quarta-feira, 4 de maio de 2022

Matias Aires

Matias Aires – (1705 a 1763)

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Matias Aires Ramos da Silva de Eça foi um filósofo luso-brasileiro do período colonial. É considerado um dos primeiros filósofos do Brasil e conceituado também como um dos maiores filósofos da língua portuguesa. Pertenceu a academia brasileira de letras, tendo ocupado a cadeira de número seis como patrono. É patrono também da cadeira de número 3 da Academia Paulista de Letras. Sua obra é considerada um clássico da Literatura mundial. Ele foi apontado como um filósofo melancólico, pois tinha um aspecto respeitoso e educado o que era muitas vezes confundido, em sua época, como antissocial. Iniciou seus estudos no colégio jesuíta de São Paulo, mas foi morar em Lisboa quando tinha apenas onze anos. Posteriormente concluiu o curso de humanidades no colégio santo Antão, em Portugal. Recebeu o grau de mestre em artes pela universidade de Coimbra. Chegou a cursar Direito, em Paris na França. Atuou como engenheiro voluntário na batalha do cerco de Gibraltar. Ocupou o cargo de provedor da Casa da Moeda, em Portugal. Sua educação nobre lhe permitiu uma sólida e eclética formação. Tratou em sua filosofia dos temas relacionados à vaidade, o amor, o tempo e o ceticismo. Dessa forma, sua filosofia se entrelaça entre questões da Psicologia e da Filosofia Moral. Também é visto como um pensador humanista. Matias não teve o devido reconhecimento de sua obra em vida e isso teria lhe deixado decepcionado. Por muitos anos sua obra permaneceu esquecida nos porões do tempo, entretanto é bastante estudada na atualidade. Era natural da cidade de São Paulo, filho de José Ramos da Silva e de Catarina Horta. Faleceu no ano de 1763, em Agualva, localidade próximo a Lisboa.

Filosofia Moral

Ele teria sido conceituado como um filósofo moralista por transcorrer sobre as questões relacionadas com a investigação da alma. A base da sua filosofia se encontrava ancorada na sapiente frase bíblica do Eclesiastes: “vaidade das vaidades tudo é vaidade”. Nesse sentido, ele construiu sólidas reflexões sobre a noção de vaidade. Acreditava que os homens agiam movidos pelas paixões e que estas eram causadas pela vaidade, ou seja, a vaidade seria um guia para outras paixões ou até mesmo para o entendimento humano. Matias Aires explicava que a vaidade não seria uma paixão do corpo, mas sim da alma, pois o defeito não estaria na vontade, e sim na imperfeição da lucidez humana. Nesse contexto, o homem deveria enfrentar esse vício não com as forças do corpo, mas sim com as armas do espírito. Desse modo, as paixões que seriam geradas pelo coração do homem e pela sua ideia de compreensão do mundo eram na verdade ilusórias, elas dominavam o espírito humano, por isso o homem deveria buscar uma clarificação do entendimento em Deus. Aires argumentava que se o homem conseguisse negar a vaidade, ele estaria cumprindo o propósito de Deus, pois na sua visão, Deus seria a autoridade maior que existe no campo espiritual e temporal.

Argumentava que até mesmo na dor o homem também floresce sua vaidade, pois em alguns casos o indivíduo se agarra ao sofrimento com a finalidade de comprovar uma injustiça ou agigantar seu infortúnio. Em razão disso, a vaidade poderia amenizar ou piorar o sofrimento humano. Na sua visão, nem mesmo as virtudes escapam da vaidade. Dessa forma, ele pontuava que a vaidade estaria presente em questões como a desgraça, a miséria, o suplício e até na própria morte como sacrifício de vida. Portanto, a vaidade também seria uma espécie de amor à vida. Em contrapartida, ele pensava que o amor teria como função equilibrar a dinâmica do universo. Matias diferenciava a definição para dois tipos de amor: o amor medíocre e o amor sublime. O primeiro era voltado aos prazeres ligados aos sentidos, às paixões do corpo e aos impulsos da natureza humana, este buscava aceitação no outro e a aprovação de outros indivíduos. O segundo emanava da alma e encontrava satisfação dentro de si, era independente do outro, possuía um aspecto divino e seria completamente desvinculado das paixões.

Filosofia do Conhecimento

Matias acreditava que o conhecimento das coisas se originava nos sentidos. Dessa maneira, ele pensava que o conhecimento não poderia sem apreendido e nem ensinado. Explicava que o homem poderia utilizar o critério da vaidade como guia de conhecimento de “si e do outro”. Ainda segundo ele, o homem poderia se prevenir de certos comportamentos e construir ações políticas que pudessem lhe auxiliar a agir de forma justa e efetiva. Nesse sentido, ele denotava que a ideia de juízo não seria propriamente o acúmulo de conhecimento, mas antes de tudo, saber agir com prudência e sabedoria. Sendo assim, muita informação não significaria necessariamente muita sabedoria, pois um homem sábio agiria com zelo e cautela nos tratos sociais, premeditando comportamentos e regulando ações para realizar manobras de prevenção de modo a agir discretamente.

Aires transcorria em sua obra uma crítica aos valores culturais, sociais e históricos da sociedade da qual ele fez parte. Por consequência, ele pontuava que a vaidade do homem era compreendida como sendo um mal geral, que se mascarava principalmente por meio dos valores da nobreza, ou seja, dos sábios, dos magistrados, dos nobres e dos reis. Ele denunciava os vícios individuais e sociais do homem. Alguns pensadores acreditam que Matias não estava muito conectado aos problemas do seu tempo, por isso não teria sido bem compreendido. Sua extemporaneidade teria lhe deixado um legado de exclusão nos campos do chamado espírito filosófico. Contextualizava em suas reflexões que existem vaidades universais que norteiam as civilizações e outras vaidades individuais que as desagregam. Sua filosofia abordava aspectos do pensamento iluminista com pintadas da arte barroca.

