sábado, 2 de outubro de 2021

Zaratustra da Pérsia

Zaratustra da Pérsia - (628 a 551) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo teologista nascido na Pérsia antiga em meados do século VII a.C. Atuou como profeta, astrólogo e legislador. É considerado o fundador do Zoroastrismo que também é conhecido como Mazdeísmo. Escreveu uma obra em formato de hinos chamada “Avestá”. É tido por muitos como sendo o primeiro filósofo persa da antiguidade. A data de sua existência não é precisa, por isso, para fins didáticos, alguns historiadores consideram seu nascimento por volta do século VII a.C. Especula-se que ele tenha nascido na região de Báctria. O seu nome Zoroastro tem um significado etimológico próximo ao conceito de “estrela pura”. Já o nome Zaratustra significaria “homem dos velhos camelos”. Outra definição aponta para a ideia de que ele teria recebido primeiramente o nome de Zoroastro que significaria “o preparador do caminho” e posteriormente após suas peregrinações ele teria se tornado Zaratustra “o conservador do caminho”. O nome Zoroastro pode ter sido também uma tradução criada pelos gregos para a palavra Zaratustra. Alguns historiadores afirmam que o “mazdeísmo” ou “Masdeísmo” pode ser considerado um sistema filosófico de culto a sabedoria. Sua religião era considerada monoteísta. A obra de Zoroastro exerceu grande influência nas ideias dos filósofos existencialistas. Ele foi assassinado aos 77 anos por fundamentalistas religiosos que teriam organizado uma espécie de guerra santa.

Filosofia Mitológica

A historiografia descreve alguns mitos a seu respeito, apontando fatos simbólicos ou crenças fantásticas sobre sua existência. Segundo a lenda, ele teria nascido da junção de uma planta com um anjo. Relata-se também que após sua missão na Terra ele teria subido ao Céu como um relâmpago, ficando ao lado de Aúra-Mazda. Segundo relatos antigos, durante o seu nascimento, Zaratustra não teria chorado, ao contrário, teria sorrido e isto teria sido visto como uma espécie de mau presságio pelos sacerdotes. Posteriormente ele foi colocado em uma fogueira, mas não teria sofrido nada. A partir daí se iniciou uma série de tentativas de matá-lo, pois os sacerdotes acreditavam que ele possuía demônios e que um dia ele iria destruir as religiões politeístas. A cosmologia inaugurada por ele influenciou boa parte dos pensamentos maniqueístas. Ele pregava conceitos de dualidades entre o bem e o mal, a ordem e o caos, o certo e o errado, a verdade e a mentira, com isso, sua visão se estendia para outras ideias de duplicidade.

Filosofia Teológica

De acordo com historiadores, ele teria recebido uma revelação divina aos trintas anos, depois disso, passou a viver recluso em cavernas no alto de uma montanha, tendo também caminhado dez anos pelo deserto. Ao longo dessa peregrinação ele teria vivido sem comer nenhum tipo de alimento de origem animal. Algumas historiografias relatam que demônios teriam lhe tentado durante sua jornada pelo deserto e que ele teve parte do seu corpo perfurado por uma espada. Conta-se também que seu corpo foi aberto e dentro dele teria sido derramado chumbo quente. Esse tempo de solitude teria lhe servido como preparação para a sua formação espiritual, ao qual objetivava conduzir o povo persa para o caminho da verdade. Na sua revelação um espírito de luz chamado de “boa mente” teria lhe anunciado algumas verdades que deveriam ser ensinadas ao seu povo. A disseminação de sua religião teria se dado a partir da cura realizada no cavalo de um príncipe persa, daí o rei teria se sensibilizado com o poder e conhecimento de Zaratustra, a partir de então, o rei o ajudou a oficializar sua doutrina.

Filosofia do Masdeísmo

A expressão Mazdeísmo vem do nome dado ao deus do bem e da luz chamado de Aúra-Mazda (senhor sábio). No zoroastrismo esse deus teria criado todo o universo e ele lutava contra as forças do mal que eram controladas pelo senhor da morte e da escuridão conhecido por Arimã. Segundo Zaratustra, seu deus seria eterno, único e puro, sendo um atributo da verdade. Suas crenças trabalhavam com a ideia de que as forças naturais se relacionavam com as forças divinas. Desse modo, ele pontuava que Aura-Mazda era acompanhado de seis espíritos: verdade, justiça, ordem, docilidade, vitalidade e imortalidade. Havia alguns símbolos que representavam certos preceitos da crença como o “faravahar” que significava a alma antes do nascimento e após a morte. Ele também acreditava na representação do Céu como sendo o paraíso e do inferno como local de punição. Ensinava que a luz seria o principal símbolo de Mazda, por isso, ele cultuava essa entidade em templos de fogo que eram construídos e acesos no alto de montanhas. Muitos conceitos de sua doutrina possuem semelhanças com as ideias do judaísmo e do cristianismo, como por exemplo, a crença na imortalidade da alma, o surgimento de um messias e a ideia de juízo final.

