terça-feira, 17 de março de 2020

Heráclito de Éfeso

Heráclito de Éfeso – (540 a 470) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo pré-socrático da Grécia antiga que era considerado um dos precursores da dialética. Também ficou conhecido como sendo um dos fundadores da metafísica e como o pensador do "logos". Pesquisadores apontam que a obra de Heráclito era singular e enigmática, nesse sentido, seus pensamentos foram escritos na forma de aforismos. Ele escreveu uma obra chamada de “Acerca da Natureza”, essa obra tinha um estilo muito parecido com os ensinamentos dos oráculos, por isso, rendeu-lhe o codinome de “o obscuro”. Floresceu no período de transição compreendido entre os filósofos monistas da Escola de Mileto e os chamado filósofos pluralistas. Embora seu pensamento fosse único e particular, alguns historiadores da filosofia o classificam como sendo de relativa associação com a Escola Jônica. Outros o definem como sendo o criador da Escola de Éfesos, pois chegou a lecionar e ter discípulos notáveis como o Crátilo de Atenas. Nasceu no ano aproximado de 540 a.C. na cidade de Éfeso, e provavelmente tenha falecido em meados de 470 a.C. A causa de sua morte é controversa, pois alguns historiadores contam que ele teria morrido de fome, outros afirmam que ele teria falecido após contrair uma doença por conta de sua má alimentação decorrente de uma vida nômade e reclusa em locais insalubres, pois ele comia ervas e plantas que eram tóxicas e exóticas. 

Heráclito pertencia à família real da sua cidade, relatos afirmam que ele renunciou aos seus privilégios e as riquezas que possuía, deixando tudo para o seu irmão. O obscuro era visto em seu tempo como um homem que desprezava o poder e o status social, por isso, demonstrava repulsa ao materialismo da época, não se interessava em discutir publicamente temas sobre política, arte ou religião. Passou a viver isolado em montanhas não se prendendo a nada material. Viveu muitos anos vagando sozinho pela natureza, dessa forma, sofreu duras críticas dos políticos e cidadãos de sua época que lhe pediam auxílio para que ajudasse a administrar a república, mas ele preferia viver afastado da urbe. Seus pensamentos faziam oposição aos de outro notável filósofo da época conhecido por Parmênides de Eléia. Desse embate nasceram duas correntes antagônicas de pensamentos chamadas de mobilistas versus imobilistas.

Filosofia da natureza

Para Heráclito, tudo na natureza estaria em um eterno movimento, isto é, no “ir e vir” constante ao qual chamou de “devir”, seria o eterno movimento de tudo, assim sendo, ele proferia que tudo estaria em movimento constante e que nada permaneceria parado, ou seja, tudo fluiria e tudo se moveria menos o próprio movimento. Nesse contexto, ele é considerado o autor da famosa metáfora do rio: “ninguém pode se banhar duas vezes em um mesmo rio, pois ao entrar novamente em um rio, nem o homem é o mesmo e nem o rio é o mesmo”. Heráclito sustentava a tese de que só a mudança e o movimento eram reais, e que a identidade das coisas iguais a si mesmas, era ilusória, pois para ele, “tudo flui como um rio”, esse conceito também é chamado de “panta rei”, ou seja, o constante movimento.  Ele discutia que essa guerra contínua, faria com que, essa mudança e esse movimento fossem um eterno fluxo, fruto da tensão contínua dos opostos que estariam em uma eterna luta. Assim, esse fluxo permanente, ou seja, o “devir”, faria com que nada permanecesse o mesmo, isto é, de maneira idêntica a si mesmo, pois tudo se transformaria no seu contrário, daí, dessa luta entre os contrários, que seria o próprio “devir” entre o “ser” e o “não-ser”, aconteceria o surgimento do “vir-a-ser”, então, essa luta promoveria uma harmonia que se traduziria em uma unidade. O "devir" que seria o “vir-a-ser”, é uma mudança perpétua, é um contínuo fluir de um contrário ao outro.