Outro ponto importante, em sua obra, é a questão do tempo, para Matias, a consciência humana se moldava em conformidade com a noção de tempo, por isso o produto do homem no mundo era de ser um prisioneiro do tempo, acorrentado por contradições que se traduziam na ação do tempo em conflito com os paradoxos do mundo, construindo dessa feita uma relação dialética de ilusão da realidade, isto é, uma dependência opositiva e sem fim entre Natureza e História.

 

Filosofia Sapiencial

+ “Tudo são produções da vaidade”.

+ “Só a vaidade é constante em nós”.

+ “Quantas vezes buscar o precipício é o único meio de evitá-lo”.

+ “A natureza de cada coisa também se compõe do seu defeito”

+ "Que coisa é a ciência humana, senão uma humana vaidade?”.

+ “Sendo o termo da vida limitado, não tem limite nossa vaidade”.

+ "Não vivemos contentes, se a nossa vaidade não vive satisfeita".

+ “É mais fácil sustentar uma opinião má do que escolher uma boa”.

+ “As regras não governam aos homens, estes é que governam as regras”.

+ "Com os anos não diminui em nós a vaidade, e se muda, é só de espécie”

+“Tudo no mundo é vão, por isso a vaidade é a que move os nossos passos”

+ “Quem deseja vingar-se ainda ama e quem se mostra ofendido ainda quer”.

+ “Viemos ao mundo para fugirmos de nós, mas nunca podemos fugir de nós”.

+ “São raros os que nas letras buscam a ciência; o que buscam é utilidade e aplauso”.

+ “O aplauso é o ídolo da vaidade, por isso as ações heroicas não se fazem em segredo”.

+ “Quero deixar o mundo antes que o mundo me deixe. Quero antecipar-me já, para não estranhar depois”.

+ "A vaidade nos ensina, que as ações heroicas se fazem imortais por meio das narrações da história".

+ "De todas as paixões, quem mais se esconde, é a vaidade: e se esconde de tal forma, que a si mesma se oculta".

+ “As criaturas são mais perfeitas, à proporção que são capazes de mais amor; e assim o amor não só é o princípio da vida, mas também é um sinal de perfeição”.

+ “Quando nos parece que a nossa vista rompeu a nuvem, e que o nosso discurso rompeu o embaraço, então é que estamos cegos, e então é que erramos mais”

+ “Assim, bem podemos assentar, que a vaidade da Nobreza é uma introdução supersticiosa, a qual nasce da vaidade do luxo, da vaidade da arrogância, e da vaidade da fortuna”.

+ “Nunca mostramos o que somos, senão quando entendemos que ninguém nos vê, e isto porque não exercitamos as virtudes pela excelência delas, mas pela honra do exercício”.

+ “Assim como nos lugares, há também horizontes na idade, e continuamente imos deixando uns, e entrando em outros, e em todos eles a mesma vaidade, que nos cega, nos guia”.

+ “O nosso engenho todo se esforça em por as coisas em uma perspectiva tal, que vistas de um certo modo, fiquem parecendo o que nós queremos, que elas sejam, e não o que elas são.”

+ “Tudo no mundo é vão, por isso a vaidade é a que move os nossos passos: para donde quer que se vá à vaidade nos leva e vamos por vaidade. Mudamos de lugar, mas não mudamos de mundo”.

+ "Assim se vê que a vaidade nos livra de uma dor como por encanto; por isso nos é útil, pois serve de acalmar os nossos males; e se os agrava alguma vez, é como a mão do artista, que faz doer para curar".

+ “Quem nos dera que assim como há arte para saber, a houvesse também para ignorar; e que assim como há estudo, que nos ensina a lembrar, o houvesse também, que nos ensinasse a esquecer".

+ “A cada passo, que damos no discurso da vida, se nos oferece um teatro novo, composto de representações diversas, as quais sucessivamente vão sendo objetos da nossa atenção, e da nossa vaidade”.

+ “Nem sempre fomos suscetíveis das mesmas impressões; nem sempre somos sensíveis ao mesmo sentimento; sempre fomos vaidosos, mas nem sempre domina em nós o mesmo gênero de vaidade".

+ “Se a melancolia nos desterra para a solidão do ermo, não deixa de ir conosco a vaidade; e então somos como uma ave desgraçada que, por mais que fuja do lugar em que recebeu o golpe, sempre leva no peito atravessada a seta”.

+ “Tudo quanto vejo é com olhos desenganados. Talvez por isso vejo as coisas como são e não como se mostram. Porque o desengano tem virtude e força para arrancar da formosura o véu cadente e mentiroso de que o teatro da vida se compõe”.

+ "Tudo nos é dado como por conta: a vida, a fortuna, a desgraça, a alegria e a tristeza; em tudo há um ponto certo e fixo; a vaidade que governa todas as paixões, em umas aumenta a atividade, em outras diminui; e todas recebem o valor que a vaidade lhes dá".

+ “A vaidade nos inspira aquele modo de vingança e parece, com efeito, que o deixar o mundo é desprezá-lo.  Assim  será,  mas  quem  deseja  vingar-se  ainda  ama  e  quem  se  mostra  ofendido  ainda quer [...]. Mudamos de lugar, mas não mudamos de mundo”

+ “A inconstância nos serve de alívio, e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve; e, com efeito, como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros?”.

+ “A inconstância nos serve de alívio, e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre,  por  mais  que  seja  leve;  e, com  efeito,  como  podem  as  nossas  ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros?”