Filosofia do Direito

Na sua visão,  a justiça deveria ser o principal instrumento de combate da verdade contra a mentira. Os profetas dessa época além de sábios eram também grandes doutrinadores morais, desse modo, Zoroastro estabeleceu algumas leis que serviram de base para a instrução do povo persa. Ele proibiu que os mortos fossem queimados com o intuito de criar no povo a ideia de purificação do fogo, pois ele acreditava que o fogo usado nos cadáveres contaminaria o ar. Criou as torres fúnebres também chamadas de “torres do silêncio” onde os mortos eram deixados no alto para serem devorados por abutres, pois os corpos não poderiam ser enterrados para não contaminarem a terra. Zaratustra também teria adaptado as ideias de sua doutrina com a cultura popular de sua região. Estabeleceu alguns mandamentos que serviram de base para a regulação do convívio social, como falar a verdade, cumprir com o prometido e não contrair dívidas. Sua doutrina combateu o politeísmo e o sacrifício de animais, além disso, ele condenava a prática da magia. Além de mentor do Imperador Dário I, os seus ensinamentos teriam influenciado outros grandes estadistas. Os líderes persas centralizavam o poder político com ajuda dessa doutrina religiosa, dessa forma, o Mazdeísmo foi utilizado pelos imperadores como fonte de controle político e social.

Filosofia Humanista

Desde cedo Zaratustra já tinha vocação para as reflexões filosóficas e questões humanas. Vivia questionando a origem dos céus, das estrelas e dos homens. Ainda jovem Zaratustra já praticava ações de caridade sendo bem visto devido suas obras humanitárias de ajuda aos pobres, enfermos, idosos e animais. Ensinava que os homens deveriam ser bons e generosos, pois um dia eles seriam recompensados. Seus preceitos religiosos tinham como base três princípios que eram: boas ações, boas palavras e bons pensamentos. Pregava que o homem deveria tratar o outro da mesma forma que desejava ser tratado. Relacionava o conceito de pureza com a ideia de criação, nesse sentido, ele defendia a preservação da natureza como forma de respeito à concepção da gênese. Os elementos da natureza como a terra e o fogo eram vistos como algo sagrado, por isso deveriam ser respeitados e cuidados para não serem contaminados.

O Zaratustra de Nietzsche

O filósofo Nietzsche escreveu uma obra famosa ao qual deu o título de "Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém". Alguns pensadores definem essa obra como sendo uma crítica aos valores morais, metafísicos e religiosos que foram construídos no mundo ocidental. Nesta obra ele descreve através de pensamentos poéticos e filosóficos como o homem deve superar alguns valores morais. O livro também convida o leitor a realizar reflexões sobre o autoconhecimento e a ideia de autossuperação. Nesse sentido, o autor procura apontar para o leitor alguns horizontes da eterna busca de “si” e da liberdade. O personagem profeta adverte que não estar interessado nem em discípulos e nem em seguidores, mas deseja somente aliados.

Comentários de Filósofos

"A única criança que riu ao nascer". (Nietzsche). 

"Aquele que compreendeu a História em toda a sua completude". (Nietzsche). 

 

Filosofia Sapiencial

- “Seja bom, seja gentil, seja humano e caridoso, ame seus semelhantes, conforte os aflitos; perdoe aqueles que o feriram .”

- “Com palavras agradáveis ​​e um pouco de bondade, você pode arrastar um elefante com um cabelo".

- “Amor-próprio: É um balão cheio de ar que, furado, despeja tempestades”.

- "Age como gostarias que agissem contigo".

- “Na dúvida, abstenha-se.”

- "A devoção, como o fogo, eleva-se acima."

- "A capacidade de um homem é o conhecimento que emana da luz divina."

- "Aquele que diz uma palavra injusta pode enganar o seu semelhante, mas não enganará a Deus."

- “O que vale mais num trabalho é a dedicação do trabalhador”.

- “O casamento é uma ponte que conduz ao céu.”

- "Quantos homens sabem observar? E entre os poucos que o sabem, quantos observam a si próprios? Cada um é para si próprio o mais distante de si mesmo".

 -“Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser.”

 

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins, 2007.

ADRIANI, Maurilio. História das religiões. Lisboa: Edições 70, 1988.

BLAKBURN, Simon. The Oxford Dictionary of Philosophy.  2ª ed. Londres: OUP, 2005.

BOYCE, Mary. A História do Zoroastrismo. Leiden: Brill, 1975.

DIELS, Hermann & KRANZ, Walther. Os Fragmentos dos pré-socráticos. Berlin: 1906.

ESTRABÃO. Geografia. Livro XV, Capítulo 3 – 15.

HERÓDOTO. Histórias. Trad. Pierre Henri Larcher. Brasília: EbooksBrasil, 2006.

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Trad. Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2001.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2ª ed. Brasília. UnB. 2008.

MOURREAU, Jean-Jacques. A Pérsia dos Grandes Reis e de Zoroastro. Rio de Janeiro: Editons Ferni, 1978.

NASCIMENTO, Peterson. Zoroastro o profeta proibido. Vitória: copyright, 2021.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou ZaratustraUm livro para todos e para ninguém. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2011.

PIRART, Eric. Les Adorables de Zoroastre: Textes avestiques traduits et presentes. Paris: Max Milo, 2010.

PLUTARCO. Mistérios de Ísis e Osíris. Espanha: Obelisco, 2006.

SENRA, Flávio. Nietzsche e a religião de Zaratustra: O persa. Revista interações. Uberlândia: Cultura e Comunidade, 2010.

SUDA. Enciclopédia online. Zoroastro. Internet: Acesso, 2022.

