quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Karl Marx

Karl Marx – (1818 a 1883) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Karl Heinrich Marx - Foi um filósofo alemão pertencente ao período contemporâneo. Seu conjunto de ideias ficou conhecido na filosofia como Marxismo. Direcionou seus estudos para o campo político e econômico, sendo considerado um dos precursores do chamado socialismo científico. Seus conhecimentos serviram de base para a sistematização do pensamento comunista moderno, inspirando vários países que buscaram implementar um regime comunista. Sua obra também influenciou várias áreas do conhecimento, exercendo mudanças nos campos econômicos, políticos, filosóficos, históricos e sociais. Iniciou seus estudos no Liceu Friedrich Wilhelm, em Tréveris, posteriormente ingressou na Universidade de Bonn, onde começou o curso de humanidades, porém abandonou a área, migrando para a universidade de Berlim, local em que passou a estudar Direito e Filosofia. Doutorou-se em Filosofia, em 1841, com a tese: “Diferenças entre os sistemas filosóficos de Demócrito e de Epicuro".

Fundou juntamente com o Friedrich Engels a "Sociedade dos Trabalhadores Alemães”. Participou da fundação do Partido Social Democrata Alemão. Criou uma entidade política denominada de “A Liga dos Justos”. Sofreu muitas perseguições políticas por conta de seu ativismo social. Seu pai era um advogado que trabalhava como conselheiro de justiça, conhecido pelo nome de Herschel Marx. Sua mãe era uma senhora chamada Henriette Pressburg. Karl Marx nasceu na cidade de Tréveris, região da Alemanha, no dia 5 de maio de 1818. Faleceu em Londres, na Inglaterra, no dia 14 de março de 1883, vitimado por complicações respiratórias.

Filosofia Política

O cenário político de sua época era favorável ao espírito revolucionário, diversos movimentos de transformação social permearam o universo europeu, como as revoluções burguesas e industriais. Nesse sentido, Marx escreveu uma obra clássica da filosofia política chamada de “O Capital”, no qual ele fazia uma dura crítica ao capitalismo, explicando como funcionava esse sistema e advertindo sobre como esse modelo econômico explorava o trabalhador. Argumentava que o capitalismo, por sua natureza, construía desigualdades e conflitos entre classes sociais. Sustentava a tese de que as sociedades humanas se desenvolvem através da luta de classes, explicando que as transformações sociais ocorrem por meio de conflitos entre classes antagônicas, impulsionadas por mudanças nas forças produtivas. Ele partia da análise das necessidades humanas, considerando que o homem lutava com a natureza, porquanto conflitava, iria aos poucos se descobrindo como um ser produtivo, passando então, a ter consciência de si e do mundo. 

Desenvolveu uma abordagem crítica conhecida como “materialismo histórico dialético”, em que advertia sobre o autodeclínio do capitalismo, pontuando que as crises políticas e econômicas dos sistemas capitalistas levariam esses sistemas a colapsarem, produzindo um novo sistema chamado de socialismo, sendo esse socialismo, uma fase de transição para o sistema comunista. Conforme defendia Marx, o materialismo histórico seria um modelo de estudo social, na qual ele julgava que a história se movia através dos conflitos de classes, em que essas classes, buscariam transformar a sociedade, a partir das condições materiais de vida, principalmente nas relações de produção. Afirmava que a base estrutural da sociedade seria a economia, sendo esta, responsável por moldar a cultura, a política e as ideologias. Isto significava, que as condições materiais e econômicas de uma sociedade determinavam suas estruturas sociais e políticas.

Sincretizou elementos da filosofia idealista hegeliana com ideias materialistas de Feuerbach, relacionando a dialética dos conflitos transformadores com o materialismo histórico. Essa combinação do materialismo filosófico com a dialética, produziu uma filosofia de cunho revolucionário. Apontava que a desigualdade social do seu tempo estaria ancorada numa classe detentora dos meios de produção, chamada de burguesia, que explorava outra classe possuidora da força de trabalho, denominada de proletariados. Argumentava que, conforme as forças de produção se desenvolvem, elas vão transformando os modos de produção em novos sistemas, daí ele citava como exemplo a passagem dos sistemas: escravistas, feudalistas e capitalistas, no curso da história. Realizou fortes análises a respeito da estrutura de classes, pontuando conceituações técnicas sobre filosofia política. Sua teoria definia alguns princípios como a ideia de: Mais-Valia, Alienação e Fetichismo.

Filosofia Marxista

Embora Karl Marx não se autopercebesse, propriamente, como um marxista, pois acreditava que suas ideias não deveriam ser substanciadas em uma doutrina fixa, mas sim, adaptadas conforme uma realidade histórica. O Marxismo foi interpretado, por estudiosos, como sendo uma corrente de pensamento filosófica, que objetivava analisar a sociedade capitalista e propor sua transformação, aspirando construir uma sociedade mais justa e igualitária. Estando centrada na análise materialista e dialética da história, focando na luta de classes como motor impulsionador das mudanças sociais. Propondo como substituição ao sistema capitalista, o modelo socialista, sendo este modelo, uma alternativa de superação do capitalismo, visando uma sociedade sem classes, onde os meios de produção seriam coletivos, através da transformação revolucionária da base econômica.

Segundo Marx, o sistema capitalista lucrava com a exploração gerada entre os donos dos meios de produção e a classe operária, pois o patrão não pagava ao funcionário a quantia justa pelo trabalho realizado, ou seja, os frutos produzidos não eram divididos de maneira igualitária. Nesse sentido, ele conceituava a ideia de “mais-valia”, que seria o valor real, não pago, pelo serviço concluído, isto gerava um capital excedente que era apossado pelos donos dos meios de produção e que não seria repassado ao empregado, fazendo com que o trabalhador não recebesse o valor correto, por seu devido trabalho prestado, provocando uma diferença entre o que o trabalhador produzia e o salário que ele recebia. Para Marx, esse excedente deveria retornar para o trabalhador, na forma de salário, numa porcentagem do valor equivalente ao que foi produzido, e a outra parte teria que ficar com o dono dos meios de produção. Esse seria, então, o conceito que Marx chamou de “mais-valia”.