+ “Quem são os homens mais do que a aparência de teatro? A vaidade e a fortuna governam a farsa desta vida. Ninguém escolhe o seu papel, cada um recebe o que lhe dão. Aquele que sai sem fausto, nem cortejo, e que logo no rosto indica que é sujeito à dor, à aflição, à miséria, esse é o que representa o papel de homem. A morte, que está de sentinela, em uma das mãos segura o relógio do tempo. Na outra, a foice fatal. E, com esta, em um só golpe, certeiro e inevitável, dá fim à tragédia, fecha a cortina e desaparece”.

 Obras:

- Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens

- Carta sobre a Fortuna

- Problema de arquitetura civil


Fontes:

AIRES, Matias. Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens. trad. Alceu Amoroso Lima. Ilustrações de Santa Rosa. São Paulo: Livraria Martins Editora S. A., 1955.

BERNARDO, Luiz Manuel. A filosofia de Matias Aires: uma ciência do tempo. Revista de Filosofia: Argumentos. N; 25. Fortaleza: UFC, 2021.

BEZERRA, Alcides. A filosofia na fase colonial. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1935.

BRASIL. Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros. filosofia, pensamento político, sociologia, antropologia. Brasília, Salvador: Senado Federal, CDPB. 1999.

CHAUVIN, Jean Pierre. Matias Aires e a arte de sentenciar. Revista patrimônio e memória. v. 14, n; 2. São Paulo: Unesp, 2018.

COSTA, Rodrigo. História da Filosofia e exclusão de Filosofia: o caso Matias Aires. Revista: Problemata Internacional de Filosofia. V. 06 N; 1. UFPB, 2015.

LIMA, Alceu Amoroso. Introdução em Matias Aires: Reflexões sobre a vaidade dos homens. São Paulo: Edipro, 2011.

MESQUITA, Antônio Pedro. Vanitas vanitatum: As virtudes com vaidade em Matias Aires. Revista Estudos Filosóficos nº 07. São João Del-Rei: UFSJ – DFIME, 2011.

PAIM, Antônio. As Luzes no Brasil: História do Pensamento Filosófico Português.  Vol. O3. Lisboa: Caminho, 2001.

PINTO, Paulo Roberto Margutti. Reflexões sobre a vaidade dos homens: Humes e Matias. Revista de Filosofia: Kriterion. Belo Horizonte: Scielo, 2003.

REAL, Miguel. Matias Aires: As Máscaras da Vaidade. Lisboa: Sete Caminhos, 2008.

SILVA, Paulo José Carvalho da. A dor da alma nas reflexões sobre a vaidade de Matias Aires. Revista Latino americanov.12, n. 2. São Paulo: Fapesp, 2009.

SUASSUNA, Ariano. Reflexão sobre Matias Aires. Revista de Pesquisa Histórica. v. 1, n. 1 Recife: UFPE, 1977.

VALINHAS, Mannuella Luz de Oliveira. A ideia de História em Matias Aires. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2012.

sábado, 23 de abril de 2022

Metrodoro de Quíos

Metrodoro de Quíos - (440 a 370) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo pré-socrático da Grécia antiga que teria inicialmente pertencido à escola atomista, mas acabou posteriormente se tornando um filósofo cético. Foi aluno de Demócrito de Abdera, e embora tenha assimilado alguns dos conhecimentos de seu mestre, ele teria desenvolvido algumas teorias próprias relacionadas ao ceticismo. Suas ideias influenciaram a criação da escola cética, por isso, exerceu grande influência nos pensamentos dos filósofos Epicuro de Samos e Pirro de Élis. O filósofo Cícero define as ideias de Metrodoro como sendo as bases do pensamento cético. Por ter sido influenciado pelo filósofo Demócrito e ter uma veia cética, os pensamentos de Metrodoro foram considerados um importante elo entre o atomismo e o ceticismo. Metrodoro foi aluno de um importante filósofo conhecido como Nessus de Quíos. Além disso, seus conhecimentos também sofreram influência dos pensamentos de Protágoras. Ademais, as biografias descrevem que ele teria ensinado os filósofos Anaxarco de Abdera e o Diógenes de Esmirna.

Alguns de seus pensamentos são considerados avançados para a sua época. Sua filosofia cética trabalhava temas relacionados à estética do saber e também sobre a gnosiologia. Estudou os campos da Lógica e desenvolveu ideias sobre a Teoria do Conhecimento. Segundo constata alguns doxógrafos, ele teria escrito tratados sobre a história dos jônicos e a história das mulheres troianas. Escreveu uma obra intitulada “Sobre a Natureza” da qual foram conservados poucos fragmentos. Existem outros textos descobertos que podem ser de sua autoria, mas que ainda não foram confirmadas por historiógrafos. Seu nome Metrodoro significava “presente de mãe”. Nasceu em 440 a.C na localidade de Quíos e veio a falecer em 370 a.C.

Filosofia Cética

Segundo alguns pesquisadores, o pensamento de Metrodoro seria uma versão mais radical das ideias de Sócrates, pois ele levou ao extremo o conceito socrático do “só sei que nada sei” e elaborou uma visão mais profunda do ceticismo. Desse modo, ele descreveu que o homem não poderia sequer saber se sabe ou não sabe a respeito de algum saber. Nesse sentido, ele nega a possibilidade do homem de poder conhecer a verdade, ou seja, ao homem não seria possível alcançar o verdadeiro conhecimento por meio do “logos” ou da razão. Sua definição cética se ancorava na ideia de que não seria possível afirmar ou negar nada, mas apenas, abster-se do saber. Dessa forma, ele lançou as bases do que viria a ser posteriormente a ideia de suspenção do juízo, ideia essa que foi futuramente sistematizada por outras correntes céticas. Nessa perspectiva, ele complementava que estando o homem incapacitado de compreender plenamente a realidade das coisas, restava-lhe somente a oportunidade de percepção conceitual das abstrações. Afirmava que todas as coisas são para cada pessoa aquilo que lhe parece ser. Buscava uma compreensão da realidade que não poderia ser decifrada de maneira clara, ou seja, a razão seria um instrumento de compreensão do mundo e os sentidos não eram capazes de mostrar as mesmas percepções da razão, dessa maneira, as sensações provocariam experiências enganosas no cérebro, portanto, não seria possível saber sobre nada e as sensações não poderiam ser colocadas como fonte de conhecimento. Defendia que era impossível fundamentar um critério de verdade em relação ao conhecimento. Porém, ele acreditava que o que pudesse ser pensado poderia ser transformado em realidade, pois dentro da noção de infinito haveria infinitas possibilidades.