ZARATUSTRA. Gathas: Os cânticos sagrados. Trad. Helton Cenci. Nova Hamburgo: copyright, 2015.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Aspásia de Mileto

Aspásia de Mileto – (470 a 410) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi uma filósofa sofista da Grécia antiga que viveu no período clássico. Nasceu na cidade de Mileto que ficava situada na região da Ásia menor.  Aspásia lecionou Retórica e exerceu papel importante como mentora do estadista Péricles. Atuou de maneira influente na educação política e cultural de Atenas. Sabe-se que ela era filha de um homem muito rico conhecido por Axíoco. Acredita-se que ela teria saído de Mileto para Atenas com a idade aproximada entre vinte a trinta anos e de lá teria levado uma bagagem de aprendizado cultural para Atenas. Supõe-se que ela também teria parentesco com um homem respeitado chamado Alcebíades e que este pode ter influenciado os primeiros contatos dela com a aristocracia ateniense. O significado do nome Aspásia seria uma espécie de saudação como “bem-vinda” ou “bela recepção”. Ela auxiliou Sócrates em partes da sua teoria sobre o método socrático, relatos afirmam que ele recomendava aos seus discípulos que visitassem a escola de Aspásia para que pudessem adquirir conhecimentos com ela. Platão em sua obra Menêxeno informa que ela teria ensinado retórica e oratória para Sócrates. Especula-se que Sócrates tenha tido um romance com ela, mas essas informações ainda não estão bem historiografadas. Também exerceu colaboração no ensino do filósofo Anaxágoras e de outros sofistas. Muitos filósofos antigos escreveram obras com o título de Aspásia, desse modo, não se sabe ao certo se estas eram obras em sua homenagem ou para divulgar seus conhecimentos. A enciclopédia “Suda” menciona as habilidades dela em relação ao mundo das palavras e da arte argumentativa.

Filosofia da Educação

Estudou os campos da Filosofia, Retórica, Oratória e Medicina. Lecionou as disciplinas de Artes, Retórica, Oratória e Administração Doméstica. Ela teria transformado o salão principal do palácio de Péricles em um grande centro cultural. Além de participar do círculo político, ela promovia reuniões literárias onde eram debatidas questões sobre Filosofia, Política, Arte, Literatura, Cultura e Educação. Também criou uma escola para mulheres na cidade de Atenas.  Sua escola teria ficado conhecida como “Academia de eloquência e artes amadoras”. Na sua escola ela ensinava as mulheres a como pensarem e como expressarem seus conhecimentos, pois isso permitiria para essas mulheres uma educação voltada ao gerenciamento do lar e também um melhor prestígio junto ao marido.

Segundo estudiosos, ela ministrava instruções medicinais relacionados à gravidez e ao estado pós-parto das mulheres. Colaborou na pesquisa e na prevenção da gravidez de risco, inclusive desenvolvendo remédios. Teve forte atuação no campo cirúrgico da obstetrícia e da ginecologia. Esse papel exercido por ela é visto como um forte símbolo de apoio à luta da emancipação da mulher. Ela incentivava as mulheres de Atenas a se libertarem do complexo de inferioridade que era imposto pela classe conservadora da época. Ensinava as mulheres a desenvolverem suas potencialidades físicas, sexuais e intelectuais. Ela teria desenvolvido um método de argumentação chamado de “indução” em que descreve técnicas de utilização de um argumento duvidoso que concorde com outro argumento semelhante ao de seu oponente. Para Aspásia o casal deveria ser o melhor cônjuge um para o outro ao invés de desejar um parceiro ideal.

Filosofia Política

As estrangeiras de Atenas eram denominadas de “metecas”, elas geralmente exerciam os ofícios de artesãs, tecelãs e cortesãs. Aspásia era considerada uma “hetera” (mulher que na Grécia antiga trabalhava como cortesã de maneira independente). Essas mulheres aconselhavam os homens da classe política e possuíam um status social de maior elevação em relação às outras mulheres. Elas se diferenciavam das prostitutas, das escravas e das esposas, pois eram mulheres admiradas pela cultura que tinham e pela inteligência que possuíam. Sua condição de “hetera” e seus saberes teria lhe proporcionado viver como os sofistas, ou seja, da venda de seu conhecimento. Sua posição social era vista com relativa independência, pois contribuía com os impostos igualmente como os cidadãos do sexo masculino.

Devido sua condição de mulher e de estrangeira, existiu um forte debate sobre o impacto que sua atuação causava na Atenas clássica, isso teria lhe rendido falsas acusações e discriminações. Ela teria sido acusada pelo crime de “impiedade” (ofensas aos deuses), por um poeta cômico chamado de Hermipo. Relata-se que Péricles conseguiu intervir em sua absolvição com um discurso emocionante e isso teria sensibilizado os jurados.  O fato é que muitos filósofos e políticos de Atenas visitavam sua escola, por isso as esposas dessas personalidades ficavam enciumadas e acusavam a escola de ser um bordel, pois algumas mulheres acabavam tendo casos com os visitantes. O próprio Péricles se apaixonou por Aspásia e acabou deixando sua esposa para ir viver com ela, isso gerou muita polêmica na cidade e Aspásia passou a sofrer discriminações e perseguições na localidade. Após a morte de Péricles, Aspásia teria se casado novamente com um comerciante chamado Lísicles e com o passar do tempo, teria transformado ele em um político influente de Atenas. Conta-se que ele era um homem sem instrução, porém com pouco tempo, Aspásia teria lhe dado uma boa formação e ele teria se tornado um grande orador muito eloquente em Atenas.

Aristófanes, filósofo comediante, tecia críticas irônicas afirmando que os discursos de Péricles eram escritos por Aspásia e que este era incapaz de escrevê-los sozinho. Aspásia é tida como uma figura paradigmática do ponto de vista feminino e considerada também como enigmática devido aos mistérios sobre a sua vida, pois o que intriga os pesquisadores, é o fato de que ela era mulher e estrangeira, duas condições que dificultavam a sua atuação política em Atenas, isso é observado por estudiosos como um fato muito curioso para a época. Porém, mesmo diante dessas adversidades, ela conseguiu influenciar as principais lideranças políticas de seu tempo. Platão teceu duras críticas a ela e teria lhe acusado de ter se aproveitado da filosofia para influenciar a política de Atenas e com isso persuadir os governantes. Também foi acusada por críticos de ter insuflado os estadistas e aristocratas a apoiarem Atenas a lutar na guerra de Samos e na guerra do Peloponeso.