Entendia que a “Alienação” seria o afastamento do trabalhador de sua própria essência humana, fazendo com que o trabalhador não se reconhecesse dentro do sistema de produção, ou seja, ele tornava-se estranho ao próprio produto de sua atividade. Isto faria com que o trabalhador perdesse sua identidade, o controle de sua vida e do seu trabalho, sendo apenas uma peça dentro da engrenagem capitalista. Segundo Marx, o “Fetichismo” era o deslocamento do real valor humano e natural de um produto para um valor sobrenatural. Esse valor sofreria sua modificação, após o processo de produção. Para ele, durante o processo de produção, os produtos passariam do valor natural de “uso”, para um valor de “troca” mercadológica, sendo adicionado um valor não-natural ao produto. Como exemplo, alguns produtos que são fabricados para atender as necessidades humanas, mas acabam sendo adquiridos para satisfação dos desejos sociais.  

Filosofia Sapiencial

+ “Tudo que é sólido se desmancha no ar”

+ “Tudo que eu sei é que não sou marxista”

+ “As revoluções são a locomotiva da história”

+ "Ser radical é atacar o problema em suas raízes."

+ “A ideologia é um produto das condições materiais da vida”

+ "O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura."

+ "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa."

+ “Mais importante do que interpretar o mundo, é contribuir para transformá-lo”

+ "A história de todas as sociedades até hoje é a história das lutas de classes".

+ "O controle da produção da riqueza é o controle da própria existência humana."

+ “Uma ideia torna-se uma força material quando ganha as massas organizadas”

+ “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”.

+ “A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas”

+ “O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora-a”

+ “Os indivíduos que compõem a classe dominante regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo."

+ “Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, ao contrário, seu ser social que determina sua consciência”

+ “Aos oprimidos é permitido uma vez a cada poucos anos decidir quais representantes específicos da classe opressora devem representá-los e reprimi-los”

+ “Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder nela a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos”

+ "A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual”

+ “A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não suplantou os velhos antagonismos de classe. Ela colocou no lugar novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado”

+ "O trabalhador é tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais cresce sua produção em potência e em volume. O trabalhador converte-se numa mercadoria tanto mais barata quanto mais mercadoria produz. A desvalorização do mundo humano cresce na razão direta da valorização do mundo das coisas. O trabalho não apenas produz mercadorias, produz também a si mesmo e ao operário como mercadoria, e justamente na proporção em que produz mercadorias em geral."

Obras:

O Capital; O Manifesto do Partido Comunista; A Sagrada Família; A Ideologia Alemã; Contribuição para a crítica da filosofia do Direito em Hegel; O trabalho Assalariado; A miséria da Filosofia; A Questão Judaica; O 18 Brumário de Luís Bonaparte; Contribuição à Crítica da Economia Política; Anais Franco-Alemães; Manuscritos econômico-filosóficos; Teses sobre Feuerbach; Punição capital; População, crime e pauperismo; Guerra Civil na França; Salário, preço e lucro.  

Fontes:

BOTTOMORE, Tom. Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2013.

FAUSTO, Ruy. Dialética Marxista, Humanismo, Anti-humanismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

GABRIEL, Mary. Amor e capital: A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2013.

HOBSBAWM, Eric. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo (1840–2011). São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2011.

HEINRICH, Michael. Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna. São Paulo: Editora Boitempo, 2018.

IANNI, Octavio. Dialética e capitalismo: Ensaio sobre o pensamento de Marx. Petrópolis: Editora Vozes, 1982

KONDER, Leandro. Marx: vida e obra. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2011.

MARX, Karl. O capital: Livro 1 - O processo de produção do capital. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1998.

NETTO, José Paulo. O que é Marxismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

SEGRILLO, Ângelo. Karl Marx: uma biografia dialética. Curitiba: Editora Prismas, 2018.

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

General Tibúrcio

General Tibúrcio - (1837 a 1885) d.C

Autor: Alysomax Soares

Antônio Tibúrcio Ferreira de Sousa - Foi um filósofo estadista cearense ligado as correntes de pensamento do militarismo. Exerceu papel importante na guerra do Paraguai, bem como também, em outros conflitos dos quais o Brasil fez parte, desempenhando diversas funções e assumindo vários cargos dentro da atividade militar. Definido por alguns como o soldado pensador e o “soldado-cidadão”, ele ficou conhecido também como “O General Filósofo”. Laborou como político, militar, professor e filósofo. Iniciou sua carreira militar aos 14 anos de idade no batalhão de infantaria, na cidade de Fortaleza. Foi condecorado com várias medalhas, como a Medalha da Campanha Oriental e a Ordem da Rosa, sendo nomeado Oficial do Cruzeiro. É considerado patrono do 38º Batalhão de Infantaria. Era filho do senhor Francisco Ferreira de Sousa com a senhora Margarida Ferreira do Nascimento. Nasceu no município de Viçosa do Ceará, região da serra de Ibiapaba, em 11 de agosto de 1837. Faleceu na cidade de Fortaleza, em 28 de março de 1885. Teria sido enterrado, inicialmente, no cemitério São João Batista, porém, posteriormente, seus restos mortais foram exumados e transladados para uma praça que leva seu nome, no centro de Fortaleza. Recebeu em sua homenagem várias estátuas pelas ruas e praças do país. Seu nome se encontra inscrito no livro dos heróis da pátria.          

Filosofia Militar

Possuía grande inclinação para o mundo das letras, sendo admirado por muitos como um homem culto. Contemporizou influências dos filósofos estoicos, assim como de pensadores como Adam Smith, Kant e Victor Hugo. Era detentor de uma hábil memória e grande poder de eloquência, recitando, de cor, grandes poetas e pensadores. Estudava todas as áreas do conhecimento, desde ciências exatas e aplicadas, até as humanas e sociais. Também tinha um bom caráter, sendo muitas vezes espirituoso e irreverente, característica inerente e própria do cearense ingênito, entoando nas rodas de amigos, epigramas, anedotas e histórias icônicas. Na arena política era contrário aos ideais de servidão humana, chegando a defender o republicanismo, o abolicionismo e a lutar em prol dos cativos, acreditando nas transformações sociais através do poder da educação.

Desenvolveu conceitos do militarismo construindo pensamentos que ajudaram a enaltecer os valores do militar. A concepção do chamado “soldado-cidadão”, ensinada por ele, elevava a moral das tropas, que passavam a cultivar o espírito ético do guerreiro. Como formador, Tibúrcio utilizou o positivismo para ajudar a transmitir valores como: o respeito à dignidade do ser humano; o patriotismo; o civismo; o profissionalismo; a lealdade; a constância; a verdade; a honra; a honestidade e a coragem. Esses valores visavam construir uma identidade política nos militares brasileiros. Segundo constatam alguns biógrafos, sua casa era decorada apenas com armas e livros. Como descreve o pensador Eusébio de Sousa: Tibúrcio foi “Grande nas armas e Grande nas Letras”.