Declarava que os contrários eram partes de uma mesma realidade, então os opostos estariam sempre se alternando de forma contínua, dessa forma, o que estaria quente logo passaria a estar frio, e o que estaria úmido logo se tornaria seco, nesse sentido, essa guerra entre os opostos provocaria uma eterna mudança, ou seja, um eterno “devir”. Desse modo, a guerra entre os opostos seria como um caminho, e esse caminho era a eterna mudança, como se o oposto fosse à mesma coisa de seu outro lado. Em outras palavras é como se o princípio fosse o mesmo que o fim, como em um círculo. O que estaria em baixo seria igual ao que estaria em cima, pois o caminho para ir para cima e depois para baixo seria o mesmo. Dessa maneira, ele descrevia que a saúde só existe porque existe a doença, o frio só existe porque também existe o calor, e vice-versa. O quente e o frio seriam a mesma coisa, pois os dois são considerados temperaturas, ou seja, um seria apenas a outra versão da mesma coisa. Assim sendo, essa mudança proporciona que o quente se torne frio e o frio se torne quente, o úmido seque e o que está seco se torne úmido. Heráclito foi considerado um dos primeiros filósofos a fazer especulações a respeito das coisas na natureza, pois, para ele, a natureza não expõe suas verdades de maneira clara, daí o homem precisaria pesquisar e especular para, então, encontrar as respostas sobre os fenômenos da natureza. 

Filosofia Cosmológica

Afirmava que a “arché” de todas as coisas estaria no fogo, pois acreditava que o “fogo” seria o principal elemento que originava tudo no universo, e que ele era a principal substância que transformava tudo, enfatizando que dessas transformações, as coisas iam sendo geradas e modificadas. Dizia que tudo no cosmos estava em um movimento eterno, e que o fogo seria o propulsor desse movimento. Acreditava que o cosmos seria um só, nascendo pelo fogo, e com um tempo, sendo consumido pelo fogo novamente, desse modo, esse ciclo se repetiria por toda a eternidade. O universo sofreria um processo de metamorfose infinita a cada novo instante. Para ele, esse ciclo permitiria uma mudança para cima e para baixo, através dos processos físicos de condensação e rarefação. O cosmos seria um fogo que acendia e apagava em um movimento perpétuo, tendo sua unicidade formada pela dualidade de opostos. Nesse sentido, ele descrevia que:

Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi criado por qualquer dos deuses ou dos homens, mas foi sempre, é e será fogo eternamente vivo que ordenadamente se acende e regularmente se extingue. (Heráclito de Éfeso).

Portanto, ao definir que tudo surgiria do fogo, ele também explicava que: “todas as coisas transforam-se em fogo, e o próprio fogo transforma-se em todas as coisas, assim como o ouro é uma troca de todas as mercadorias e todas as mercadorias são uma troca do ouro”. Em outras palavras, ele dizia que seria o fogo que provocaria o “devir” e a unidade entre os opostos, logo, o sentido e o significado de algo existir estaria no seu oposto. Explicava que a Terra era cercada por astros como o Sol, a Lua e as Estrelas. Denominava esses astros de “grandes barcos”, pois acreditava que eles teriam o formato côncavo.

Filosofia da Linguagem

Nas suas afirmações versava que a verdade era “dialética”, ou seja, as palavras transmitem suas ideias em uma eterna transformação, nesse sentido, a dialética era a transição entre duas ideias opostas. Segundo suas definições, seriam na síntese entre os contrários que se constituiriam as coisas, e na multiplicidade contraditória que surgiria a unidade dialética, e isso seria então, o que permitiria algum tipo de conhecimento, ainda que muito rápido ou passageiro. Sua dialética era baseada nas correlações existentes entre dois conceitos opostos, demostrando uma dependência mútua entre eles. Na sua teoria dos contrários ele discursava que é na contradição que surge a unidade dialética, pois a dialética propõe a busca da verdade através da relação entre dois conceitos opostos, numa relação de interdependência. Explicava desse conceito, que a escuridão só existe porque também existe o conceito de luz, assim, um não poderia existir sem o outro, daí, afirmava que algo só existe porque existe o seu oposto. Para Heráclito, o “logos”, traduzido por conhecimento ou essência racional do universo, nasce desse embate, da dualidade das coisas, ou seja, a dialética promoveria como resultado o “logos”.

Os pensadores também afirmam que Heráclito foi inovador ao estabelecer uma unidade entre os opostos, pois, para ele, o conceito de “um” introduzia-se na ideia de “múltiplo” e o “múltiplo” penetraria no “um”, ou seja, os opostos seriam partes de uma mesma unidade. A multiplicidade seria uma forma de unicidade, daí, quando ocorria essa fusão, que era provocada por uma força harmoniosa, os opostos se tornavam uma unidade idêntica. Ele definia isso da seguinte forma: “Das coisas surge à unidade. E, da unidade, todas as coisas.” O fluxo eterno promoveria um processo dialético, e essa dialética continuaria um movimento entre uma direção até a outra, e vice-versa. Ela seria própria do objeto a que se observa, mas estaria também no sujeito que o observa, assim, o devir que seria o movimento era também o princípio de tudo. Portanto, tudo fluiria e a realidade não era estática, não existiria substância fixa, o que existe é um contínuo movimento. O equilíbrio das coisas estaria nessa alternância e dinamicidade do movimento entre os polos.