Filosofia Moral

Ela argumentava que o homem que dedicava sua vida para cuidar da família suportava melhor os infortúnios do destino. Ensinava aos homens que na covardia não se vive, apenas se padece, desse modo, ela enaltecia a ideia de nobreza e de honra entre os homens. Acreditava em uma irmandade fraterna em que a Terra seria a pátria-mãe de todos, por isso, chamava essa pátria de “mátria”, isto é, casa em que todos eram irmãos, ou também, “fratria” de onde deriva o termo fraterno. Desse modo, ela defendia o amor fraterno entre os irmãos, até mesmo entre os estrangeiros. Também defendia o amor ao solo em que se vive ou a cidade que lhe acolhe. O amor defendido por ela seria o amor materno relacionado à mãe-terra, por isso a expressão “mátria” traduziria a ideia de fraternidade defendida por ela. Adotava esse conceito ético de união entre todos como forma de reconhecimento das virtudes de coragem e honra dos guerreiros mortos nas guerras em defesa da pátria.

Destacava um princípio formulador da inteligência e da justiça que era definida por “nous”, esse princípio seria o que diferenciava os homens de coragem dos animais selvagens da natureza, daí os homens de valor de uma cidade seriam guiados pelo “nous”, ou seja, uma espécie de “inteligência-justiça” traduzida também por “no que a linguagem se mostra”. Nesse sentido, o indivíduo que teria amor a “mátria” saberia conviver com o outro, sendo fraterno e solidário, sendo inteligente e justo, por isso morreria pelo outro, por fim veria a morte como glória. Esse conceito de ligação entre amor, Terra, mãe, natureza, irmandade, inteligência e justiça, também se une a ideia de divindade para compreensão do conceito de “nous”.

Obras:

Discurso Fúnebre de Péricles

Aspásia – Obra de Ésquines Socrático

Comentários de filósofos

"Que arte ou poder de encantamento tão grande esta mulher tinha, que lhe permitia cativar, como fez com os maiores estadistas, e brindar os filósofos com a oportunidade de falar tanto dela em termos tão exaltados." (Plutarco).


Filosofia Sapiencial

- “Todo conhecimento dissociado da justiça e das demais virtudes é apenas astúcia, jamais sabedoria”.

- “É melhor morrer em glória do que viver na covardia”

- “A virtude deve ser imitável, e não simplesmente ensinável”.

- “O passado é verdadeiro o futuro é escuro”.

- “Se ambos querem ter o melhor marido e a melhor esposa, ambos devem procurar ser o melhor marido e a melhor esposa, respectivamente”.

 

Fontes:

ARISTÓFANES. Os Acarnânios. Biblioteca Clássica Gredos. Madrid: Editorial Gredos, 1995.

BAIRD, Forreste & KAUFMAN, Walter. Filosofia antiga: Período clássico. USA: Prentice Hall, 2008.

BERQUÓ, Thirzá. Aspásia de mileto: mulher e filosofia na Atenas Clássica. Org. Juliana Pacheco, In: Filósofas a presença das mulheres na filosofia. Porto Alegre: Editora Fi, 2018.

CALDEW. Taylor. A glória que passou. Trad. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Recorde, 1974.

DUESO, José Solana. Aspásia de Mileto: testemunhos e discursos. Barcelona: Anthropos. 1994.

HENRY, Madeleine. Prisioneira da História: Biografia de Aspásia de Mileto. Reino unido: Oxford University Press, 1995.

LEVI, Mario. Péricles: um homem, uma cultura. Trad. Antônio Agenor Briquet de Lemos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1991.

MÉNAGE, Gilles. História das mulheres filósofas. Barcelona: Herder Editorial. 2012.

MENEZES, Fabíola & XIMENES, Raíssa. Aspásia: O amor como armadura de Atenas. Rio de Janeiro: Revista Páginas de filosofia, vol. 9. n. 2, 2020.

O’GRADY, Patrícia. Os Sofistas: Uma Introdução. Nova Iorque: Bristol Classical Press, Bloomsbury . 2008.

POMEROY, Sarah. Goddesses, Whores, Wives, and Slaves: Women in Classical Antiquity. New York: Schocken Books, 1995.

PSEUDO, Plutarco. Vidas Paralelas: Péricles e Fábio Máximo. Trad. Ana Maria Guedes Ferreira & Ália Rosa conceição Rodrigues. Coimbra: IUC, 2013.

SANCHEZ Castro Carolina. Aspásia de Mileto. Santa Rosa: Scielo, Circe classic, vol. 19. N. 2, dez, 2015.

SIQUEIRA, Ana Carla de Abreu. Subsídios para a visibilidade de mulheres na História da Filosofia. FortalezaRevista Lampejo. vol. 7 nº 2. 2018.

SUDA. Enciclopédia online. Aspásia. Internet: Acesso, 2021.

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Trad. Mário da Gama. São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.

WAITHE, Mary Ellen. The history of women philosophers. Vol. 1. Boston: Martinus Nijhoff, 1987.

XENOFONTE. Econômico. São Paulo: Martins Fontes, 1999.