Filosofia Cosmológica

Em suas teorias sobre o universo, ele dizia que as estrelas eram formadas pelo calor que o Sol exercia sobre a “humidade do ar” de maneira regular e diária. Considerava que o cosmos teria sido gerado através de uma força intelectiva que teria dado início ao movimento e ao tempo. Acreditava na existência de infinitos mundos que eram formados através da infinidade dos átomos e do vazio existente entre eles. Descrevia esses conceitos entre átomo e espaço como sendo o “cheio” e o “vazio”, desse modo, isso também poderia ser compreendido como o cheio sendo o “ser” e o vazio o “não-ser”. Nesse sentido, o cosmos seria eterno e infinito, essas ideias revelavam a “arché” que originava a realidade. O átomo estaria em constante movimento com o vazio existente, então, desse movimento se daria um processo contínuo de integração e desintegração de infinitos mundos, isto é, formação e extinção do cosmos. Essas ideias são influências diretas dos atomistas que lhe antecederam. Seus pensamentos contribuíram para o desenvolvimento da astrobiologia e geraram reflexões a respeito da vida fora da Terra. Sua visão de mundos alternativos partia do princípio de que o vazio absoluto poderia conter realidades paralelas. Era considerado um dos primeiros gregos da antiguidade a falar sobre a pluralidade de mundos habitados.

Obras

 - Sobre a Natureza

- História dos Jônios

- História das Mulheres


Filosofia Sapiencial

- "As sensações enganam".

- “Nem sei se nada sei”.

- “Todas as coisas são o que se pode pensar delas”.

- “Existe também um tipo de prazer relacionado à tristeza”.

- “As sensações não podem nos levar a um conhecimento legítimo”.

- "Todas as coisas são para cada pessoa aquilo que lhe parece ser".

- "Uma única espiga de trigo em um grande campo seria tão estranho quanto um único mundo no espaço infinito".

- "Não sabemos nada, nem mesmo que não sabemos nada. Nós nada sabemos, não, nem mesmo se sabemos ou não".

- “Afirmo que não sabemos se sabemos ou ignoramos uma coisa, ou se algo existe ou não”.

- “Nenhum dentre nós conhece coisa alguma, e não sabemos mesmo se existe um ignorar ou um conhecer, e mais geralmente, se existe alguma coisa ou se nada existe”.

- “Nenhum de nós sabe de nada, nem mesmo isso, se sabemos ou não sabemos; nem sabemos o que são 'não saber' ou 'saber', nem no todo, se algo é ou não é”.

- “Digo que não sabemos se sabemos algo ou se não sabemos nada; digo que não sabemos nem mesmo o que é saber ou não saber; digo que não sabemos absolutamente se há algo ou se não há nada”.

 

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5º edição. São Paulo: Martins, 2007.

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2012.

CAPPELLETTI, Angel. Ceticismo e Metafísica em Metrodoro de Quíos. Biblioteca virtual. Buenos Aires: UNL,1958.

CASSIN, Barbara. O Efeito Sofístico: filosofia, retórica e literatura. São Paulo: PUCC, 2005.

CÍCERO, Marcus Tullios. A academia do Cícero. Trad. Harris Rackham. Attalus. 1933.

EMPÍRICO, Sexto. Contra os Lógicos I. Trad. Rodrigo Pinto de britoRevista Sképsis. N; 09. UFS, 2013.

FIGUEIRA, Markus. O atomismo antigo e o legado de Parmênides. Revista Anais de Filosofia Clássica. Vol. 1 N; 02. Rio de Janeiro: UFRN, 2007.

KIRK, Geoffrey; RAVEN, John; SCHOFIELD, Malcom. Os filósofos pré-socráticos. Trad. Calor Alberto Louro Fonseca. 7ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2ª ed. Brasília: UnB, 2008.

LEYVA, Ignácio Pajón. Categorias e Suposições do ceticismo pirrônico. Tese de Doutorado. Madrid: Universidade complutensa de Madrid, 2011.

SIMPLICÍO. Física.  Trad. Alexandre Costa. Anais de filosofia clássica. Vol. 3. N; 06. Rio de Janeiro: UFRJ. 2009.