Filosofia Lógica

Ele argumentava que para se chegar a uma verdade universal era preciso se desprender dos sentidos, pois o que é verdadeiro não pode ser sentido, pode apenas ser pensado pelas faculdades da razão. Ele especulava que apenas alguns homens têm a capacidade de encontrar respostas racionais, devido à intimidade que possuem em buscar essas verdades. Dizia que a maioria dos homens vive “adormecidos”  e que apenas os “despertos conseguem utilizar o logos de maneira consciente. O “logos” seria a unidade básica nas mudanças e nas tensões, a reger todos os planos da realidade. O plano físico, o biológico, o psicológico, o político, e o moral. Ele acreditava que a busca pelo autoconhecimento seria um processo sem fim, pois quanto mais o homem se conhece, mais percebe que existe ainda mais coisas a se conhecer. Relatava que a busca filosófica também deveria passar pela busca do conhecimento das relações com o outro. Através da razão o homem deveria buscar conhecer a natureza externa, a natureza da relação entre os homens e a natureza de si mesmo. Da sua ideia de “devir”, ele considerava que a natureza estaria em uma constante transmutação e o fogo seria o responsável por essa incessante inquietação que seria comandada pelo “logos”.

Heráclito criou uma teoria chamada de doutrina dos contrários, ao qual ele pronunciava que existiria uma luta constante e eterna entre os contrários, explicando que um oposto não poderia existir sozinho sem o outro oposto, pois um dependeria do outro para existir. A contradição seria responsável pelo surgimento de uma unidade dialética. Argumentava que se um observador percebe uma subida em uma grande escada, outro observador, que estiver na parte de cima, pode entender essa mesma escada como sendo uma descida. Ele dizia então que havia uma luta constitutiva do logos indivisível e que nessa guerra dual, existia no âmago, uma harmonia entre os contrários. Ao estabelecer uma síntese contraditória e permanente da realidade, Heráclito cria uma espécie de lógica antidialética. Para Heráclito, o “logos” (razão) era ao mesmo tempo mudança e contradição.

Filosofia Teológica

Heráclito acreditava que a alma possuía uma dimensão infinita e assim como suas teorias dos opostos, ela possuía uma dualidade. Essa dualidade da alma estava na ideia de que alma seria mortal e imortal ao mesmo tempo, seguindo assim um processo infinito. Explicava que o ato de morrer se opõe ao ato de está vivo, logo a morte tem o seu oposto que é a vida. Daí afirmava que: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, fartura-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo, quando misturado a arômatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles”. Na visão teológica de Heráclito, Deus seria esses opostos e através dessa eterna mudança entre os opostos, poderia ser possível compreender sua unidade. Nesse sentido, ele transcorria que: "para as almas é morte tornar-se água, e para a água é morte tornar-se terra, e da terra nasce água, e da água surge alma.". Definia que a alma humana era formada por fogo. Defendia  a noção de que a vida do corpo seria a morte da alma, e a morte do corpo, era a vida da alma.

Anedota

Conta-se que na Grécia antiga no período arcaico os homens viviam na vizinhança dos deuses. Daí em certo dia o filósofo Heráclito teria recebido a visita de algumas pessoas que o encontraram se aquecendo em um forno de padaria. Os visitantes lhe observavam com curiosidade e espanto. Então ao perceber o olhar o curioso dos visitantes, Heráclito teria dito: “Aqui também os deuses estão presentes”. Com isto ele queria dizer que, no espaço aberto da vida simples e costumeira de todo dia, o homem grego vivia na vizinhança dos deuses.

 

Filosofia Sapiencial

- “Procurei-me a mim mesmo”.

- “O homem é o sonho de uma sombra”.

- “O caráter do homem é seu destino”.

- “Tudo o que é fixo é ilusão.”.

- “Todas as coisas surgem do fogo”.

- “A Natureza ama esconder-se”.

- “Se você não sabe escutar, então não sabe falar”.

- “Nada existe de permanente a não ser a mudança”

- “A única coisa que não muda é que tudo muda.”.

- “A rota para cima e para baixo é uma e a mesma”.

