segunda-feira, 27 de julho de 2026

Liberato Barroso

Liberato Barroso – (1830 a 1885)

Autor: Alysomax Soares

Introdução

José Liberato Barroso - Foi um filósofo cearense ligado às correntes de pensamento da filosofia pública, inclinando-se para as áreas jurídicas e educacionais. Atuou como magistrado, escritor, filósofo, tradutor e político brasileiro. Era considerado um dos principais intelectuais de seu tempo. Recebeu o título de “Conselheiro” devido aos seus altos serviços prestados à coroa imperial, tendo ficado conhecido como o Conselheiro Doutor José Liberato Barroso. Liberato deriva do latim "liberatus", que significa "libertado" ou "solto". É considerado o patrono da cadeira de número 20 da Academia Cearense de Letras. Foi membro da loja maçônica Fraternidade Cearense. Recebeu a condecoração da Grã-Cruz da Ordem Ernestina, da Casa Ducal da Saxônia. Exerceu atividades de deputado provincial e geral pelo Ceará. Presidiu a Província do Ceará e de Pernambuco. Laborou como senador do Império e Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

Era filho de Joaquim Liberato Barroso com a senhora Francisca Luduvina Barroso. Nasceu no município de Aracati, Ceará, no dia 21 de setembro de 1830. Faleceu no dia 2 de outubro de 1885, na cidade do Rio de Janeiro. Seu prestígio político e intelectual fez com que diversas cidades brasileiras lhe prestassem homenagens, incluindo a tradicional Rua Liberato Barroso, no Centro de Fortaleza.

Filosofia do Direito

Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife no ano de 1852 e, aproximadamente em 1857, obteve o grau de Doutor em Ciências Jurídicas. Ao longo de sua trajetória acadêmica, exerceu o magistério na própria instituição, ministrando disciplinas voltadas às ciências jurídicas e sociais. Paralelamente à carreira docente, destacou-se como advogado e integrou o círculo de conselheiros do Imperador durante o segundo reinado do Brasil. Chegou a trabalhar como promotor público na cidade de Aracati. Suas obras sobre direito comercial e direito criminal buscavam sistematizar e modernizar o ordenamento jurídico brasileiro. Nesses estudos, refletia sobre temas ligados à segurança jurídica, ao aperfeiçoamento da máquina pública e das legislações nacionais. Posicionava-se a favor de que, nos anos iniciais de estudo do curso de Direito, fossem implementadas as disciplinas de Filosofia, Literatura e Ciências Gerais como introdução ao estudo e letramento do universo jurídico.

Entre suas contribuições intelectuais, elaborou um compêndio legislativo que reunia informações sobre a instalação e o encerramento das sessões da Assembleia Provincial do Ceará, abrangendo o período de 1835 a 1861. Esse texto continha leis, resoluções e regulamentos focados na administração, infraestrutura e organização das vilas, bem como mapeava a construção do Estado, a estruturação institucional e a sociedade cearense no início de sua autonomia política provincial. A obra constitui uma importante fonte documental para a compreensão da atividade legislativa da época, permitindo analisar o processo de elaboração, discussão e aprovação das normas jurídicas, além de oferecer valiosas informações para o estudo da história do direito e das instituições políticas daquele tempo.

Filosofia Política

Dotado de forte espírito nacionalista e patriótico, ele destacou-se por sua atuação na defesa da modernização do Estado, da expansão da instrução pública, do fortalecimento das instituições liberais e da valorização da educação como instrumento de progresso nacional. Seu pensamento influenciou debates sobre administração pública, direito, ensino e cidadania. Criticava os efeitos herdados do colonialismo brasileiro, explicando que eles seriam os principais responsáveis por alguns dos problemas sociais.

Realizou publicações no periódico “O Aracati”, promovendo seu ativismo político pelo Partido Liberal. Influenciado, em parte, pelo liberalismo, defendia que o desenvolvimento nacional dependia da formação intelectual e moral da população. Lutou pelo fim da escravidão, participando de atividades da Sociedade Abolicionista Cearense. Fontes registram que, entre suas contribuições para o avanço da modernidade alencarina, está a colaboração para a iluminação pública a gás da capital cearense. Fundou uma importante sociedade de aclimação com a finalidade de conservação da natureza, projetada para cultivar, estudar e expor a flora brasileira.