SCHWARTZMANN, Félix. História do universo e da consciência. Universidade Arcis. Santiago: LOM, 2000.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Farias Brito

Farias Brito – (1862 a 1917) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Raimundo de Farias Brito foi um filósofo cearense pertencente a corrente de pensamento espiritualista. É considerado um dos primeiros filósofos cearenses e também um dos grandes nomes do pensamento filosófico no Brasil. Brito teve uma vida sofrida e atormentada com vários episódios dramáticos, ainda em sua adolescência, tornou-se um retirante devido à seca que assolou o Ceará. Sua primeira esposa faleceu muito cedo quando eles tinham completados apenas quatro anos que estavam casados. Além da sua infância humilde, ele teve que conviver com a incompreensão e o não reconhecimento devido de sua obra. Era visto como um pensador demasiado ético para o seu tempo, e isso teria gerado várias celeumas em sua vida. Iniciou seus estudos na cidade de Sobral, depois já em Fortaleza teria complementado seus aprendizados no famoso Liceu do Ceará. Posteriormente, concluiu um bacharelado em Direito na cidade de Recife no ano de 1884, tendo como mestre e orientador o filósofo Tobias Barreto, por isso teria sido influenciado pela Escola de Recife. Exerceu os trabalhos de promotor, professor, advogado e filósofo. Também chegou a atuar na política cearense como Secretário de Estado. Laborou em atividades jurídicas por alguns anos no Estado do Pará, regressando novamente ao Ceará e logo após foi para o Rio de Janeiro. Defendeu questões como a abolição da escravatura e o republicanismo no Brasil. No campo teológico, foi inicialmente a favor da criação de uma nova religião naturalista que se formaria a partir do sincretismo entre o cristianismo e o budismo, dessa junção se desenvolveria uma religião moral. Migrou posteriormente para uma visão mais espiritualista de religião. É patrono da cadeira de número 31 da Academia Cearense de Letras. Nasceu em 1862 no município de São Benedito no Ceará e veio a falecer em 1917 de tuberculose na cidade do Rio de Janeiro.

Filosofia Espiritualista

A filosofia do Farias Brito tentava buscar respostas a respeito do que seria a “coisa em si” e também levantava reflexões sobre a fenomenologia. Ensaiou entendimentos entre a teleologia e a teosofia. Descrevia em seus estudos a existência de dois tipos principais de fenômenos: os de caráter objetivamente cinésico, isto é, relacionados ao movimento e os de essência subjetivamente racional, ou seja, ligados a consciência. Nesse sentido, ele fundamentou sua doutrina em conceitos do “pampsiquismo”, isto é, a existência física e suas relações com as vivências psíquicas. Suas ideias tratavam de questões direcionadas à ética, a metafísica e ao humanismo. Seu pensamento filosófico combatia a visão materialista do mundo. Dissertou dogmaticamente em busca de um ideal centralizado na compreensão de Deus e na teoria da finalidade do mundo. Em vista disso, ele buscava encontrar respostas para o seguinte questionamento: para quê existe o mundo? Ademais, chegou a argumentar de maneira contrária as ideias ligadas ao relativismo, ao positivismo e a teoria da evolução.

Na obra “o mundo interior”, Brito estruturou as bases de sua filosofia do espírito. Sua noção de espírito englobava vários sentidos etimológicos que se direcionavam para os conceitos de mente, psique, intelecto, alma, entidade, substância, razão e espectro. Na sua visão, a consciência e o espírito se comunicavam, dessa forma, a filosofia seria uma ponte de elucidação entre ideias obscuras e a clareza do pensamento. O homem não era capaz de encontrar todas as respostas para seus questionamentos, pois essa busca deveria ser infinita e constante, porém era obrigação do homem caminhar em direção dessa eterna busca de compreensão da realidade. Brito utilizava um método chamado de “introspecção” em que buscava na consciência a clarificação entre o entendimento humano e suas relações com a natureza juntamente com a existência cósmica.

Ele pensava em Deus como uma metáfora da luz, pois Deus teria duas formas de se revelar: uma forma mais objetiva de se apresentar através da luz material exterior que observamos de maneira sensitiva, ou seja, a luz propriamente dita, e outra forma que não era muito clara, pois seria uma forma interior que era observada através da consciência. Daí, a metafísica correspondia ao instrumento que o homem teria para compreender a metáfora da luz de Deus em sua consciência. Nesse sentido, sua filosofia transcorria para questões ligadas ao existencialismo, ao naturalismo e ao espiritualismo. Deus, então, seria a fonte da luz física e da luz da consciência. Dessa forma, ele pontuava que: “Há pois a luz, há a natureza e há a consciência. A natureza é Deus representado, a luz é Deus em sua essência e a consciência é Deus percebido”. 

Na sua visão, Deus representava o fundamento da ordem moral na sociedade, pois era o princípio basilar de interpretação da natureza. Nesse contexto, Deus poderia ter sua existência comprovada pela consistência das leis da natureza. Deus, então, seria um ser infinito e eterno que era revelado através das ações permanentes das leis do universo. Dessa maneira, a filosofia servia como uma ferramenta para a busca do sentido moral da vida. Farias Brito entendia que os pensamentos influenciadores de sua época estavam incompletos para construir moralmente o homem, por isso, era necessário contrapor as ideologias políticas e as heresias religiosas. Portanto, a filosofia consistia no meio de modificação desse pensamento para auxiliar a construção da “moral interior” do homem. Sua obra dialoga entre correntes de pensamentos teológicos e os horizontes dos saberes filosóficos.

Filosofia da Educação

Defendia a ideia de que o Estado deveria proporcionar aos indivíduos a universalização do ensino público. Criticou as correntes positivistas que influenciavam a educação brasileira. Advogou a favor da implementação da filosofia nos currículos educacionais. Possuía uma didática serena que lhe proporcionava um ensino sério e paciente para com os alunos. Farias acreditava na existência de duas necessidades básicas na vida do homem que fundamentavam todas as outras: uma seria a necessidade de se alimentar e a outra se referia a necessidade de aprender. A primeira fazia alusão a uma vida externa ligada ao “corpo” e a segunda a uma vida interna ligada ao “espírito”. O corpo sofreria um processo de reconstrução através da nutrição, já o espírito precisaria do trabalho e do estudo como meios de desenvolvimento do conhecimento para o aperfeiçoamento da alma. Nesse contexto, o homem necessitaria se esforçar para adquirir os conhecimentos essenciais para o seu progresso. Brito enfatizava que:

O destino do homem, como o destino do espírito em geral, é aperfeiçoar-se, e dar maior extensão possível às suas energias, e alcançar em todas as manifestações de sua atividade, o mais alto grau de desenvolvimento; numa palavra é dominar; mas é preciso distinguir duas espécies de domínio: o domínio do homem sobre a natureza e o domínio do homem sobre si mesmo. O primeiro alcança-se pelas ciências da matéria, o segundo, pela ciência do espírito. Logo, podemos seguramente conceber, à luz da razão, que a finalidade primordial do homem no mundo é conhecer, e que, por conseguinte, a Finalidade do Mundo que o abriga é existir para o conhecimento. (Brito, 1957).

