória”. Explicava que haveria dois caminhos para o entendimento da realidade, que seriam: a razão e a opinião. No primeiro era possível se chegar à verdade; já no segundo o homem seria levado a um entendimento ilusório ou aparente das coisas. Para Parmênides, os sentidos conduziam o indivíduo ao engano, afastando-o da verdade autêntica, ao produzirem contradições; isso levaria os indivíduos a confundirem o “ser” com o “não-ser”.

O pensador Zenão de Eleia buscou aprofundar as ideias de Parmênides, utilizando os paradoxos para demonstrar que a noção de movimento era apenas uma ilusão, constituída por sucessivos e constantes instantes de momento. Demonstrava que o movimento e a pluralidade seriam logicamente impossíveis, defendendo a ideia de imobilidade do ser. Seu método utilizava técnicas de argumentação que ficaram conhecidas como “redução ao absurdo”. A dialética de Zenão refutava um argumento a partir de princípios admitidos pelo seu interlocutor. Partindo dos paradoxos, ele passava a demonstrar como as opiniões ou contradições poderiam levar seus interlocutores a pensamentos equivocados sobre determinados assuntos.

Para Melisso de Samos, a realidade, além de única, eterna e imutável, também seria infinita. Sua principal contribuição com a escola visou igualar a ideia de natureza ao conceito de ser, além disso, desenvolveu a percepção de infinitude eleática. Realizou uma comparação entre os valores do pensamento sensitivo e do pensamento racional. Desenvolveu uma teoria que ficou conhecida como “a natureza infinita e inalterável do ser”. Sobre a imutabilidade do “ser”, ele afirmava que o "ser" não se transformava e não se alterava. Sistematizou grande parte dos conhecimentos dessa escola, organizando e corrigindo alguns desses saberes.

Considerações Finais

Nessa perspectiva, os principais pontos em comum entre os pensadores dessa escola eram a ideia de que a realidade seria única, imóvel, eterna, imutável, sem princípio ou fim, contínua e indivisível. Partes desses conceitos foram definidas como sendo uma espécie de monismo radical. Entre as principais características da filosofia eleata estão a ideia de monismo, que seria a crença em uma única substância, enquanto ser. Um modelo de racionalismo que poderia ser compreendido pela valorização da razão (logos) sobre o conhecimento sensitivo, definindo uma “lógica-do-ser”, que seria o entendimento de que o “ser” não pode vir do “não-ser”. A contraposição de ideias à filosofia heraclitiana mobilista do “devir”, que se apoiava na noção de mudança da realidade. Quanto à imutabilidade e eternidade, nenhum “ser” poderia gerar outro, nem deixar de existir, pois isso implicaria aumento ou diminuição do próprio “ser”, algo considerado impossível. O pensamento eleata contribuiu, significativamente, para o desenvolvimento da metafísica e da dialética.

Fontes:

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2012.

BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Editora Cultrix, 1967.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia. Vol. 2. São Paulo. Editora Companhia das letras. 2010.

COPLESTON, Frederick. História da Filosofia: Grécia e Roma. São Paulo: Editora Loyola, 2021.

DUMONT, Jean. Paul. Elementos de história da filosofia antiga. Brasília: EdUnB, 2005.

KENNY, Anthony. História Concisa da Filosofia Ocidental. Lisboa, Temas e Debates, 1999.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Editora Paulus, 2017.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental. São Paulo. Companhia editora nacional. 1957.

SIMPLICÍO. Física.  Trad. Alexandre Costa. Anais de filosofia clássica. Vol. 3. N; 06. UFRJ. 2009.

SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos: Primeiros mestres da filosofia e da ciência grega. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

 

domingo, 15 de março de 2026

Heráclito Graça

Heráclito Graça – (1837 a 1914) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Heráclito de Alencastro Pereira da Graça - Foi um filósofo cearense ligado as correntes de pensamento da filosofia linguística. Escreveu uma importante obra gramatical chamada de “Fatos da Linguagem”. Laborou como escritor, político, magistrado e filólogo. Formou-se em Direito, por volta de 1857, na escola de Recife. Migrou para a cidade de São Luiz onde exerceu atividade de Promotor de Justiça. Assumiu os cargos políticos de Deputado Provincial e Deputado Geral pelo estado do Maranhão. Posteriormente, atuou como presidente das províncias da Paraíba e do Ceará. Encantou-se com o mundo das letras, buscando realizar um ativismo político através da escrita de periódicos. Exerceu algumas atividades laborativas ao lado do pensador José de Alencar, com quem mantinha certo grau de amizade. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto do Ceará. É considerado patrono da cadeira n° 12 da Academia Cearense de Letras e da cadeira n° 19 da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro (ACCLARJ). Era filho de José Pereira da Graça, popularmente conhecido como o “Barão de Aracati”, e da senhora Maria Adelaide da Graça. Heráclito Graça também era tio do escritor pré-modernista Graça Aranha. Nasceu no município de Icó, em 18 de outubro de 1837, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1914. Recebeu, em sua homenagem, o nome de uma importante avenida que corta o centro de Fortaleza.