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Isócrates de Atenas

Isócrates de Atenas – (436 a 338) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Isócrates foi um filósofo grego antigo pertencente à escola do movimento sofista, é tido também como um dos primeiros filósofos da educação e considerado um dos pais da oratória. Escreveu alguns exemplos de discursos escritos que eram utilizados pelos seus discípulos como modelos prontos para serem seguidos. Ele foi um excelente orador e retórico ateniense, considerado pelo filósofo Cícero como o pai da eloquência. Fundou sua escola de pensamento por volta do ano 392 a.C tendo atuado também na profissão de logógrafo. Chegou a implantar a disciplina de retórica no currículo escolar da Atenas antiga. Figura-se presente na lista tradicional dos proeminentes “Dez oradores áticos”. Teve como seu mestre o sofista Górgias. Seu pai conhecido por Teodoro foi um grande comerciante de flautas que teria lhe deixado uma boa herança. Nasceu por volta do ano 436 a.C e veio a falecer aproximadamente em 338 a.C. Relata-se que a causa de sua morte teria sido por inanição. Possuía relativa timidez e uma voz mansa, por isso dava mais atenção aos discursos escritos com destaque para a elegância literária.

Escreveu uma obra chamada “Contra os Sofistas” onde criticava a falta de objetivo dos discursos feitos por alguns sofistas e também destacava a importância que a filosofia deveria ter na educação do homem grego. Entre os principais filósofos que ele teria divergido estão: Platão, Alcídamas e Demosténes. Possuía grande habilidade na produção de discursos epidícticos e apologéticos. É considerado um dos primeiros estudiosos a sistematizar o conhecimento da área de Humanas. Inspirou com seus discursos vários formatos de defesas jurídicas. É visto por muitos pesquisadores como um pensador que utilizou a sua filosofia como estilo de vida, ou seja, de forma autobiográfica, pois algumas de suas obras dialogam entre aspectos de sua vida pessoal e a relação com o seu contexto cultural, social e histórico em que vivia.

Filosofia da Educação

Ele explicava que o “ensino dos discursos” denominado por ele de "filosofia", era fundamental para uma sólida formação do indivíduo. Acreditava que a filosofia platônica era incapaz de formar cidadãos éticos e preparados para a vida política. Segundo Isócrates, a filosofia ensinada por Platão era inútil para a vida prática do homem grego, pois ela não seria capaz de suprir as necessidades básicas que eram importantes para a participação na vida democrática de Atenas. Dessa forma, ele pontuava ações importantes para serem ensinadas, como por exemplo, a elaboração de discursos para a formação dos jovens com a finalidade prática deles poderem colaborar com a política local. O aprendiz deveria aprender a falar bem, possuir boa oratória, saber escrever discursos e ser moralmente correto. Desse modo, Isócrates advertia que o jovem não deveria ser formado para ganhar debates a qualquer custo, sem compromisso com a verdade, mas antes de tudo, deveria aprimorar sua moral para que fosse um cidadão honesto. Portanto, ele era contra uma formação voltada para a competição, demonstrando a importância de uma instrução que aperfeiçoasse a inteligência e a civilidade.

Seus pensamentos seguem uma direção contrária ao dos filósofos clássicos, pois ele se opusera a ideia de que seria possível encontrar uma verdade definitiva sobre os fatos. Para Isócrates, um bom professor de oratória deveria levar em conta algumas características em seus discípulos como a “natureza” e a “experiência” dos alunos. Desse modo, um bom professor poderia delimitar o campo de atuação do aluno e seu papel na educação cívica. Ele não acreditava em um caminho certo ou em manuais que pudessem ensinar os discípulos a serem sábios e justos, pois, para isso, seria necessário adquirir primeiro a virtude. Daí caberia ao mestre identificar os talentos de seus discípulos através de um processo de descobertas e investigações. A partir disso, o mestre poderia encorajar a vocação dos discípulos e direcioná-los para alguma arte que estivessem conectadas com a virtude, a experiência e a felicidade desenvolvida pelo discípulo. Acreditava que o homem possuía certas limitações inatas que o impediam de alcançar alguns conhecimentos, porém uma mente disciplinada e bem orientada poderia adquirir os saberes pragmáticos. Na sua compreensão, as situações imprevisíveis que surgem ao acaso também seria outra questão que impossibilitava o indivíduo de obter um saber totalizante, no entanto, caberia ao mestre à tarefa de educar o pupilo nos desafios de um futuro incerto.

Dissertava que existiam quatro virtudes fundamentais para a construção moral de um cidadão e para sua atuação na “pólis”: prudência, força, temperança e justiça. Esta última deveria ser buscada através de uma boa educação. Para isso, seria necessário realizar exercícios de aprendizagem da “virtude”, destarte, o sujeito deveria praticar essas atividades tanto de forma individual bem como também de maneira social, visando com isso, adquirir experiências para a vida e para a comunidade. Os alicerces dessa educação estavam divididos em três partes essenciais: talento, prática e estudo. Desse modo, o mestre iniciaria uma relação de investigação com o aluno, a fim de fazer brotar nele seus “talentos naturais”. Isócrates utilizava “situações-problemas” e “práticas do cotidiano” para desabrochar no discípulo as qualidades que procurava nele. O estudo seria uma espécie de reforço sobre os saberes conquistados, tornando com isso, os conhecimentos que eram adquiridos, em um saber mais consolidado.

A “paideia” (sistema de educação da Grécia antiga) na visão de Isócrates deveria priorizar o ensino da Filosofia da História como disciplina elementar, pois ele definia essa disciplina como um forte instrumento intelectivo de construção dos saberes necessários para a atuação política. Baseava seus ensinamentos em três princípios fundamentais que eram: a “doxa” (opinião), a “empería” (experiência) e o “kairós” (ocasião ou oportunidade). Realizava uma espécie de seminário com os alunos a fim de debater os assuntos. Defendia uma educação autêntica que pudesse desenvolver nos alunos suas habilidades naturais e suas maturidades das quais eram adquiridas de acordo com o tempo específico de cada um. Seu modelo de educação influenciou os sistemas de pensamento liberais e foram implementados por vários pensadores ao longo dos séculos.