Ingressou no batalhão de infantaria em 1851, servindo como praça. Depois assumiu o posto de Furriel, tendo logo em seguida sido promovido ao cargo de Sargento. Por volta de 1857, iniciou o curso de artilharia na escolar militar, ascendendo aos postos de Tenente e Capitão. Passou a lecionar as disciplinas de Matemática, Física e Química na escola Militar de artilharia. Tornou-se voluntário da pátria, atuando nos batalhões de engenharia e infantaria, durante a guerra do Paraguai. Logo após, progrediu a escala de Major, exercendo grande notoriedade, sendo reconhecido por sua bravura e avançando ao nível de Coronel. Durante a guerra operou com coragem e audácia nos fronts de batalha, defendendo os interesses da pátria. Também atuou como estadista concretizando ações estratégicas que ajudaram na tomada de decisões militares. Depois da guerra passou a exercer algumas atividades de inspetoria, elevando-se a esfera de General. 

Filosofia da História

A história desse pensador foi referenciada como instrumento de consolidação da “História do Ceará”, servindo de apoio na construção da memória e inteligência alencarina. Muitos historiadores precisaram narrar os feitos heroicos do povo cearense, descrevendo datas e fatos, sistematizando os eventos históricos, com a finalidade de registrar o sentimento de pertencimento genuíno a sua terra. Foi nesse sentido, que a história de Tibúrcio contribuiu para a compreensão de toda uma época, bem como para a sua memória e a do seu povo. Sua trajetória de vida também é prestigiada na cidade de Viçosa do Ceará, onde uma praça e um monumento foram nomeados em sua homenagem.

Na “Praça General Tibúrcio”, conhecida popularmente como, praça dos leões, no centro de Fortaleza, existe uma estátua do General, que foi construída para homenagear e registrar uma das lendas históricas locais. Seus restos mortais se encontram no pedestal, embaixo da estátua. A praça é considerada atualmente, um dos patrimônios históricos do Ceará. Ela possui outras estátuas, como a da escritora Rachel de Queiroz. O local já se chamou largo do palácio e foi palco para diversos conflitos políticos que fazem parte da história do Ceará. A estátua do Herói da guerra do Paraguai é apontada como uma das primeiras estátuas erguidas em Fortaleza.

Filosofia Sapiencial:

+ “É verdade que quem ensina também aprende”

+ “Paciência é coisa que se adquire com o tempo”

+ “Porta-te sempre como homem de bem, que serás feliz”...

+ "Nunca é tarde para aprender, porém, quanto antes melhor!"       

+ “É preciso suportar de boa mente aquilo que não é possível se evitar”

+ “Se a sua missão é ministrar aulas, não reclame dos alunos. Ensine-os.”

+ “A Justiça do Homem não deve ser partidária e sim semelhante a de Deus que por justiça emite sua luz para todos brilharem.”

Fatos e Curiosidades

Relata-se que, certa tarde Tibúrcio estava reunido com alguns colegas no pátio da Escola Militar, conversando de maneira descontraída, quando um companheiro chegou atrasado e resmungou em tom de desânimo: - Vocês estão sabendo? Está declarada a guerra no Prata! Conta-se que Tibúrcio ergueu-se pulando e bradou: - “Bravo! ou morro, ou volto coronel”...

Batalhas:

Participou de várias batalhas, entre elas: Corrientes, Riachuelo, Ilha do Cabrito, Tuyuti, Peripeuy, Rojas, Estero, Ballaço, Caraguatay, Campo Grande, ganhando sólido reconhecimento pela sua liderança e bravura em combate. Na Batalha Naval de Riachuelo comandou a artilharia a bordo do navio “Belmonte”.

Condecorações:

Medalha de Prata de Corrientes; Medalha de Prata de Riachuelo; Cavalheiro da Imperial Ordem do Cruzeiro; Cavaleiro da Ordem da Rosa; Oficial da Ordem da Rosa; Comendador da Ordem da Rosa; Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro; Medalha de Mérito Militar; Dignatário da Ordem da Rosa; Medalha de Prata da Campanha do Uruguai; Medalha Geral da Campanha do Paraguai; Espada de honra da Escola de Tiro de Campo Grande.

Fontes:

BRÍGIDO, João. Ceará, homens e fatos. Rio de Janeiro: inelivros, 2001.

CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Um Soldado do Império: O General Tibúrcio e seu tempo. Brasília: Editora Biblioteca do Exército, 2003.

CUNHA, Maria Noelia Rodrigues da. Praças de Fortaleza. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 1990.

ENDERS, Armelle. Os vultos da nação: fábrica de heróis e a formação dos brasileiros. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.

INSTITUTO DO CEARÁ. O General Tibúrcio: Traços Principais. Fortaleza: Revista Trimensal o libertador, 1921.

NOBRE, F. Silva. 1001 cearenses notáveis.  Fortaleza: Editora casa do Ceará, 1996.

RAMOS, Francisco Régis Lopes. O fato e a fábula: o Ceará na escrita da história. Fortaleza: Editora Expressão Gráfica, 2012.

REIS, Josué Callander dos. O General Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza. Revista de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1968.

SOUSA, Eusébio de. Tibúrcio: O Grande Soldado e Pensador. Fortaleza, Edições UFC, 1985.

STUDART, Guilherme. Datas e fatos para a história do Ceará. Fortaleza: Editora Fundação Waldemar Alcântara, 2001.

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne – (1533 a 1592) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Michel Eyquem de Montaigne - Foi um filósofo francês do período moderno que viveu na fase renascentista. Transitou seu sistema de pensamento entre as concepções do moralismo e do ceticismo. Sendo descrito como um cético humanista. Inaugurou um estilo de escrita denominado de ensaios pessoais, publicando por volta de 1580, sua “Magnum opus” intitulada de “ensaios”. Iniciou seus estudos no colégio de Guyene, em Bordeaux. Estudou Direito na Universidade de Toulouse, tendo atuado como magistrado e político. Considerado um grande pensador erudito, foi influenciado por múltiplos filósofos. Publicou uma variedade de textos sobre filosofia, literatura e história, em que dissertava a respeito da condição humana. Tinha grande relação de amizade com o filósofo Étienne de La Boétie. Seu pai era um senhor conhecido como Pierre Eyquem e sua mãe a senhora Antoinette de Loupes de Villeneuve. Nasceu em 28 de fevereiro de 1533, no Castelo de Montaigne, localizado em Dordonha, próximo a região de Bordeaux, na França. Faleceu em 13 de setembro de 1592, em sua cidade natal, vitimado por uma inflamação nas amígdalas.