 

Anedota

Historiadores relatam que Farias Brito teria participado de um concurso no Rio de Janeiro para ocupar o cargo de professor da cadeira de Lógica do colégio Dom Pedro II, mas que mesmo obtendo o primeiro lugar, não teria assumido inicialmente esse cargo, pois a função teria sido ocupada pelo renomado escritor  Euclides da Cunha, que teria obtido o segundo lugar na disputa desse certame. Posteriormente, com a morte trágica de Euclides, Brito teria assumido o cargo e foi nomeado como professor de Lógica do colégio Dom Pedro II. Apesar disso, alguns historiadores descrevem que ele passou apenas três anos no cargo, pois a função teria sido extinta devido a uma reforma na educação que aboliu as disciplinas de Filosofia e Lógica dos currículos educacionais. No entanto, outros pesquisadores acreditam que ele teria ocupado o cargo até o final de sua vida. 

Obras:

A finalidade do mundo: O Mundo como atividade intelectual.

A finalidade do mundo: A Filosofia Moderna.

A finalidade do mundo: Evolução e Relatividade.

Ensaios sobre a Filosofia do Espírito: A verdade como regra das ações

Ensaios sobre a Filosofia do Espírito: A base física do espírito

Ensaios sobre a Filosofia do Espírito: O mundo Interior.

Cantos Modernos

História Sobre Fenícios e Hebreus

Inéditos e Dispersos

 

Filosofia Sapiencial

- “Se não sei o que sou, nem para que vim ao mundo, não posso saber uma norma de conduta”.

- “A verdade não pode ser triste nem má”.

- “Somente pela filosofia que poderão ser resolvidas as dificuldades da civilização contemporânea”.

- “Há pois a luz, há a natureza e há a consciência. A natureza é Deus representado, a luz é Deus em sua essência e a consciência é Deus percebido”.

- “O homem tem o direito e o dever de buscar uma solução para os embates da vida, percebendo que, se veio ao mundo desconhecido de si, é causa disso o estado de ignorância em que se encontra”.                 

- “Não basta indagar se o conhecimento das coisas depende da constituição de nosso espírito, é preciso verificar se o conhecimento do eu e da consciência, por sua vez, não sofre a influência das coisas.”

- “O infinito me fascina e me penetra… Se uma voz me falasse do alto, dando-me a chave de toda a verdade, tudo estaria resolvido… Mas essa voz não me fala. E a treva continua impenetrável, não somente fora, como ainda dentro de mim mesmo”.

- “A Filosofia é a fonte comum onde encontram sua justificação os princípios fundamentais de todas as outras ciências, que nestas condições dependem dela. Ou mais precisamente ainda: a filosofia é o conhecimento universal. É assim que o verdadeiro caráter da filosofia em suas relações com as ciências só pode ser determinado por meio de imagens como estas: A filosofia é uma árvore; as ciências são ramos mais ou menos frondosos que brotam desta árvore, o fruto que ela produz. (...) Penso assim: a ciência é o conhecimento já feito, o conhecimento organizado e verificado; a filosofia é o conhecimento em vias de formação”.

- “Tudo passa, tudo se aniquila. Pois bem: eu quero saber se do que passa e se aniquila, alguma coisa fica e em virtude da qual se possa ter amor ao que já não existe ou deixará de existir; se do que passa e se aniquila alguma coisa fica que não há de passar, nem aniquilar-se: quero estudar esta ciência incomparável de que falava Sócrates: quero ensinar aos que padecem como é que se pode esperar com serenidade o desenlace da morte: quero dirigir aos pequenos e humildes, palavras de conforto: quero levantar contra os tiranos a espada da justiça: quero, em uma palavra, mostrar para todos que antes de tudo e acima de tudo existe a lei moral, e que somente para quem se põe fora desta mesma lei, é que a vida termina”. 

 

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ALVES, Leonardo Marcondes. O mundo interior de Farias Brito. Site: Ensaios e Notas. Internet, publicado em 2017.

ALVES, Tiago Dos Santos. Brasil e o Mundo: Conquista e base para a evolução do pensamento de Farias Brito. Revista Acadêmica Multidisciplinar de Iniciação Científica. Vol. 1, n; 1. Fortaleza: Logos e Culturas, 2021.

ATHAYDE, Tristão. A Estética de Farias Brito. Rio de Janeiro: Estudos, 1927.

BRITO, Raimundo Farias. A Finalidade do Mundo. 2ª. ed. Vol.1. Rio de Janeiro: MEC, 1957.

_________________A base física do Espírito. Vol. 53 Brasília: Edições do Senado Federal, 2006.

_________________O mundo interior: Ensaio sobre os dados gerais da Filosofia do Espírito. Uberlândia: Edufu, 2014.

FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1965.

JAIME. Jorge. História da Filosofia no Brasil. Vol. 1. Petrópolis: Vozes, 1997.

MEDEIROS, Alexandro Melo. Farias Brito. Site: Sabedoria Política - um site dedicado ao estudo da política. Internet, publicado em 2020.