Filosofia Política

Ele discursava de maneira contrária aos filósofos que utilizavam a filosofia sem um objetivo útil, daí explicava que a boa filosofia deveria se afastar da erística que seriam debates sem fundamentações sólidas. Desse modo, ele atacava os sofistas erísticos afirmando que essas ideias debatidas por eles não eram plausíveis, eram meras opiniões ou apenas crenças sem reflexões. Nesse sentido, uma filosofia prática teria como princípio desenvolver no aluno a capacidade de atuação política. O mestre deveria exercitar no discípulo a experiência que ele já teria sobre alguns assuntos, pois, de acordo com Isócrates:

É muito melhor opinar acerca de coisas úteis do que ter o conhecimento exato de coisas inúteis, e que é muito melhor se distinguir pouco nas coisas de suma importância, do que se diferir nas coisas insignificantes, as quais em nada servem para a vida. (Isócrates)

 

Para Isócrates os discípulos de Sócrates e de Platão que levantavam questões individuais sobre a natureza humana como a coragem, a sabedoria e a justiça, estavam perdendo tempo ao defenderem posições contra ou a favor de tais assuntos, pois não haveria uma verdade única da qual eles buscavam ao discutirem sobre esses temas. Alegava que essas disputas verbais não serviriam para nada, e que eles deveriam se preocupar com questões políticas e assuntos públicos que dissessem respeitos à vida coletiva da “polis”. A filosofia deveria ensinar questões que levassem os alunos a praticar ações concretas na vida pública, como o pensar, o falar e o agir. Desse modo, ele explicava que o falar bem estava associado ao pensar bem e que ambos se complementavam em direção as ações corretas.  

Defendia o conceito de “pan-helenismo” que era a adesão política de todas as cidades-estados e de todos os cidadãos gregos em uma só nacionalidade e com a mesma identidade cultural. Argumentava que Atenas deveria herdar a liderança política dessa possível união dos povos helênicos, pois ela teria uma grande influência cultural e uma forte hegemonia. Para ele, as diferenças naturais influenciavam na posição social dos sujeitos, por isso, alguns cidadãos teriam direitos ao status de forma natural, enquanto outros poderiam adquirir status pela meritocracia. De acordo com alguns autores, as obras de Isócrates enaltecem os valores gregos e exaltam os princípios da elite aristocrática de Atenas, pois ele apoiava a ideia de extradição dos pobres da Grécia para assentamentos ou colônias conquistadas durante as guerras.

Obras:

- Contra os sofistas

- Elogio de Helena

- Panatenaico

- Antídose

- Eutidemo

- Busíris

- Areópago

- Panegírico

- Discurso Sobre a Paz


Filosofia Sapiencial

 - “Os mesmos argumentos com os quais persuadimos os outros são também os que usamos quando refletimos”.

- “Conservar a lembrança do passado permite acarretar as melhores decisões para o futuro”.

- “A maior prova de uma boa inteligência, e uma palavra sincera, legítima e justa é imagem de uma alma boa e fiel”.

- “O maior e o mais justo tesouro que se pode dar aos filhos é o afeto”

- "Que ninguém pense, no entanto, que em minha opinião a prática da justiça possa ser ensinada".

- “Ninguém pode governar bem nem cavalos, nem cães, nem homens ou qualquer outra coisa, se não experimentar prazer na companhia dos seres ou das coisas sobre os quais deve velar”.

- “Se queres saber com precisão o que é conveniente aos reis conhecer, conjuga experiência e filosofia: o filosofar te indicará os caminhos, mas o treino nos próprios atos (experiência) fará com que possas cuidar melhor de teus assuntos”.

- “Considero os sábios que, pelas suas opiniões, na maioria das vezes podem chegar à melhor solução, e os filósofos os que se dedicam aos estudos que lhes proporcionarão mais rapidamente esta faculdade, de reflexão”.

- “À filosofia, ademais, que todas essas coisas ajudaram a descobrir e estabelecer, e para a vida pública nos educou e nos tornou gentis uns com os outros, que distinguiu os infortúnios, uns advindos da ignorância, outros, da necessidade, e nos ensinou a nos proteger dos primeiros e a suportar dignamente os últimos, a ela nossa cidade revelou”.

 

Fontes:

ARISTÓTELES. Argumentos Sofísticos. trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim, São Paulo, Nova Cultural, 1991.

_________________Retórica. Trad. Manuel Alexandre Júnior, Paulo Farmhouse Alberto e Abel do Nascimento Pena. Lisboa: Imprensa Nacional e Casa da Moeda, UNESP, 2005.

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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Alcídamas de Eleia

Alcídamas de Eleia – (420 a 360) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução                        

Foi um filósofo sofista da Grécia antiga que nasceu na cidade de Eleia. Estudou oratória e especializou-se na arte da retórica. Foi também aluno de Górgias e teve como principal oponente nos discursos o sofista Isócrates. Chegou a lecionar na cidade de Atenas. Escreveu uma obra intitulada: “sobre os sofistas” em que explicava que o maior objetivo de um bom orador era poder falar com improviso sobre qualquer assunto. Alcídamas escrevia com um estilo poético e trabalhava conceitos metafóricos em seus discursos. Desenvolveu a técnica da “polytropía”, que quer dizer, falar de maneira improvisada para públicos diversos, em locais variados. Alguns estudiosos apontam uma forte influência de seus escritos nas obras de Platão. Defendia que a escravidão não seria algo natural, mas sim uma convenção entre as pessoas e que esse pacto era ocasionado pela supremacia do mais forte sobre o mais fraco. Desse modo, ele dizia que: “Todos são livres por natureza". Comparava o discurso escrito como sendo um simulacro de uma escultura, isto é, uma mera cópia da realidade. Seu pai foi um importante médico da antiguidade grega e um grande autor de textos eruditos, conhecido como Díocles. Nasceu por volta de 420 a.C e veio a falecer, aproximadamente em 360 a.C.