Filosofia da Educação

Defendia uma visão de educação universal, isto é, para todos, pontuando que o Estado deveria investir continuamente na expansão do ensino. Para ele, a educação deveria ser pública, permanente e acessível. Ao longo de sua carreira, publicou numerosas obras jurídicas, políticas e educacionais. Também escreveu trabalhos sobre direito comercial, direito criminal, legislação provincial e filosofia moral, além de interpretações literárias de autores europeus, traduzindo textos nas línguas francesa, inglesa, alemã e espanhola.

Escreveu uma importante obra clássica sobre a educação no Brasil, denominada “A Instrução Pública no Brasil”, em que descreve todo o sistema educacional e seus principais pontos de colaboração com a formação pública. Sua obra analisava e discutia a respeito do ensino primário, secundário, técnico, superior e religioso. Bem como outras formas alternativas de educação, como a Normal e a Militar. Os resultados de seu trabalho evidenciaram que as iniciativas educacionais desenvolvidas nesse período necessitavam ser alinhadas com o propósito de modernizar o sistema de ensino e fortalecer a construção de uma identidade nacional. Nesse contexto, em relação ao ensino Militar, Liberato explicava que este se revelou um elemento de significativa importância histórica, contribuindo para a formação social, política e cultural do Brasil. A obra serviu de orientação para a compreensão de todo o sistema de ensino, tendo a finalidade de subsidiar algumas reformas na área de educação.

Argumentava que a educação constituía a base da prosperidade das nações e da consolidação das instituições democráticas. Defendia a liberdade de cátedra no ensino, buscando equilibrar, de forma moderada, a responsabilidade estatal com a autonomia intelectual. Segundo Liberato Barroso, a escola não deveria se limitar à simples transmissão de conhecimentos técnicos, mas também contribuir para formar cidadãos honestos, disciplinados e comprometidos com a sociedade. Explicava que a família, da mesma forma, possuía um papel fundamental nesse processo, afirmando que os princípios essenciais da educação e da moral eram adquiridos inicialmente no ambiente doméstico, tendo a escola a responsabilidade e o dever de aperfeiçoá-los.   

Filosofia Sapiencial

+ “O crime não é um direito”.

+ “Cada um paga, como pode, o seu tributo à causa da pátria, os que podem mais, cumpram o seu dever”. 

+ “O Brasil deveria aproveitar das nações estrangeiras o que é útil em todos os países e em todos os tempos”.

+ “É necessário ensinar a ler a todos os filhos do povo, pois a educação elementar é a base moral da sociedade”. 

+ “A calúnia e a difamação pela imprensa são uma especulação, com que alguns miseráveis têm conseguido os seus fins”.

+ “Parafraseando Lamartine, o pensamento de um povo inteiro palpita muitas vezes no cérebro do indivíduo mais ignorado de uma grande multidão”.

+ “A liberdade de imprensa e a liberdade de expressão, não podem ser confundidas com libertinagem para a prática de injúria, calúnia e difamação”.

+ “Uma nação não pode por muito tempo abafar um remorso, pois a nação que tem a coragem de: encarar as suas faltas e repará-las, ainda está longe da decadência”.

+ “É sobre a liberdade, que se pode construir um plano largo e completo de ensino, levantá-lo como um edifício soberbo, vasto, regular e majestoso, que satisfaça as necessidades de um grande povo e de uma grande época”.

+ “Quando tantos e tão brilhantes talentos se inutilizam, e gastam-se em uma luta estéril, e prejudicial aos verdadeiros interesses do país, deve achar benevolência, aquele que aplica a sua fraca inteligência ao estudo da mais importante das necessidades sociais”.

+ “O homem livre e forte, acostumado a medir as suas forças com as procelas do oceano, afirmou perante o governo do seu país a necessidade indeclinável, imprescritível, inadiável, iniludível, de quebrar os ferros da escravidão no império brasileiro, de levantar o bloqueio moral, que nos separa do mundo civilizado”.

Fatos e Curiosidades

Sua família teve grande influência na história política e intelectual do Ceará. Liberato Barroso não teve filhos, mas era tio de Benjamim Liberato Barroso (Benjamim Barroso), outro importante intelectual e militar cearense. Também se destacou na linhagem familiar o ilustre pensador Gustavo Barroso. Esses familiares eram conhecidos como a família Barroso de Aracati.