- “A verdadeira constituição das coisas gosta de ocultar-se.”

- "Tudo provem do "um" e o "um" provem do Todo”.

- “Caminho: em cima e embaixo é um e o mesmo”.

- “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”.

- “Tempo é criança brincando, jogando; de criança o reinado”.

- "Da luta dos contrários é que nasce a harmonia.”.

- “Para os seres despertos, há somente um mundo comum.”.

- “Tudo flui e Nada é permanente, exceto a mudança”.

- A luta é a regra do mundo e a guerra é que cria todas as coisas.

- É necessário seguir o que é comum a todos porque o que é comum é geral.

- “Os que procuram ouro escavam muita terra, mas encontram pouco metal”.

- “Os olhos e os ouvidos são maus testemunhos quando a alma não presta”.

- “A oposição produz a concórdia. Da discórdia surge a mais bela harmonia”.

- "Ser sábio consiste em saber que o pensamento governa todas as coisas”.

- "Nada está pronto, tudo está em permanente construção, desconstrução e reconstrução."

- “Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo”.

- “O que aguarda os homens após a morte, não é nem o que esperam nem o que imaginam”.

- “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”.

- “A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns transformam em deuses, outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres”.

- “Sabedoria consiste em falar e agir com verdade. Todas as coisas vêm a seu tempo devido. O sol é novo a cada dia”.

- “A doença faz da saúde algo aprazível e bom, torna a fome em saciedade e o cansaço em descanso”.

- “Imortais são mortais, mortais são imortais, vivendo a morte de uns, morrendo a vida de outros”.

- "Para Deus tudo é belo e bom e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.”.

 - Tu não encontrarás os confins da alma, caminhes o quanto caminhares, tão profunda é ela.

- “Se não esperares, não irás achar o inesperado, porque ele não se pode achar e é inacessível”.

- “A água do mar é a mais pura e a mais poluída; para os peixes, é potável e salutar, mas para os homens é impotável e deletéria”.

- “Paremos de indagar o que o futuro nos reserva e recebamos como um presente o que quer que possa trazer o dia de hoje”.

- “Muita instrução não ensina a ter inteligência, assim como, Muito estudo não significa compreensão”.

- "O conflito é o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns, homens livres".

- “Caminhando não encontrarás os limites da alma, mesmo se percorreres todas as estradas, pois é muito profundo o logos que ela possui.”.

- “Escutando não a mim, mas ao Logos, é sábio entrar em acordo para dizer a mesma coisa: tudo é um”.

- “Conjunções: completas e não-completas, convergente e divergente, consoante e dissonante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas”.

- “A sabedoria é a meta da alma humana; mas a pessoa, à medida que em seus conhecimentos avança, vê o horizonte do desconhecido cada vez mais longe”.

- São iguais, os vivos e os mortos, os que estão acordados e os que dormem, os jovens e os velhos: porque cada um destes opostos quando se transformam tornam-se o anterior.

- “Todos os homens sobre a terra permanecem longe da verdade e da justiça, e por causa de sua miserável loucura devotam-se sofregamente à satisfação de suas ambições e sede de popularidade”.


Fontes:

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson BINI. São Paulo: Edipro, 2012.

BARNES, Jonathan. Filósofos pré-socráticos. Tradução: Julio, Fischer. São Paulo: Martins Fontes. 1997.

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CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia. Vol. 2. São Paulo. Companhia das letras. 2010.

CIVITA, Victor. Pré-Socráticos: Os pensadores. São Paulo. Nova Cultura LTDA. 1996.

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KIRK, Geoffrey; RAVEN, John; SCHOFIELD, Malcom. Os filósofos pré-socráticos. Trad. Calor Alberto Louro Fonseca. 7ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

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NIETZSCHE, Friedrich. Filosofia na Idade Trágica dos Gregos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

REALE, Giovanni. História da Filosofia Pagã. São Paulo: Paulus, 2007.