Filosofia da Linguagem

A retórica defendida por este pensador trabalhava a ideia de improvisação da fala no lugar da escrita. Para ele, a escrita estaria em um estágio inferior ao da fala, por isso, os bons oradores deveriam se destacar na arte da fala improvisada. Ele explicava, de forma figurada, que aquele que conseguia transportar uma carga pesada, certamente conduziria uma carga maneira, mas aquele que só movimentasse cargas leves, dificilmente conduziria uma carga pesada. Essa citação tinha como objetivo argumentar que, aqueles que apenas treinam os discursos de maneira escrita não seriam capazes de manter o mesmo ritmo, em discursos improvisados. Enquanto aqueles que, treinam a arte do improviso na fala, seguramente saberiam também, escrever belos discursos, pois esses últimos, teriam tempo e recursos suficientes, para fazer o que já sabem. Nesse ínterim, os indivíduos acostumados com o fardo leve do tempo e com os macetes das técnicas escritas, não saberiam como improvisar em ocasiões de debates. Alcídamas não desqualificava os sofistas que faziam discursos escritos, mas apenas considerava que, quem dominava a arte do improviso, em relação à fala, estaria em um nível de superioridade em relação, aos que faziam uso apenas do recurso da escrita. Outro exemplo que ele usava para explicar essa teoria, era a seguinte: “um corredor rápido poderia facilmente seguir os mais lentos, enquanto o lento não seria capaz de acompanhar os mais rápidos”.

Instruía que haveria três gêneros de discurso em que se formaria a arte do convencimento, através das palavras. Esses gêneros seriam: o forense, o público e o privado. Em relação ao espírito de competição que predominava entre os gregos, Alcídamas sugeria que fosse dado o nome de "violência" para a luta corpo a corpo, e o nome de "contestação" para o combate de palavras. Nesse sentido, os discursos longos que enfrentariam um embate com outros discursos longos, levaria o nome de contestações forenses. E os debates que ficassem divididos entre perguntas e respostas, deveriam ser chamados de controvérsias. Em relação à retórica, aconselhava o orador a possuir um claro arranjo mental de seu discurso, pois ele deveria preparar a estrutura principal, incluindo os pensamentos e os argumentos mais importantes, porém precisaria se adaptar às preocupações e as ideias da plateia ao falar.

Filosofia Pragmática

Para ele, a comunicação da fala na vida pública teria mais utilidade no dia a dia, do que a comunicação escrita. Por isso, a arte de improvisar na fala seria uma necessidade, enquanto que a escrita teria menos aplicabilidade e prestabilidade na vida social. Seu pensamento sobre a ideia de uma oratória prática se opunha à de Isócrates que defendia a retórica literária. Ao passo que Alcídamas defendia o discurso oral, Isócrates fazia apologia ao uso da escrita. Esse embate ficou conhecido como discurso prático versus o discurso teórico. Ainda, segundo Alcídamas, aqueles que se ocupam mais do discurso escrito poderiam ser comparados mais com artesãos, do que com exímios oradores. Esclarecia que as pessoas com baixa instrução poderiam se apropriar de alguns discursos escritos e fazerem algumas modificações, imitando ou plagiando algum eminente escritor. Por isso, esses discursos escritos, não seriam tão confiáveis quanto um falado. Já em relação à oratória, ele justificava que quem dominasse essa arte, teria mais facilidade de produzir um discurso escrito e também mais autêntico. Assim sendo, em relação aos discursos ele argumentava:

Não é desconhecido que aquele que fala belamente aos outros de improviso, entre o tempo e o ócio, ao escrever diferentemente, será compositor de discursos. Também não é imperceptível que aquele que elabora arranjos por meio da escrita, ao ter composto os discursos de improviso, terá a mente cheia de dificuldade, incerteza e confusão. (Alcídamas).

Ele defendia que a praticabilidade da fala estaria associada a vários fatores convencionais como o poder de contradizer falsas acusações, acalmar pessoas enfurecidas, aconselhar os que cometem enganos e encorajar os descontentes. Por isso, a fala seria indispensável para suprir as carências do homem. Segundo ele, a escrita requer silêncio e o silêncio pode ser mal interpretado, culminando em desprezo. Portanto, isso poderia gerar pessoas incapazes de atuar na vida política da “polis”. A prática somente do discurso escrito, poderia levar os cidadãos a não saberem improvisar em casos de situações embaraçosas ou em disputas políticas imprevisíveis, aos quais poderiam surgir na “ágora”. Para explicar isso, ele recorria a uma metáfora de um prisioneiro acorrentado durante muito tempo. Desse modo, ele discorria que esse indivíduo aprisionado, ao criar o hábito de andar com correntes e pesos sobre os pés, não teria a mesma desenvoltura que os homens livres, para caminhar quando fosse liberto, necessitando de certo tempo para se acostumar a andar normalmente de novo. Dessa maneira, o costume da escrita teria o peso da pausa nas reflexões do pensamento, levando os indivíduos a se tornarem prisioneiros desse mau hábito, diante disso, os falantes teriam dificuldade de se expressarem de maneira rápida, recorrendo à força do hábito de pausar o cérebro para refletir e falar.