Filosofia Humanista

Refletiu sobre o humanismo de maneira diversificada, pontuando suas individualidades e características. Sua obra resultou de observações, meditações e reflexões contextualizadas, que foram adquiridas através da leitura de um vasto saber humanístico. Defendia a ideia de que o problema da existência humana seria algo que não poderia propriamente ser respondido, acreditando que o homem seria um milagre em si mesmo. Utilizava-se da introspecção como ferramenta para compreensão do homem. Problematizou a questão da ética de forma original, sem se prender a um sistema específico de pensamento. Cultuava meditações pacifistas, desenvolvendo argumentos e teses, que ajudassem no entendimento das conciliações de conflitos, promovendo a cultura da tolerância. Para ele, o diálogo deveria ser utilizado no sentido de se evitar a violência, ou seja, a ordem deveria ser estabelecida, não propriamente pelo uso da força física, mas sim pela força da palavra e das ideias. Embora acreditasse, dentro de certo contexto, que toda ideia nova pode ser perigosa, defendia que todo homem deve ser respeitado. Aconselhava o hábito da moderação para que a noção de liberdade estivesse atrelada ao autocontrole. Na sua atuação como político ele promoveu algumas reformas para melhorar a vida de crianças, mulheres e demais pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Filosofia da educação

Acreditava que a educação deveria ser experienciada com vivências práticas, por isso tinha uma visão empirista da educação, defendendo uma educação analítica e crítica, através do ponto de vista observacional, desse modo atacava a cultura livresca renascentista, que apoiava o aprendizado baseado apenas na memorização. A criança deveria ser ensinada a observar e a julgar por si mesma, construindo certa autonomia. Aferindo que toda criança, na esfera educacional, deve ter sua personalidade respeitada, em face de suas individualidades. Posicionava-se a favor da articulação dos saberes, que deveriam relacionar teorias investigativas com práticas conclusivas. Nesse sentido, ele advertia: “Cuidamos apenas de encher a memória, e deixamos vazios o entendimento e a consciência.”

Apesar de sua obra ser um estudo que partia de si mesmo, para assim entender o ser humano, segundo Montaigne, o homem não poderia conhecer completamente o mundo, a partir de si mesmo, pois conhecer a si mesmo refletiria apenas uma singularidade e não um saber totalizante do indivíduo. Seu estilo de escrita era permanente e contínuo, por isso passou quase toda a vida acrescentando trechos originais e revisando a sua grande obra. Seus textos continham desde reflexões entre mente e matéria, até questões criativas e irônicas.

Fatos e Curiosidades

Relata-se que Montaigne teve uma educação excêntrica e diversificada, quando criança, passou boa parte de sua vida estudando e convivendo, com camponeses em uma cabana isolada. Seu pai teria o enviado para uma aldeia com o objetivo de ensiná-lo a viver em situação de dificuldade, aprendendo valores como respeito, proteção, honestidade e coragem. 

Filosofia Sapiencial

+ “A covardia é a mãe da crueldade”.

+ “A morte: nossa eterna companheira”

+ “O lucro de um é o prejuízo de outro”

+ “Do medo é que eu tenho mais medo”.  

+ “Quem não tem boa memória não deve mentir”.      

+ “Quem tem medo do sofrimento já está sofrendo”.

+ “A mais sutil loucura é feita da mais sutil sabedoria”

+ “A melhor coisa do mundo é saber ser você mesmo.”

+ “A palavra é metade quem fala e metade quem ouve”.

+ “O verdadeiro espelho dos nossos discursos é nossa vida”.

+ “Cada homem tem em si a condição inteira da humanidade”

+ “É melhor uma cabeça bem-feita do que uma cabeça cheia”.

+ “As mais belas almas são as que têm mais variedade e flexibilidade”.

+ “Quem ensinar os homens a morrerem vai também ensinar a viverem”.

+ “O melhor casamento seria entre uma mulher cega e um marido surdo”.

+ “Mesmo no mais alto trono continuaremos sentados sobre nosso traseiro”.

+ “Não estamos nunca junto de nós, mas sempre para além de nós mesmos”

+ “Não morremos porque estamos doentes, morremos porque estamos vivos”.

+ “Abandonar a vida por um sonho é estimá-la exatamente por quanto ela vale.”

+ “Pode-se ter saudades dos tempos bons, mas não se deve fugir ao presente.”

+ “O homem não tem nenhum outro animal a temer no mundo tanto quanto ao homem.”

+ “A mais honrosa das ocupações é servir o público e ser útil ao maior número de pessoas.”

+ “O homem não é tão ferido pelo que acontece, e sim por sua opinião sobre o que acontece.”

+ “Cuidamos apenas de encher a memória, e deixamos vazios o entendimento e a consciência”.

+ “A sabedoria é uma construção sólida e única, na qual cada parte tem seu lugar e deixa sua marca.”

+ “O casamento é uma gaiola em que os pássaros que estão fora querem entrar e os que estão dentro querem sair”.

+ “Fica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas impossíveis e de caminhar livremente em direção aos sonhos.”

+ “Apenas pelas palavras o ser humano alcança a compreensão mútua. Por isso, aquele que quebra sua palavra atraiçoa toda a sociedade humana.”

+ “Exprimo livremente minha opinião acerca de tudo, mesmo daquilo que, por ultrapassar meus conhecimentos intelectuais, considero fora de minha alçada. O meu comentário tem por fim revelar meu ponto de vista, e não julgar o mérito das coisas”.

+ “Não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos (Tupinambás); e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. (…) Não me parece excessivo julgar bárbaros tais atos de crueldade [o canibalismo], mas que o fato de condenar tais defeitos não nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos, ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de devoção e fé, como não somente o lemos, mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos; e isso em verdade é bem mais grave do que assar e comer um homem previamente executado. (…) Podemos, portanto, qualificar esses povos como bárbaros em dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se compararmos a nós mesmos, que os excedemos em toda sorte de barbaridades”.

Fontes:

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Editora Hucitec, 1999.

BORNHEIM, Gerd. Montaigne: o ceticismo e a condição humana. Rio de Janeiro: editora Jorge Zahar, 2007.

CARDOSO, Sérgio. Montaigne filósofo. São Paulo: Cult, 2017.

CHAUÍ, Marilena. Introdução aos Ensaios de Montaigne. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004.