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VERNANT. Jean Pierre. Mito e pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro. PUC, 1965.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Clístenes de Atenas

Clístenes de Atenas – (565 a 492) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo político que viveu na Grécia antiga. Desempenhou funções como estadista, legislador e reformador social. Relata-se que ele teria conseguido realizar uma reforma política e social em Atenas juntamente com outros legisladores. É considerado por muitos como sendo um dos pais da democracia grega. As reformas criadas por Clístenes teriam servido de base para a consolidação da democracia na Grécia. O vocábulo “democracia” vem do termo “demo”, isto é, povo e do radical “kratia”, ou seja, poder, dessa forma, significaria “poder do povo”. Ele desenvolveu técnicas de sistematização da cidadania. Historiadores apontam que ele liderou uma revolta popular em Atenas por volta do ano 510 a.C. Era filho de um arconte conhecido por Mégacles. Pertencia a uma família de influentes nobres chamados de “Os Alcmeônidas”. Essa família era conhecida por sua forte oposição e luta contra o sistema de tirania. Teria sido o introdutor do calendário pritaniano na Grécia antiga. Nasceu em 565 a.C. na cidade de Atenas e faleceu aproximadamente em 492 a.C.

Filosofia Política

A democracia grega dessa época era consolidada por uma elite aristocrática conhecida como “os eupátridas”, isto é, “os bem-nascidos”. Essa elite detinha o poder de grande parte das terras que eram consideras férteis. Nesse período, uma nova classe de pequenos comerciantes conhecidos como “demiurgos” e outra classe formada de escravos por dívidas começaram a reivindicar direitos. Após uma série de medidas criadas pelo legislador Drácon para promover mudanças e posteriormente pelo Sólon, houve então, uma boa oportunidade para que Clístenes pudesse implementar suas ideias reformistas. Ele passou a abolir a divisão de classes sociais por critério de sangue, e acabou por criar uma divisão de classe definida por critério de território. Nesse contexto, teria finalmente terminado o poder aristocrático baseado no sangue e nas posses para dar-se início a uma democracia fundamentada em tribos e conselhos formados por cidadãos que iriam participar das decisões políticas. As suas reformas modificaram algumas configurações sociais da época, alterando o sistema de tribos familiares para territoriais, e assim então, teria se dado a origem das "pólis", ou seja, as chamadas Cidades-Estados. 

Suas reformas fizeram com que a aristocracia perdesse poder, pois nessa época apenas uma parte pequena da população participava ativamente da vida política. A “pólis” ficou dividida em três partes: cidade, litoral e interior. Então com o desenvolvimento dessas tribos, o sentimento de família foi gradativamente sendo substituído por um sentimento social e de coletividade. Tudo isso foi aos poucos misturando as camadas sociais, surgiu enfim, uma nova classe social chamada de “demos”, essa classe que era desfavorecida foi paulatinamente consolidando a democracia. Essa divisão em “demos” urbanos seria uma forma diferente da tribal que era adotada em Atenas. Seu objetivo era criar um Estado baseado na igualdade política e na participação de todos os cidadãos da época, pois isso traria mais equilíbrio ao sistema político. Ele modificou a divisão por gene, que era à base da aristocracia local, e assim dividiu os cidadãos em tribos. As tribos passaram a ser formadas por cidadãos de várias regiões e classes sociais distintas, desse modo, tornaram-se a base de toda a atividade política e militar. 

Filosofia Jurídica

Clístenes utilizou seus conhecimentos em legislação para introduzir suas reformas que tinham como princípio a igualdade entre todos os cidadãos. Nesse contexto, ele reformulou a constituição da antiga Atenas. Essa nova constituição elaborada por Clístenes, dava direito a todo e qualquer cidadão, independente da renda, de ocupar indistintos cargos públicos, e com isso, o estado oligárquico sofreu um duro golpe. Clístenes também criou o ostracismo que era uma forma de proteger a segurança do estado, nesse sentido, quem atentasse contra essa ordem ou contra a democracia, poderia ser exilado por um período de até dez anos.  Logo depois, houve certa estabilidade no regime democrático de Atenas, tudo isso, teria impedido o surgimento de novos tiranos em Atenas. Ele Estabeleceu a pena de morte por envenenamento através da ingestão de cicuta. As principais instituições em seu tempo eram sistematizadas pela "Bulé", que era o conselho onde se formavam as leis, e a “Eclésia”, que era a assembleia onde eram tomadas as decisões. Supõe-se entre pesquisadores que Clístenes, ao ajustar suas ideias, teria sofrido influência dos pensamentos pitagóricos, pois suas enumerações eram formuladas de maneira orquestrada, dando preferência para alguns números.