Argumentava que o discurso falado teria mais vantagens no sentido de aproveitamento das oportunidades ocasionais que surgem durante um debate.  Outra vantagem que ele citava, seria em relação a uma situação tensa, em que a emoção pudesse levar um orador a cometer erros, pois ele dizia que, para um bom orador, essa gafe poderia passar despercebida pela dinâmica de uma boa eloquência, pontuando novas falas e enfeitando o discurso, a ponto de levar os interlocutores a esquecerem a gafe, para acompanhar os novos raciocínios, porém, no discurso escrito, o orador fatalmente deixaria marcas e registros, que tornariam sua falha vergonhosa, pois os interlocutores possuiriam tempo para pausar as informações, isso traria vexame não apenas momentaneamente, mas também ficaria registrado, o discurso desonroso, e isso dificilmente poderia ser corrigido.

Filosofia Sapiencial

+ "Todos são livres por natureza"

+ “A dialética é a faculdade do que resulta plausível”.

+ “São manufaturadas, as coisas compostas e fabricadas”.

+ “A odisseia de Homero é um belo espelho da vida humana”.

+ “Deus criou todos os homens livres e não fez nenhum deles de escravo”.

+ "O professor deve ser, por meio de sua técnica, tanto um encantador quanto conciso".

+ “O corredor rápido poderia facilmente seguir os mais lentos, enquanto o lento não seria capaz de acompanhar os mais rápidos”.

+ “Aqueles que escrevem merecem o nome de sofista, enquanto aqueles que falam podem ser propriamente chamados de sábios”.

+ “O hábil a levantar uma carga pesada conduziria facilmente ao ter se voltado às cargas mais leves. Enquanto aquele que vai de encontro, com força, às coisas leves não seria capaz de carregar nada pesado”.

+ “Aquele que de longe consegue arremessar o javali com sucesso e lançar a flecha fará o mesmo facilmente de perto. Mas não é perceptível se aquele que as lança de perto venha a conseguir fazer isso de longe”.

 + “O discurso falado diretamente e impulsivamente tem uma alma e é vivo e é pertinente e é como os corpos reais, enquanto o discurso escrito cuja natureza corresponde a uma representação de uma coisa real carece de qualquer tipo de poder vivo”.

+ “Não seria risível, se quando o arauto chamasse junto de si - quem dentre os cidadãos deseja falar na assembleia? - ou quando a água da clepsidra já escoando nos tribunais, o orador recorresse à sua tabuinha de escrever para recuperar e relembrar um discurso?”

+ “Todas as coisas boas e belas são raras e difíceis, e se alcançam habitualmente por meio da prática, porém as coisas banais e comuns tornam-se de fácil aquisição. Portanto, visto que a escrita nos é mais manejável do que a fala, deveríamos claramente considerar sua aquisição com valor menor do que a outra”.

+ “Visto que alguns dos chamados sofistas se descuidaram da formação e da investigação, ainda que se vangloriem e valorizem por se dedicarem a escrever discursos, eles não passam de leigos inexperientes em matéria de eloquência.  Ostentando seus saberes através de textos, eles mostram possuir a menor parte da arte retórica, muito embora a reivindiquem por inteiro.  Por isso, eu me disponho a acusar os discursos escritos”.

Obras:

Instrução de arte retórica; Logos para os messênios; Uma palavra invocando as musas; Odisseu; Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas; Um elogio da morte; Um elogio a Naís, a cortesã; Elogio da Pobreza; Os Encômios.

Citações de filósofos

“Alcídamas diz que existem quatro tipos de enunciados: expressão, exposição, questão e apóstrofe”. (Suda).

“Alcídamas nomeia quatro tipos de discurso: Afirmação, negação, interrogatório e definição”. (Diógenes Laércio).  

As peripécias de Ulysses em a Odisseia – eram consideradas por Alcídamas como "um belo espelho da vida humana" (Aristóteles).

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5º ed. São Paulo: Editora Martins, 2007.

ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Editora Edipro, 2009.

BLASS, Fridericvs. Antiphontis Orationes et fragmenta, adivnctis Gorgiae, Antisthenis. Alcidamantis, declamationibvs. Leipzig: Teubner, 1892.

BURNET, John. A aurora da filosofia grega. 1ª ed. Rio de Janeiro: PUC RIO, 2007.

CASSIN, Barbara. O Efeito Sofístico: filosofia, retórica e literatura. São Paulo: PUCC, 2005.

DINUCCI, Aldo. Górgias de Leotino. São Paulo: Oficina do Livro, 2017.

FILÓSTRATO, Flávio. História dos Sofistas Ilustres. Londres: Loeb, 1989.

GUTHRIE, William. Os sofistas. São Paulo: Editora Paulus, 2007.

HOOK, Van. Alcídamas versus Isócrates: A fala versus a escrita. The Classical Weekly, 1918.

KERFELD, George. O movimento sofista. São Paulo: Editora Loyola, 2003

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2ª ed. Brasília. UnB. 2008.

MCCOY, Marina. Platão e a retórica de filósofos e sofistas. São Paulo: Editora Madras, 2010.

MUIR, Jonh.  Alcídamas. London: Bristol Classical Press, 2001.

REIS, Michel Ferreira. Tradução do discurso: Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas de Alcídamas. Brasília: Belas infiéis. V.9 n. 5. 2020.

SALLES, Lucio Lauro Barroso Massafferri. As faces do sofista de Eleia. Rio de Janeiro: Anais da filosofia clássica – UFRJ. v. 10, n. 20, 2016.