FIGUEIREDO, Vinicius de. O ceticismo nos Ensaios de Montaigne. Curitiba: Editora UFPR, 2003.

FRAME, Donald Murdoch. A Descoberta do Homem por Montaigne: A Humanização de um Humanista. Nova Iorque: Columbia University Press, 1955.

HOFFMANN, George. A Carreira de Montaigne. Nova York: Oxford, 1998.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Edição Cultural e Industrial, 1972.

STAROBINSKI, Jean. Montaigne em movimento. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

VASCONCELOS, José Carlos de Araújo. Montaigne e a arte do ensaio. Lisboa: Editora Relógio d’Água, 1998.

domingo, 24 de agosto de 2025

Bárbara de Alencar

Bárbara de Alencar – (1760 a 1832) d.C

Autor: Alysomax Soares

Bárbara Pereira de Alencar – Foi uma filósofa política ligada as correntes de pensamento do progressismo. Recebeu o título de cidadã cearense em memória pela sua grande influência na história do estado. Herdou o seu primeiro nome em homenagem a santa Bárbara. Ficou conhecida como “Dona Bárbara do Crato” e figura na lista dos chamados heróis da pátria. Destacou-se como uma mulher letrada em uma época que as mulheres tinham poucos direitos a educação. Possuidora de uma personalidade forte e uma cultura admirável, desde jovem já lia os grandes clássicos da literatura universal. Estimada como uma das primeiras revolucionárias do Brasil, ela desempenhou a função de fazendeira, comerciante e ativista. Estudou botânica com o padre naturalista Manuel de Arruda Câmara, tendo sido influenciada espiritualmente e politicamente pelos pensamentos do clérigo. Detentora de um vasto saber político, também foi inspirada pelas doutrinas iluministas dos filósofos Voltaire, Montesquieu e Rousseau. Era filha do senhor Joaquim Pereira de Alencar com a dona Teodósia Rodrigues da Conceição. Nasceu no sertão de Pernambuco, na cidade de Exu, em 11 de fevereiro de 1760. Faleceu na localidade de Fronteiras, município do Piauí, por volta de 18 de agosto de 1832. Seu corpo foi sepultado na cidade de Campos Sales, no Ceará. Teve, a seu pedido, um enterro simples, enrolada numa rede. Seu túmulo encontra-se em processo de tombamento. Recebeu, ao logo do tempo, várias homenagens e reconhecimentos por todo o país.  

Filosofia Política

Considerada uma protomártir da independência do Brasil, ela contribuiu, substancialmente, na construção dos ideais republicanos, participando das discussões e reuniões relacionadas com os movimentos políticos da época. Desafiou os poderes sociais e políticos vigentes em seu tempo. Ficou consagrada historicamente como uma heroína que defendia as concepções libertárias, tendo participado da revolução pernambucana e da confederação do Equador. Desempenhou forte papel de articulação entre políticos, clérigos e intelectuais, lutando por um nacionalismo liberal que tornasse o estado brasileiro livre e forte. Tinha um posicionamento contrário as idealizações absolutistas, advogando em prol do separatismo e da identidade brasileira. Mulheres como Bárbara, quando se tornavam viúvas, tinham que se virar para criar os filhos e administrar grandes fazendas. Nesse cenário, elas eram muitas vezes chamadas de “Mulher-Macho” ou “Matriarcas do Sertão”. Títulos herdados pela influência local que representavam, exercendo grande liderança e poder nos chamados feudos regionais do sertão. A revolucionária do Crato, rompeu com o papel tradicional de mulher do lar, atuando como guerreira, intelectual e articuladora. Vista por muitos como uma mulher de fibra e coragem, ela é, atualmente, referência da luta feminina pelos direitos da mulher. Parafraseando o poeta: “Bárbara...essa mulher foi Bárbara”!

Filosofia Progressista

Segundo descrevem os historiadores, em uma bela manhã de domingo, na igreja local da vila do Crato, estavam reunidos a plebe e os poderosos, quando um dos filhos de Bárbara, José Martiniano se dirigiu ao púlpito, e leu um dos textos simbólicos da revolução, chamado de “o preciso”. Conclamando por liberdade, ele declarou ali a república de Jasmim. Acredita-se que, boa parte da inter-relação política, nas sedições, tenha sido arquitetado e planejado pela mãe. Porém, por ser mulher, e dada a sua condição de senhora matriarca, ela preferiu atuar mais discretamente, assumindo o papel de conselheira, não se manifestando, em certas ocasiões, visivelmente, evitando ficar em evidência, pois era o cérebro pensante do movimento. Mesmo assim, sofreu grande perseguição política, sendo presa em calabouços por quase quatro anos. Foi acorrentada e conduzida para os fortes de Fortaleza, Recife e Salvador. Teve todos os seus bens confiscados pela coroa portuguesa. Foi vítima de várias difamações e boatos contra sua honra, os quais teriam sido perpetuadas por inimigos políticos. Segundo algumas correntes feministas, sua atuação pública, na condição de mulher, contribuiu para que ela sofresse certas humilhações caracterizadas como violência de gênero. Para elas, as falsas acusações tinham como objetivo, difamar as mulheres, para macular sua imagem e apagar sua memória, frente aos grandes acontecimentos históricos. Admirada como uma mulher à frente de seu tempo, ela é tida como uma das pioneiras da liberdade, que lutaram por justiça e igualdade. 

Fatos e Curiosidades:

Relata-se que, na Fortaleza de Assunção, local em que Dona Bárbara ficou aprisionada, ainda existe o calabouço, onde as pessoas visitam. Narra-se entre a tradição popular, uma lenda de que, até esse tempo, é possível ouvir pelas madrugadas, sons de gritos e gemidos ecoando pelo porão. Nesse espaço, foi anexada uma placa com a seguinte frase: “aqui gemeu Bárbara Pereira de Alencar”. Bárbara era avó do escritor cearense José de Alencar. Também foi mãe de José Martiniano Pereira de Alencar e de Tristão Gonçalves de Alencar Araripe.  

Filosofia Sapiencial

+ “Os escravos foram meus amigos mais leais"

Fontes:

ARAÚJO, Ariadne. Bárbara de Alencar. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002.

ARAGÃO, Caetano Ximenes de. Romanceiro de Bárbara. Série Luz do Ceará. Fortaleza, Secretaria de Cultura do Ceará, 2010.

CARVALHO, José. Heroína Nacional: Bárbara de Alencar. Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará. 1920.