O objetivo de Clístenes era combater o sentido de estratificação da democracia Grega, suas reformas tiveram como meta lutar contra os conflitos sociais gerados pela opressão dos tiranos e das oligarquias da Grécia antiga. No projeto que ele elaborou, criou-se um comitê de quinhentos cidadãos conhecido como “conselho dos quinhentos”, que eram eleitos anualmente e passavam a realizar os debates e utilizar a palavra como instrumento de participação social. Dessa forma, eles tinham poder de votação e tomavam decisões. Esses quinhentos cidadãos eram divididos em dez tribos de cinquenta homens que promoviam um sentimento de igualdade e cidadania na democracia Grega. Seus feitos políticos e jurídicos proporcionaram a Atenas se transformar na maior potência econômica e cultural da época, influenciando a participação isonômica dos cidadãos na vida pública. 

Fontes:

ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Edipro, 2009.

DAHL, Robert. Sobre a Democracia. Brasília: UnB, 2001.

FINLEY, Moses. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1970.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2007.

GLOTZ, Gustave. A cidade grega. Rio de Janeiro: Editora Difel, 1980.

GODOY, Arnaldo. Direito Grego e Historiografia Jurídica. Curitiba: Juruá, 2003.

HERÓDOTO. Histórias. São Paulo: Edipro, 2020.

SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2010

VERNANT. Jean Pierre. Mito e pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro. PUC. 1965.


domingo, 12 de janeiro de 2020

Timeu de Lócrida

Timeu de Lócrida – (Séc V a.C)

Autor: Alysomax Soares 

Introdução

Foi um filósofo pitagórico da Grécia antiga que estudou as áreas da Filosofia, Matemática, Física, Música e Astronomia. Além do destaque na área científica, também atuou de maneira louvável na política. Pouco se sabe sobre este filósofo, alguns historiadores afirmam que ele era amigo de Platão, outros que seria apenas um personagem de suas obras. Ele é citado em algumas obras de Platão, como no diálogo de "Timeu" e em "Crítias". Foi também orador, escritor, advogado e político. Pesquisadores relatam que Timeu exerceu algumas influências no pensamento platônico, como exemplo, o próprio filósofo Platão ao apresentar sua teoria rudimentar sobre a química dos corpos orgânicos e inorgânicos acabou por descrever pela primeira vez o conceito de “elemento”, esse conceito foi desenvolvido em um dos diálogos com Timeu, sendo essas ideias consideradas pontos basilares sobre algumas teorias da química antiga. A misteriosa ilha de Atlântida é citada na obra platônica denominada “Timeu” como um local que de fato existiu, e não apenas como sendo um mito.  

Filosofia Cosmológica

Entre os principais conhecimentos de Timeu, Platão aponta para a erudição que ele tinha sobre a natureza do universo. Na obra de Platão, o personagem Timeu descreve sua visão cosmológica do universo e faz explicações sobre o espaço e sobre o tempo. Ele afirmava que o tempo seria uma característica do universo, e que o movimento dos astros era o que fazia o tempo surgir. Nesse sentido, ele apontava uma fundamentação das ações realizadas por uma deidade e suas possíveis relações entre o campo material e a natureza humana. Platão traçou nesse diálogo um paralelo entre a existência de duas possíveis almas em um mesmo corpo humano com a visão dual entre a natureza do cosmos e a natureza humana. Nesse contexto, a primeira alma seria eterna, divinal e similar ao espírito cósmico, isto é, a alma teria sido gerada por uma entidade superior que utilizava uma espécie de essência para fundir essa alma no espírito cósmico. Já a segunda alma seria mortal e teria sido criada por entidades inferiores que misturavam disfunções necessárias. Essas disfunções poderiam ser emoções e sentimentos ligados ao estado de necessidade do corpo como os prazeres, desejos, medos, dores, paixões, esperança e outros sentimentos. Segundo sua visão, o mundo teria surgido da fusão entre os elementos terra e fogo. A Terra e os outros astros possuíam alma, essa alma poderia ser compreendida entre algo que permanece no tempo e algo que seria eterno. Estaria entre o ser das coisas e o devir, isto é, entre aquilo que “sempre é” e aquilo que “vem a ser”.

Filosofia Pitagórica

Segundo Platão, sobre a influência medicinal dos saberes pitagóricos, Timeu descreveu suas observações referentes às funções fisiológicas e psíquicas do corpo humano. Timeu também discursou sobre a metempsicose que significaria o conceito de transmigração da alma para outros corpos ou até mesmo outros animais. Em um de seus ensinamentos falava que as almas que praticavam algum vício acabavam retornando, em algum corpo frágil ou animal, para pagarem certa pena ou penitência. Timeu de Lócrida declarou certa vez  que: "as penas da outra vida eram castigos infindos aplicados às sombras dos réprobos, e que a tradição lhes perpetuara a ideia a fim de purificar o espírito de vícios".