Obras:

A instrução pública no Brasil; Questões políticas de direito criminal; Índice alfabético do Código Comercial; A letra de câmbio segundo o direito pátrio; Compilação das leis provinciais do Ceará; Criação da Vila do Aracati; O espírito do Cristianismo; Necrológio do Desembargador Antônio José Machado; Observações sobre o art. 61 da Constituição política do Império; Não se pode dar conflito entre o Direito e a Moral; Contratos e obrigações mercantis; Direito de Necessidade; O Livro Triste.

Fontes:

BARROSO, Liberato. A Instrução Pública no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1867.

_________________ Questões políticas de direito criminal. Rio de Janeiro: Garnier, 1866.

BRASIL. Coleção das Leis do Império do Brasil de 1838. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1839.

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1980.

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; ABL, 2001.

CUNHA, Beatriz Rietmann da Costa. Assistência e profissionalização no Exército: Elementos para uma história do Imperial Colégio Militar. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UERJ, 2006.

NASCIMENTO, Luciana Marinho do; NUNES, Debora Rafaela. O Ensino Militar no Segundo Império na visão de José Liberato Barroso. Revista Cadernos de Educação e Desenvolvimento. v.17, n.4, p. 01-16. Portugal: UNIFA, 2025.

NOBRE, Francisco Silva. 1001 Cearenses Notáveis. Rio de Janeiro: Editora Casa do Ceará, 1996.

SACRAMENTO BLAKE. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1895.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2013.

SILVA, Waldinei Santos. História das ideias pedagógicas no Brasil Império: o ensino de línguas estrangeiras entre 1823 e 1890. Tese de Doutorado. São Cristóvão: UFSE, 2022.


sábado, 18 de julho de 2026

Filosofia Moderna

Filosofia Moderna

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um período da filosofia que se iniciou no século XV e se estendeu até o século XVIII. Em termos históricos, costuma-se situar seu início em 1453, com a queda de Constantinopla, e seu término em 1789, com a Revolução Francesa. Embora muitos pensadores discordem sobre qual momento específico poderia melhor caracterizar a filosofia moderna, a maior parte concorda que a transição do período medieval para a filosofia moderna teve como principal marco a fase intermediária do Renascimento. Esse tempo foi marcado pela revolução do pensamento teológico, filosófico e científico. Nessa perspectiva, esse momento consolidou-se pela elucubração da razão, da consciência e do iluminismo. Trouxe descobertas científicas e grandes transformações culturais. Ficou conhecido também como a transição do teocentrismo para o antropocentrismo, ou seja, de um pensamento mais teológico e religioso para uma concepção em que o homem se vê no centro das ideias. Passando, então, a valorizar mais a razão e o conhecimento humano. A elaboração de um pensamento mais crítico proporcionou uma expansão da liberdade de expressão. As verdades que antes eram consideradas axiomáticas passaram a ser instrumentalizadas, transmutando-se em saberes praxiológicos.

Desenvolvimento da Filosofia Moderna

No campo histórico e social, alguns fatores são elencados como condicionantes que contribuíram para a formação do pensamento moderno, como, por exemplo: a expansão marítima, a descoberta de novas terras, as reformas religiosas, o Renascimento, a modernização da imprensa, o surgimento dos estados modernos, o desenvolvimento do mercantilismo, o surgimento da burguesia e o advento dos regimes absolutistas. A filosofia moderna passou por três grandes fases chamadas de: fase renascentista, na qual houve um forte debate entre o humanismo e o cientificismo; a segunda fase, em que surgiu o confronto entre o racionalismo e o empirismo; e a terceira fase, descrita como iluminista.

No período renascentista, houve uma afirmação dos valores da cultura clássica, isto é, os pensadores dessa fase passaram a enaltecer o saber dos gregos antigos. Ficou marcada devido às grandes mudanças no campo religioso, com as chamadas reformas protestantes e contrarreformas. A imprensa também contribuiu para a divulgação de novos conhecimentos. Sucedeu-se uma introdução do Humanismo, representando uma mudança de paradigma, que privilegiava o ser humano como referência principal do conhecimento e da cultura, em oposição ao teocentrismo da Idade Média.