PAIM, Antônio. A Filosofia da Escola do Recife. Biblioteca do pensamento brasileiro. São Paulo: Editora Convívio, 1981.

PEIXOTO, Matos. Faria Brito: O filósofo. Revista da academia cearense de letras. Fortaleza: ACL, 2021.

QUADROS, Elton Moreira. Existencialismo e Fenomenologia em Farias Brito sob a perspectiva de Fred G. Sturm. Revista: Espaço Acadêmico. N: 108. Maringá: EDUEM, 2010.

SANTOS, Gilfranco Lucena. Raimundo Farias Brito e sua confrontação com Berson: Confluências e Discrepâncias. Revista Ideação, N: 37, João Pessoa: UFPB, 2018.

SERRANO, Jonathas. Farias Brito: O homem e a Obra. Biblioteca Pedagogia Brasileira. Vol. 177. São Paulo-Rio de Janeiro-Recife-Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1939.

SILVA, Francisco José. Farias Brito e a Crise da Modernidade. Revista Perspectivas. Vol. 6 N; 01. UFT, 2021.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Antônio Vieira

Antônio Vieira - (1608 a 1697) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Padre Antônio Vieira foi um filósofo teologista luso-brasileiro do período colonial que pertenceu à ordem religiosa da companhia de Jesus. Realizou um trabalho missionário no Brasil e ficou conhecido pelos índios como o “Paiaçu” (Grande pai). Escreveu diversas obras em formato de sermões, cartas, textos proféticos, textos políticos, textos poéticos e teatro. Suas obras possuem destaque no estudo da arte barroca. Iniciou seus estudos no Brasil no colégio dos jesuítas de Salvador, na área de humanidades. Destacou-se nas artes, escrita e oratória. Lutou a favor dos povos indígenas do Brasil e também a favor dos judeus perseguidos em Portugal. Era contra a escravidão dos índios, pois defendia que a colonização portuguesa teria como missão a catequização dos índios para a fé católica. Mudou-se para o Brasil, em 1614 com apenas seis anos de idade, quando jovem chegou a trabalhar inicialmente como escrivão e posteriormente como professor. Estudou ás áreas de Filosofia, Teologia, Línguas, Dialética e Retórica. Foi considerado pelo poeta Fernando Pessoa como sendo o imperador da língua portuguesa no Brasil. O rei de Portugal Dom João IV se referia a sua admiração pelo padre com a expressão: “lábia de vieira”, esta afeição o levou a ser nomeado pelo rei para o cargo de “Pregador Régio” e também “Visitador-Geral”. Nasceu na cidade de Lisboa, em Portugal, no ano de 1608 e faleceu na Bahia, em 1697 com 89 anos.

Filosofia Política

Seguiu carreira diplomática em Portugal e posteriormente regressou ao Brasil para realizar missões em defesa dos índios. Exerceu papel importante como um hábil articulador político entre a metrópole e a colônia. Utilizou de maneira política a arte barroca como instrumento de catequização dos índios e como meio de influência religiosa entre: os negros, portugueses, judeus e demais atores sociais desse período. Nesse ínterim, passou a ser mal compreendido por determinados grupos. No Brasil também chegou a ser perseguido por senhores que eram proprietários dos engenhos e por donos de escravos que não aceitavam sua luta contra a escravidão, dessa feita, foi expulso do Maranhão, devido suas duras críticas ao sistema. Em Portugal, combateu o autoritarismo da inquisição, por isso chegou a ser preso por um curto período, mas obteve o perdão e foi anistiado.

Seus textos trabalhavam reflexões sociais e políticas que convidavam os atores sociais a participarem de debates políticos sobre os temas. Utilizava o argumento de que o pregador deveria usar o sermão não apenas para pregar aos ouvidos dos interlocutores, mas também deveriam pregar aos olhos deles, essa ideia tinha como objetivo procurar em “si mesmo” o exemplo que pudesse servir de referencial na vida dos ouvintes, isto é, um exemplo moral, material e espiritual. Tinha como inspiração para lutar contra a escravidão, um prógono missionário que ele adimirava, o conhecido padre Manuel de Nóbrega. Chegou a dissertar contra a invasão holandesa em Pernambuco e a favor da independência de Portugal em relação à Espanha. Sua veia patriota foi reconhecida pelos monarcas portugueses que lhe retribuíram com cargos de interventor e intermediador político.

Filosofia Literária

Foi definido por historiadores como sendo um “criticista colonial”, pois teria escrito aproximadamente 200 (duzentos) sermões contendo fortes críticas contra as desigualdades sociais e as injustiças de seu tempo. Esses textos eram escritos em prosa abrangendo um sentido moral e religioso. Sua obra é considerada de grande dicção, pois diligenciava no sentido de construir textos ricos tanto em vocabulário, como também em uma linguagem ornada. Além da influência barroca em sua obra, também comportou prestígios de elementos camonianos na sua compilação. Utilizava-se de várias figuras de linguagem que enriqueciam sua escrita como a antítese, a metáfora, o silogismo e a perífrase.

Misturava elementos complexos e simples que enalteciam sua argumentação de maneira lógica. Seu objetivo final era repassar a sua mensagem de maneira clara, mas sempre mantendo o equilíbrio entre a linguagem aprimorada e a compreensível. A estrutura dos sermões era dividida em três partes: exórdio, argumento e peroração, isto é, introdução, desenvolvimento e conclusão. Foi adepto de uma forma de escrever chamada de conceptismo em que o jogo de ideias era pontuado primeiramente fazendo referências a uma coisa, mas ao final do raciocínio dizia outra, com uma fundamentação bastante assertiva, isso consentia em responder antecipadamente as possíveis problematizações ou dúvidas dos leitores e críticos. Sua oratória se produzia de maneira imanente entre a retórica, a política e a teologia.