Filosofia Sapiencial

- “A música, harmonia e ritmo, foi dada ao homem inteligente pelas musas para harmonizar o hino da discórdia na revolução de suas almas”.

"As penas da outra vida são castigos infindos aplicados às sombras dos réprobos, e que a tradição lhes perpetuara a ideia a fim de purificar o espírito de vícios".

- “Elogio muito o poeta jônico Homero de ter tornado os homens religiosos pelas fábulas antigas e úteis; porque, do mesmo modo que curamos os corpos por remédios insalubres, se não cedem aos mais salutares, do mesmo modo reprimimos as almas pelos falsos discursos, se elas não se deixam seduzir pelos verdadeiros”.

Fontes:

ABBAGNANO, Nicolas. Dicionário de Filosofia. 5º ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia. Vol. 2. São Paulo: Companhia das letras. 2010.

CÍCERO, Marco Túlio. Da República. São Paulo: Edipro, 2020.

CIVITA, Victor. Pré-Socráticos: Os pensadores. São Paulo. Nova Cultura LTDA. 1996.

HAMLYN. David. Uma história da filosofia ocidental. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1990.

HOBUSS, João. Introdução à história da filosofia antiga. Pelotas. Dissertatio Filosofia. 2014.

JÂMBLICO. Suma Pitagórica. Milão: Bompiani, 2006.

JAEGER, Werner. Paidéia: A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2 ed. Brasília. UnB. 2008.

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REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 3ª.ed. Vol.1. São Paulo: Paulus,1990.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental. São PauloCompanhia editora nacional. 1957.

SILVA, Ana Cecília. Filosofia da Física o contexto filosófico do atomismo. Dissertação. Rio de Janeiro: UERJ, 2018.

SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos: Primeiro mestres da filosofia e da ciência grega. 2ª.ed. Porto Alegre. EDIPUCRS. 2003.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Theano de Crotona

Theano de Crotona – (546 a 495) a.C 

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi uma filósofa da Grécia antiga pertencente à escola pitagórica. Desenvolveu os princípios teóricos e filosóficos da “doutrina do meio-termo”. Destacou-se nas áreas da Matemática, Astronomia, Física, Filosofia e Medicina. Ela era considerada por alguns pensadores como sendo a primeira matemática (mulher) da região itálica na Grécia antiga e também uma das precursoras da investigação científica. Entre suas ideias, ela afirmava que na natureza “tudo é número”, pois esse era um pensamento comum na escola pitagórica de Crotona. Além de aluna, algumas fontes dizem que ela também seria esposa de Pitágoras.  Existem relatos que ela teria tido filhos com seu mestre e que após o assassinato dele por perseguidores políticos, ela teria conseguido fugir e passou a divulgar junto com as filhas os pensamentos dos pitagóricos, com isso, os fragmentos de suas cartas foram conservados pelos historiadores da época. As mulheres, nessa época, eram proibidas de participar dos estudos ligados a ciência e a filosofia, então, a escola pitagórica inovou os conceitos da época ao permitir que as mulheres pudessem estudar nessa escola. Por ter se destacado na escola de Pitágoras, ela se tornou mestra e repassou muitos dos seus conhecimentos aos discípulos pitagóricos. Devido à existência de muitas mulheres na escola pitagórica, as discípulas assinavam os aprendizados e as descobertas com o nome de Pitágoras, por isso, é muito difícil precisar com exatidão o que cada discípula descobriu ao certo.

Dizem que seu pai era um homem muito rico, e por isso, enviou-a para a escola de Pitágoras para que ele pudesse ensiná-la. Ainda há muitas discordâncias históricas a respeito de quem teria sido de fato o seu verdadeiro pai e se realmente ela teria sido esposa de Pitágoras. A corrente majoritária aponta na direção mais provável de que ela seria filha de outro filósofo e físico chamado Pitonax de Creta. Porém, alguns historiadores afirmam que ela pode ter sido protegida por um rico patrocinador da ciência e da arte chamado de Milón, e que por isso, existiria a possibilidade dele ter sido seu verdadeiro pai ou uma espécie de padrinho da época. Milón era bem conhecido por pertencer a uma religião da época chamada de orfismo, que trabalhava a literatura do poeta mítico Orfeu. Essa religião do orfismo pode, então, ter influenciado boa parte do pensamento de Theano. Outros relatos históricos apontam que ela poderia ter sido filha de um médico chamado Brotino que sucedeu Pitágoras na escola, porém essa seria a hipótese menos provável, outra hipótese improvável é a de que ela teria sido filha do próprio Pitágoras, fato curioso, pois a maioria dos historiadores afirma que ela teve filhos com o seu mestre. Theano nasceu aproximadamente em 546 a.C na cidade de Crotona que ficava localizada na Grécia antiga. A data precisa de sua morte ainda é um fato desconhecido, porém se presume que tenha falecido possivelmente entre o final do século VI a.C e  início do século V a.C, por volta de 495 a.C.