A fase racionalista e empirista mostrou-se como o apogeu da filosofia moderna, consolidando e firmando o cientificismo presente nesse tempo. Inicia-se a sistematização de uma reflexão crítica que trouxe uma inovação metodológica na investigação da ciência. Enquanto os racionalistas defendiam que a “razão” seria o principal meio para se chegar ao conhecimento verdadeiro, os empiristas sustentavam que a “experiência” era o caminho mais seguro para se alcançar um saber autêntico. Novos elementos de abordagem ao conhecimento foram empregados, como a dúvida, a experimentação, a indução e as provas. No campo político, esse embate auxiliou na formação do Estado moderno, sendo fundamentado em ideias absolutistas e contratualistas.

Durante a etapa iluminista, ocorreu uma grande valorização da razão, da ciência, da liberdade e do progresso. A elevação do pensamento crítico ajudou a consolidar princípios humanistas como liberdade, igualdade, fraternidade e justiça. Os iluministas acreditavam que o progresso técnico e científico seria o principal responsável pelo desenvolvimento moral e social. Esses filósofos acreditavam que o uso racional do conhecimento poderia promover o progresso da humanidade, combater a ignorância e superar o autoritarismo político e religioso. O ser humano passou a ser compreendido como um sujeito capaz de pensar criticamente, questionar tradições, tomar decisões fundamentadas na razão e construir seu próprio conhecimento.

Kant buscou realizar um ensaio crítico da razão, esse sistema de pensamento ficou conhecido como criticismo. Empenhou-se no esforço de conciliar a filosofia racionalista com a empirista. Para ele, o conhecimento se dividia em duas modalidades fundamentais: o conhecimento empírico, que se originava da experiência sensível, e o conhecimento puro, que seria independente da experiência e se fundamentava em princípios “a priori”. Para o filósofo, o processo de conhecer resultaria da articulação entre essas estruturas racionais prévias e os dados fornecidos pela experiência. Assim, o ser humano não apreende a realidade em sua essência objetiva, mas apenas os fenômenos, tal como são organizados e percebidos pela mente. Seu sistema de pensamento impulsionou mudanças nos campos da epistemologia, da metafísica, da lógica e da ontologia.

Considerações Finais

Foi possível compreender que a filosofia moderna ficou marcada por várias mudanças em muitos campos do pensamento humano. Esse período se consolidou pelas profundas transformações políticas, econômicas, científicas, culturais e religiosas ocorridas na Europa, como o Renascimento, a Reforma Protestante, a Revolução Científica e, posteriormente, o Iluminismo. Desse modo, as novas perspectivas de pensamento que floresceram com o Renascimento e se expandiram por meio do Humanismo contribuíram para o surgimento e a consolidação da Filosofia Moderna. A adoção do método científico e a crescente importância atribuída à observação empírica proporcionaram novas formas de compreender a realidade. A filosofia moderna passou a se centrar mais no indivíduo e em questões epistemológicas. Com isso, ganhou destaque o surgimento do liberalismo, do idealismo e do iluminismo.

O ser humano começou a refletir sobre a própria forma de pensar, transformando o pensamento em objeto de investigação. Consolidou-se a ideia de que o homem possuía a capacidade de exercer domínio técnico sobre a natureza e sobre as estruturas sociais. A realidade passou a ser compreendida como racional por constituir um conjunto organizado de relações de causa e efeito, passíveis de compreensão e de transformação pela ação humana. Dessa forma, visto que essa realidade passou a ser explicada por meio dos conceitos desenvolvidos pelo sujeito cognoscente, o ser humano tornou-se capaz de atuar sobre ela, modificando-a e atribuindo-lhe novos significados. A confiança na razão voltou-se a ocupar um lugar central no pensamento filosófico, estimulando o desenvolvimento do método científico e da investigação crítica.

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Trad. Antônio Borges Coelho. Lisboa: Editora Presença, 2000.

BELGIOIOSO, Giulia. História da filosofia moderna. São Paulo: Editora Unicamp, 2022.

BRÉHIER, Émile. História da filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.

CHAUÍ, Marilena. Iniciação à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2017

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Editora Saraiva, 2002.

HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. Rio de Janeiro: Forense, 1982.

MOSCA, Gaetano. História das Doutrinas Políticas. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1983.

REALE, Giovani. História da filosofia. São Paulo: Editora Paulinas, 2006.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna. São Paulo: Editora Loyola, 1999.

SCRUTON, Roger. Uma Breve História da Filosofia Moderna. São Paulo: Editora José Olympio, 2008.