GASPAR, Roberto. Bárbara de Alencar: a guerreira do Brasil. Fortaleza: Gráfica Tiprogresso, 2001.

MONTENEGRO, João Alfredo de Sousa. Bárbara de Alencar. Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1995.

NOBRE, Luciana Barbosa. O romance de Bárbara. Rio de Janeiro: Editora Revista da Academia de Letras, 1982.

PELLEGRINO, Antônia. Bárbara de Alencar e as Raízes Brasileiras da Violência Política de Gênero. Revista do Centro de Pesquisa e Formação. N: 15. São Paulo: SESC/RCPF, 2022.

QUEIROZ, Rachel de; HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Matriarcas do Ceará: Dona Federalina de Lavras. Rio de Janeiro: Papéis avulsos, 1990.

SOUZA, Duda. Porto; CARARO, Aryane. Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil. São Paulo: Editora Seguinte, 2017.

SOUSA, Kelyane Silva de. Bárbara de Alencar: relações de gênero e poder no Cariri Cearense. Dissertação de Mestrado. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2015.

 

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Antipas de Pérgamo

Antipas de Pérgamo - (28 a 93) d.C. Aprox.

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo teológico pertencente ao período de transição entre a filosofia helenística e a filosofia medieval, por volta da fase de ouro em que viveram os descritos padres apostólicos. Figura na lista dos chamados “hieromártires Cristãos”. Teria sido discípulo direto do apóstolo São João Evangelista. Seu nome é citado algumas vezes no livro bíblico do Apocalipse, e significa no grego “contra todos”, sendo apresentado como “Antipas, a fiel testemunha”. Atuou como bispo da Igreja de Pérgamo, durante o reinado do imperador Nero. Foi martirizado por combater as heresias e idolatrias, durante o governo de Domiciano. Ficou afamado como o santo protetor que alivia a dor de dentes. Poucas informações foram preservadas a seu respeito. Tendo inclusive, já sido confundido com outra figura histórica conhecida pelo nome de “Herodes Antipas”. Contudo, é consenso entre os historiadores, que se trata de duas personalidades distintas. Não se sabe com precisão a data exata de seu florescimento, tendo falecido com certa idade avançada, teria sido assassinado no templo de Ártemis, e seu corpo foi sepultado na cidade de Pérgamo. O túmulo passou a exalar um agradável aroma de bálsamo por muitos anos, tornando-se fonte de milagres e de curas para diversas doenças. Existe uma tradição católica antiga, que acredita que um tipo de óleo conhecido como "maná dos santos", seria retirado das relíquias de Santo Antipas.

Filosofia Eclesiástica

Iniciou sua defesa aos princípios cristãos, após ter sido preso por negar adoração aos ídolos das religiões greco-romanas. Passou então a convencer os romanos a não oferecerem mais sacrifícios pagãos aos falsos ídolos. Isso teria gerado a desafeição de alguns heréticos que passaram a persegui-lo. Foi amarrado, torturado e jogado, ainda com vida, em uma fornalha ardente que tinha o formato de um touro. Relata-se que, no momento de sua morte, Antipas teria bravejado em voz alta, uma forte oração, agradecendo a Deus por ter sido escolhido para sofrer por amor a cristo, testemunhando que o amor de Deus é mais forte que a própria morte. Pediu a Deus para que guardasse sua alma e fortalecesse a fé dos cristãos. Algumas fontes descrevem que seu corpo se reduziu a cinzas, outras que foi literalmente cozinhado, porém a tese mais aceita, seria o relato de que a noite, os cristãos levaram seu corpo intocado pelas chamas, para o local onde foi enterrado. Ainda segundo certos pesquisadores assim descrevem, enquanto os pagãos assistiam ao sinistro de sua morte, esperando o espetáculo que era comum nesse tipo de tortura, em que ecoava gritos das vítimas, por um canal acústico, simbolizando rugidos de touro, quando estes eram lançados no animal de bronze ardente, de forma surpreendente, Antipas não gritava de dor, ao contrário, orava por seus algozes, recitando salmos e canções ao senhor.

Filosofia Teológica

A tradução etimológica da palavra “Pérgamo” não é muito clara. Algumas traduções explicam que vêm de purgos, que significa torre alta, castelo fortificado, podendo ter sua tradução estendida em diferentes línguas. Outras traduções apontam para a ideia de casamento ou abundância. Pérgamo era considerada, entre os cristãos, uma cidade pecaminosa, tendo estátuas que simbolizavam culto aos ídolos. Havia inclusive um templo de adoração ao imperador romano. Antipas demostrou sua repugnância aos pecados e vícios humanos, refutando o vazio e a maldade que existia na adoração da cultura do paganismo. Existia uma forte oposição ao cristianismo, praticada por uma forma de estatismo humanista, gerenciada principalmente, pelo judaísmo e pelos romanos. A tradição cristã acredita que o “santo Antipas” pode ser caracterizado como sendo o mesmo personagem citado no livro do Apocalipse na Bíblia: Nela é citada, em uma passagem, tanto o nome de Antipas, bem como a cidade de Pérgamo, observe o que diz o trecho bíblico:

"E ao anjo da igreja que está em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada aguda de dois gumes: Eu sei onde moras, onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias em que Antipas, minha testemunha fiel, foi morto entre vós, onde Satanás habita" (Apocalipse 2:12-13).

Nesse contexto, muitos cristãos desse tempo, participavam de alguns eventos pagãos, devido a cultura social da época, que normalizava certos vícios morais, em nome da boa convivência política e econômica. A cidade de Pérgamo chegou a ser descrita como sendo o trono de Satanás pela própria doutrina bíblica. A influência de falsas doutrinas teve um impacto negativo na igreja, poluindo a congregação com as falsas idolatrias. Havia uma mistura de pluralismo e sincretismo religioso, que se igualava aos antigos cultos pagãos. Desse modo, a prática da idolatria teria sido combatida por Antipas, pois ele acreditava ser necessário resistir fielmente as tentações, visto que esses valores pagãos não eram compatíveis com o Evangelho. Defensor da fé cristã, ele suportou a perseguição até o fim de sua vida, destacando-se no mundo como sendo a fiel testemunha e dando prova disso. Ficou conhecido por expulsar demônios, curando possessos e enfermos. Parte de sua vida estar envolto em mistérios, tendo vivenciado as tensões políticas e religiosas de seu tempo. Relata-se que, em um dado momento, alguém teria advertido a Antipas dizendo: "Antipas, o mundo inteiro está contra você!", e ele teria prontamente respondido: "Então eu sou contra o mundo inteiro!".