Filosofia da Linguagem

Dedicou-se aos estudos da gramática, da história da língua e da literatura no Brasil. Segundo os biógrafos, ele era avesso ao mundo da publicidade, sendo muitas vezes descrito como um homem modesto, por conta da discrição que mantinha sobre seu trabalho. Dissecou uma análise reflexiva a respeito das obras do lexicógrafo português Cândido de Figueredo. Afirmava que era preciso ser impessoal na análise reflexiva sobre o uso da linguagem. Criticava o contexto educacional brasileiro que ensinava a língua portuguesa de maneira simplista, ou seja, sem explorar o refinamento que a língua possuía. Advertia que o brasileiro não tinha clara consciência de sua língua. Na obra Fatos da Linguagem, buscou utilizar um estilo vocabular que unia precisão e concisão, alternando, ao mesmo tempo, entre uma linguagem elevada e compreensível. Valorizando o registro de expressões populares e regionais, que já haviam se integrado ao idioma. Posicionava-se contrário ao chamado purismo exagerado da língua, porém, paralelamente a isso, defendia certo rigor gramatical, registrando uma característica singular aos seus textos. Apropriava-se do método histórico-comparativo com a finalidade de abordar variadas visões sobre o universo linguístico.

Filosofia Juspolítica

Vivenciou partes dos acontecimentos políticos do período imperial e início do republicanismo. Nesse contexto, escreveu para importantes revistas de cunho político e jurídico. Fundando um periódico chamado “A Situação” em que defendia ideias do partido conservador. Operou estudos hermenêuticos, relacionando seus saberes linguísticos com os conhecimentos jurídicos, objetivando esclarecer possíveis equívocos interpretativos, que poderiam ocorrer, caso um jurista empregasse mal uma palavra, ou não fosse claro e assertivo, na escrita correta de suas alegações. Colaborou com um semanário literário de cunho cultural que tinha outros importantes intelectuais como Gentil Braga, Trajano Galvão e Joaquim Serra. Participou de grandes debates políticos sobre a reforma judiciária, o recrutamento eleitoral e a lei do ventre livre. Como administrador, sofreu forte resistência das classes dirigentes, por conta de seu caráter austero e probo. No campo acadêmico, colaborou com a revista jurídica de Pernambuco. Desempenhou consultorias jurídicas trabalhando como advogado do Ministério das Relações Exteriores, na cidade do Rio de Janeiro. Explicava que a noção de paz seria um reflexo do trabalho árduo e habitual, praticado diariamente com esforço, resultando disso, a consolidação de direitos, a prosperidade e o progresso social.

Filosofia Sapiencial

+ “O dialeto é o mais poderoso reparador e conservador da língua”

+ “Em todas as línguas e na sua constante evolução há e há de haver dúvidas e incertezas”.

+ “Somente a paz firma direitos, e desenvolve a prosperidade e o progresso das sociedades”

+ “Que lucre também a língua portuguesa com o nosso limitado debate, separando do joio, o bom trigo, é o meu mais ardente desejo”.

+ “Só os espíritos pequeninos se consideram sabedores de tudo e indefectíveis em suas ideias e pareceres, bamboleando-se em vaidades, que se enviperam irritadiças à primeira e mais leve observação”.

+ “O filósofo Protágoras formulou regras sobre os gêneros, e increpou as de Homero, por isso que divergiam das suas; vaníssima lhe foi a empresa. Homero, o divino Homero sobrepujou ao crítico, em cujas palavras nem os contemporâneos nem os pósteros jamais juraram”.

 

Obras:

Notações Filológicas; Fatos da Linguagem; Periódicos.

 

Fontes:

AMORA, Manoel Albano. Academia Cearense de Letras: Síntese Histórica. Revista da academia Cearense de Letras. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará,1957.

BARRETO, Mário. Estudos da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1903.

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; ABL, 2001.

GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.

GONÇALVES, Inez Beatriz de Castro Martins. A banda de música da Força Policial Militar do Ceará: Uma História Social de Práticas e Identidades Musicais. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: UFMG/UNL, 2017.

GRAÇA, Heráclito. Fatos da Linguagem. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2005.

INEP. Guia de fontes em política educacional do Ceará. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, acesso em 2026.

LEÃO, Múcio. Suplemento Literário de “A Manhã”: Autores e Livros. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1945.

MACIEL, Maximino. A Gramática Descritiva. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves & Cia, 1914.  

MELO, Hélio. Heráclito Graça: Grandeza e Simplicidade. Fortaleza: ABL, 1977.