Filosofia teológica

Atuou como representante dos Jesuítas no Brasil exercendo o cargo de sacerdote. Após seu noviciado ele teria feito votos de obediência, pobreza e castidade. Praticou o ofício de missionário católico chegando a defender em seus sermões a implantação do império de Cristo na Terra, e que também ficou conhecido como o “quinto império no mundo”. Defendia a idealização do catolicismo universal, pois acreditava que um dia no futuro iria surgir uma nova religião que unificaria todas as religiões, povos e culturas. De acordo com ele, existiria um propósito divino para que Portugal seguisse por uma rota de paz com outros povos por um longo período de tempo até a chegada do “armagedon”. Segundo seu entendimento, a ideia de “nova terra” descrita nos textos sagrados estava relacionada com a descoberta das novas regiões da época chamada de “Novo Mundo”, desse modo, a expansão marítima seria um cumprimento das profecias. Combateu a ideologia protestante com a finalidade de transformar Portugal no império da fé. 

 Filosofia Sapiencial

+ "Instruir é construir"

+ “Os olhos são as frestas do coração.”

+ “Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência.”

+ “A maior gula da natureza racional é o desejo de saber.”

+ “Nenhum homem é tão sábio que não esteja sujeito ao erro”.

+ “A boa educação é moeda de ouro. Em toda a parte tem valor.”

+ “Todas as guerras deste mundo se fazem para conseguir a paz”

+ “A mais doce de todas as companheiras da alma é a esperança”.

+ “Quem vê o corpo, vê um animal; quem vê a alma, vê ao homem”

+  “Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar.”

+ “Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.”

+ "O ódio e o Amor são os dois mais poderosos afetos da vontade humana."

+ “Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba”

+ “No juízo dos males sempre conjeturou melhor quem presumiu os maiores.”

+ “De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo”.

+ “Para falar ao vento, bastam palavras; para falar no coração, são necessárias obras”.

+ “Há pessoas semelhantes à vela que se consomem para alumiar o caminho alheio”.

+ “A razão por que não achamos o descanso é porque procuramos onde ele não está”.

+ “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”

 + “Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro em si, e ver-se a si mesmo?”.

+ “O melhor retrato de cada um é aquilo que se escreve. O corpo retrata-se com o pincel, a alma, com a pena”.

+ “Humildade essencialmente é o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria”.

+ “Toda a desunião quanto há no mundo, e muito mais nas Cortes, ou nasce do vício vil da ambição, ou do vício vil da inveja, ou do Vício vil da vingança”.

+ “Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos”.

+ “Não basta que as coisas que se dizem sejam grandes, se quem as diz não é grande. Por isso os ditos que alegamos se chamam autoridade, por que o autor é o que lhe dá o crédito e lhe concilia o respeito”.

+ “No juízo de Deus basta ser bom no último instante da vida para ser eternamente bom: No juízo dos homens basta ser mau em qualquer tempo da vida para ser eternamente mau. Se fostes bom, e sois mau, julgam-vos mal pelo que sois; se fostes mau, e sois bom, julgam-vos mau pelo que fostes; e se sois e fostes sempre bom, julgam-vos mal pelo que podeis vir a ser”.

+ “O pó que foi nosso princípio, esse mesmo e não outro é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele: o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz; e como esta roda que anda e desanda juntamente, sempre nos vai moendo, sempre somos pó”.

Curiosidades

Conforme o próprio Vieira relatou, seu ótimo desempenho nos estudos teria acontecido após uma espécie de “estalo” cerebral em que de forma inesperada tudo passou a ficar mais compreensível, ele definia isso como um fenômeno de iluminação ao qual teria lhe proporcionado assimilar melhor os conhecimentos. Esse fato milagroso passou a ser conhecido em casos análogos como o “estalo de vieira”.

Obras:

- Sermões (200 aprox.)

- Cartas (700 aprox.)

- Profecias (História do Futuro, Esperanças de Portugal e Chave dos Profetas).

Fontes:

AZEVEDO, Lúcio de. História de António Vieira. Lisboa: Livraria Clássica, 1931.

BARROS, Maria Betânia Arantes. Relato e realidade nas cartas brasileiras do Padre Antônio Vieira: uma visão cognitivista e cultural. Dissertação de Mestrado. Araraquara: UNESP, 2013.

BOSI, Alfredo. A História Concisa da Literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 1976.

BULCÃO, Clóvis. Padre Antônio Vieira: um esboço biográfico. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

CARLÔTO, Adelena Leitão Silva. Uma pesquisa bibliográfica sobre figuras de linguagem no Sermão da Sexagésima, do padre Antônio Vieira. Revista Educação Pública. Vol.20, n; 36. Rio De Janeiro: Capes, 2020.

FERNANDES, Márcio Luiz. O Padre Antônio Vieira e o método da pregação. Revista Pistis Prax. vol. 2, n. 1. Curitiba: Creative Commons, 2010.

JÚNIOR, Valdemar Valente. Padre Antônio Vieira: O político e o Profeta entre a Cruz e a Espada. Revista É – Scrita. vol.11. Nilópolis: UNIABEU, 2020.

PAIVA, José Pedro. Padre Antônio Vieira. bibliografia, Lisboa: Biblioteca Nacional,  1999.

SANTOS, Estela Pereira. Padre Antônio Vieira. Site: Todo Estudo. Maringá: Leia mulheres, 2021.

SARAIVA, António José. O discurso engenhoso: estudos sobre Vieira e outros autores barrocos. São Paulo: Perspectiva, 1980.

VIEIRA, Padre Antônio. Sermões. Org. Homero Vizeu Araújo. Porto Alegre: L&PM, 2012.