Fatos e Curiosidades

Conta-se que, antes de sofrer seu martírio, Antipas foi levado perante o governador, para que este pudesse persuadi-lo a negar sua fé. O governador teria lhe dito que a adoração aos ídolos era uma prática mais antiga, e que por isso, essa tradição deveria ser mais respeitada do que aquela nova religião pregada por pescadores e gente humilde. Antipas, então, teria respondido ao governador, relembrando a história de Caim, que embora também tivesse sido uma história tradicional da humanidade, esse fato era intolerável, pois descrevia um assassinato contra um irmão. Assim também, seriam as crenças e práticas dos antigos helênicos, que apesar de muito antigas, continham heresias, e que por isso, também mereciam desprezo por parte daqueles que cultivavam a verdade de Deus, pois os deuses pagãos eram obras de mãos humanas e que tudo o que se dizia sobre eles, estaria repleto de vícios e iniquidades.

O termo "pergaminho" deriva do grego "pergamene" e do latim "pergamena", ambos relacionados à cidade de Pérgamo. Segundo fontes, foi a população da cidade de Pérgamo que começou a usar peles de animais para fazer o pergaminho, substituindo o antigo papiro. A princípio, o pergaminho era feito de pele de animais, como ovelhas ou cabras, sendo utilizada como suporte para a escrita e a pintura.

Filosofia Sapiencial

+ “Não irei servir aos demônios, estes fogem de mim”.

+ “Eu continuarei adorando ao criador de todos, o Senhor Todo-Poderoso, juntamente com seu filho unigênito e o Espírito Santo”.

+ “Como posso eu oferecer sacrifícios aos demônios, quando diariamente ofereço sacrifício ao Deus verdadeiro, por meio de Cristo?”

Fontes:

ANDRÉ DE CESÁREIA. Comentário sobre o Apocalipse. Col. Os Padres da Igreja. Trad. Eugenia Scarvelis. Washington: Catholic University of America Press, 2011.

BASS, Ralph E., Jr. De Volta para o futuro: um estudo do livro Apocalipse. Greenville, South Carolina: Living Hope Press, 2004.

BEALE, Gregory Kimball. O Livro do Apocalipse: Novo Comentário Internacional do Testamento Grego. Michigan: Editora ‎ Eerdmans, 1999.

BRUCE, Frederick Fyvie. O Novo Testamento Documentado: Sua Origem e Testemunho Histórico. São Paulo: Editora Vida Nova, 1990.

DEMAR, Gary. O Martírio de São Antipas e a composição do Apocalipse. Londrina: Revista cristã Última chamada, 2017.

EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século, 2002.

HENDRIKSEN, William. Mais que Vencedores: Uma Interpretação do Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

HITCHCOCK, Mark. O Livro Completo da Profecia Bíblica. Illinois: Tyndale House Publishers, 1999.

RAYMUNDO, César Franscisco. Equívocos e Contradições do Preterismo. Londrina: Revista cristã Última chamada, 2019.  

SUMMERS, Ray. A Mensagem do Apocalipse. Florianópolis, Editora Juerp,1986.

TERTULIANO. Apologéticos e o Pálio. Col. Patrística. São Paulo: Paulus, 1995.

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Padre Ibiapina

Padre Ibiapina - (1806 a 1883) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

José Antônio de Maria Ibiapina Foi um filósofo cearense pertencente as correntes de pensamentos teopolíticas. Antecipou as concepções filosóficas que mais tarde influenciaram o surgimento da chamada “teologia da libertação”. Atuou como professor, político, jurista, sacerdote, missionário e filósofo. Começou seus primeiros estudos na cidade de Icó, posteriormente migrou para o Crato e depois para a localidade de Jardim, onde estudou latim com o mestre Joaquim Teotônio Sobreira de Melo. Ingressou inicialmente no seminário de Olinda, mas logo teve que abandonar o curso, pois sua mãe teria falecido prematuramente e seu pai foi executado, após participar de um movimento político. Diante das dificuldades, resolveu ingressar na faculdade de Direito de Olinda, onde deu início as suas carreiras jurídicas. Exerceu diversas profissões antes de se firmar sacerdote, abandonando as carreiras jurídicas e políticas para se tornar um missionário. Recusou diversos títulos e cargos para se dedicar ao sacerdócio.

Considerado o “Apóstolo do Nordeste”, ele ficou conhecido como o “Padre Mestre Ibiapina”. Recebeu esse cognome Ibiapina de seu pai, em homenagem ao local de casamento do seu genitor. Chegou também a mudar um de seus sobrenomes, que antes era Pereira, trocando para o sobrenome de Maria. Contudo, algumas fontes históricas preferem transcrever seu nome anexando os dois adnomes, ficando, então, “José Antônio Maria de Pereira Ibiapina”. Era filho do senhor Francisco Miguel Pereira com a senhora Teresa Maria. O Padre Ibiapina nasceu em 5 de agosto de 1806, em Sobral e faleceu em 19 de fevereiro de 1883, na cidade de Solânea, na Paraíba. Vitimado por um derrame, fruto de uma paralisia progressiva dos membros inferiores. Recebeu o título de venerável pela igreja católica, bem como também, foi homenageado com o nome de várias ruas, bairros, escolas e fundações, por várias regiões do Brasil.

Filosofia Teopolítica

Utilizou sua veia política e sacerdotal para atuar como missionário. A Igreja Católica o nomeou para o cargo de Visitador Diocesano, com a missão de supervisionar algumas atividades da Igreja. Foi eleito Deputado Geral e após abandonar a carreira política, passou a peregrinar pelos estados do Nordeste com a missão de realizar a caridade. Dedicou-se a rezar, meditar, estudar teologia e filosofia. Realizou inúmeras atividade sociais em prol das comunidades rurais, fundando diversas casas de caridade que eram utilizadas por pessoas em situação de vulnerabilidade. Organizou missões, construiu capelas, igrejas, açudes, cacimbas, poços, reservatórios, cemitérios e hospitais pelos sertões do Nordeste. Percorria o sertão inóspito de forma itinerante, pregando seus sermões e aconselhando o público sofrido, tendo ficado afamado pelo povo com o título de o “peregrino da caridade”. As obras de caridade não visavam apenas levar a fé para as pessoas, mas também, criar através do espírito da caridade, ações políticas de cooperação, que transformasse significativamente a vida dessas pessoas, como por exemplo, os mutirões para construções, que formavam os núcleos habitacionais. Buscava levar aos desvalidos, o conforto espiritual e material, promovendo a dignidade humana e a transformação social, através da fé e da caridade. Detentor de uma eloquente oratória, ele conseguia seduzir as massas e mobilizar o povo para a realização dos trabalhos. Além das obras sociais, também lhe é creditado ter realizado curas e milagres.

Filosofia da Educação

Diante da violência impulsionada por uma cultura selvagem que assombrava o agreste nordestino, o padre-mestre ambicionou mudar o sertão, não por fora, mas por dentro. Instituiu uma forma de educação social, em que organizava junto com a população local, meios de resolução dos problemas, com isso, educava o povo, através da disciplina ética do trabalho. Absorveu como lema: pacificar, educar e profissionalizar, desenvolvendo um estilo de educação cívica e humanizante, que fomentava através da fé, da caridade e do trabalho, uma formação de capital humano, econômico, moral e social.  

Exerceu o trabalho de professor, chegando a lecionar para várias personalidades políticas e jurídicas. Também foi nomeado professor de eloquência sacra no seminário de Olinda. Alguns espaços de acolhimento construídos pelo chamado “Padre-Mestre” promoviam atividades escolares, onde se aprendia a ler e escrever, bem como a prática de algum ofício. Fundou orfanatos para atender crianças humildes e mulheres em condição de desamparo. Nesses locais eram fornecidos educação moral e religiosa. As mulheres, por exemplo, além da assistência à saúde, realizavam atividades profissionalizantes e laborativas. Realizou oficinas onde ensinava atividades de artesanato, tecelagem e costura. Promoveu o ensino de técnicas agrícolas e canais de irrigação, com a finalidade de ajudar os sertanejos a sobreviverem.

Filosofia Jurídica

Figurou entre os primeiros alunos matriculados na Faculdade de Direito de Olinda, formando-se na primeira turma de Bacharéis em Ciências Jurídicas. Lecionou as disciplinas de Direito Natural e Direito Criminal, tendo inclusive assumido a presidência da Comissão de Justiça Criminal. Foi nomeado juiz de direito da Vila de Campo Maio e Delegado de Polícia da Prefeitura de Quixeramobim. Criou um projeto de lei para impedir o desembarque de escravos vindos da África em território brasileiro. Exerceu a advocacia em defesa dos mais pobres e agiu como conselheiro resolvendo conflitos. Deu início aos processos de demarcações de terras por várias regiões, defendendo os direitos dos trabalhadores rurais, colaborando com a formação e fundação de alguns municípios. Lutou pelas causas nacionalistas com ênfase nas questões sociais, tornando-se uma figura mítica na cultura popular nordestina.

Filosofia Sapiencial

+ "É preciso edificar uma casa"

+ "A oração é o alimento da alma."

+ "A caridade é o maior dos dons."

+  “Caminhar é o nome da felicidade”

+ "A paciência é a virtude dos fortes."

+ "A esperança é a âncora do espírito."

+ "A perseverança é a mãe do sucesso."

+ "A virtude é o caminho para a felicidade."

+ "A humildade é a chave para a salvação."

+ "A nossa caridade deve ser ativa, operosa e constante."

+ “O presente e os sucessos ordinários da vida não me impressionam”.

+ "O homem sem Deus é como o choco sem o pinto; sem ele, o homem é um ovo podre".

+ "Muita humildade. Falar pouco e só o necessário, para que pela língua não escape a vida espiritual."

+ “Confie em Deus, que a soberba fugirá de nossa casa e triunfará sobre as maquinações do inimigo.”

+ "Enviai, Senhor, operários para a vossa messe, pois a messe é grande e poucos são os operários".

+ “Enquanto tivermos água, haverá para todos. Quando não houver mais, morreremos de sede com eles todos”.

+ "Um coração angélico, puro, simples, casto, humilde, desinteressado, benfazejo e tão dedicado ao amor de Deus e do próximo..."

+ “A evangelização não se faz somente pela administração dos sacramentos, mas também pelo exercício concreto e prático do amor ao próximo”.

+ "Depois do temor a Deus, o meio mais poderoso que tem o pai e a mãe de família para conservar a família em boa moral, na obediência e ordem regular, é o trabalho constante e forte".

Fatos e Curiosidades

Segundo constatam alguns biógrafos, o Padre-Mestre teria, a princípio, abandonado a carreira jurídica, após um incidente, em que presidia um júri, tendo possivelmente se sentido traído e perseguido, em seu ideal de justiça. Ele pediu exoneração do cargo e passou a atuar na esfera política, exercendo o cargo de Deputado Geral, porém, ainda de maneira polida, tentou combater os casos de corrupção, momento que novamente se frustrou, resolveu, diante disso, deixar a arena política. Decidiu se retirar e viver mais recluso e reflexivo, experienciando a solitude, meditando seu apogeu espiritual, estudando filosofia e teologia. Logo depois, recupera-se, torna-se, então, o “Apóstolo do Sertão”, cruzando o Nordeste árido na promoção da paz e da justiça social. 

 

Fontes:

ALVES, Guarino. Claras figuras do passado. Fortaleza, Revista do Instituto do Ceará, 1980.

ARAÚJO, Francisco Sadoc de. Padre Ibiapina: peregrino da caridade. Fortaleza: Editora Paulinas, 1996.

BEVILÁQUA, Clóvis. História da Faculdade de Direito do Recife. Brasília: INL, Conselho Federal de Cultura, 1977.

CARVALHO, Cláudio Sousa de. Padre Ibiapina e o Imaginário Popular. ANPUH – XXII Simpósio Nacional de História. João Pessoa: UFCG, 2003.

COMBLIN, José. Instruções espirituais do Padre Ibiapina. São Paulo: Paulus, 1984.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. Rio de Janeiro: Record, 2000.

HOORNAERT, Eduardo. Crônica das casas de caridade: fundadas pelo Padre Ibiapina. Fortaleza: Museu do Ceará, Secretaria da Cultura do Estado do Ceará,2006.

LEAL, Vinícios Barros. Ibiapina: um profeta em sua terra. Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1983.

MACIEL, Célia Magalhães. Padre Ibiapina: máximas, casas de caridade e o seu pensamento evangelizador. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015.

MARIZ, Celso. Ibiapina: Um Apóstolo do Nordeste. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 1997.

SILVA, Benedito. Padre Ibiapina. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002.

VICTOR, Plínio Araújo. Ibiapina e os Donos da Memória. Dissertação de Mestrado. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 1995.