Filosofia Pitagórica

A esposa de Pitágoras recebeu grande reconhecimento por parte dele, tendo inclusive dirigido a escola pitagórica por um bom tempo. Abordou ideias relacionadas aos estudos metafísicos entre a vida real e a espiritual. Comparando esses conceitos, entre a representação que uma vida exerceria sobre a outra e a atuação que as pessoas teriam nas duas vidas. Divulgava as doutrinas pitagóricas que discutiam a relação da vida carnal com o mundo místico, trabalhando temas como a transmigração e a imortalidade da alma. Acreditava na existência de uma justiça divina, explicava que haveria um juízo sobre os atos praticados em vida e que seriam transmutados para outras encarnações. Explicava que os números são o princípio da realidade e da individualidade.  Ela acreditava que todos os objetos materiais eram compostos por números naturais, assim, dizia que a medida de qualquer objeto poderia ser expressa por uma medida exata. Escreveu alguns tratados matemáticos e realizou descobertas a respeito da teoria do retângulo dourado. Também escreveu tratados sobre figuras geométricas conhecidas como poliedros.

Segundo pensadores antigos, ela teria desenvolvido um trabalho matemático relevante no campo da proporção áurea. Esses estudos influenciaram vários arquitetos e autores de obras de artes no desenvolvimento harmônico de seus projetos ao longo da história. Ademais, ajudou a divulgar os conhecimentos sobre o número de ouro. Esse número, era visto pelos pitagóricos como um número místico que seria representado através de um símbolo em formato de pentagrama. O pentágono estrelado teria representações simbólicas na vida dos pitagóricos como o silêncio para não revelarem os segredos da escola, a amizade como forma de solidariedade entre eles e a comunhão tanto entre eles, bem como também, entre a carne e o espírito. Urge dizer que ela também preservou os escritos da escola pitagórica, contribuindo para que os ensinamentos da escola fossem divulgados e não se perdessem no tempo. Existem relatos que afirmam que Theano teria sido torturada, após a morte de Pitágoras, para que revelasse segredos ligados à escola pitagórica e que ela teria resistido sem revelar seus conhecimentos, pois os segredos aprendidos só deveriam ser revelados para pessoas iniciadas.

Filosofia Moral

Ao divulgar seus ensinamentos, ela dizia que os saberes deveriam ir além da teoria matemática e se direcionar também para a práxis humana. Durante sua contribuição aos estudos da escola pitagórica, ela escreveu um tratado chamado de “sobre a piedade”, em que relatava a responsabilidade da mulher na manutenção da ordem, da justiça e da harmonia. Sobre a questão da vida, ela ensinava sobre a importância de manter as tradições e os valores morais, e que no casamento era relevante que a mulher se destacasse mais nas coisas de casa do que na atividade pública. Ela explicava que o homem exercia um papel familiar externo a casa e a mulher desempenhava um papel interno, nesse sentido, a mulher deveria se esforçar para educar bem os filhos, pois seu papel interno teria mais importância na educação familiar, e como consequência, isso afetaria toda a sociedade, desse modo, se a mulher falhasse em seu papel, a criança poderia se tornar um estorvo social. Nos principais ensinamentos dos valores familiares, ela explicava sobre questões filosóficas femininas, sobre casamento, sobre ética e sexualidade. Teorizava ideias a respeito da educação infantil, relacionando-as com os valores morais da escola pitagórica. Chegou a ensinar para alguns médicos da época que alguns fetos poderiam nascer de maneira prematura com apenas sete meses de gestação.   

Filosofia Cosmológica

Escreveu uma obra sobre a construção do universo onde ela terce um paralelo entre a criação dos cosmos e a visão ontológica dos pitagóricos. Theano acreditava que o universo era uma esfera fechada e finita e que os planetas giravam ao redor da Terra em um movimento circular perfeito. Ela afirmava também que a distancia entre as esferas celestes e o fogo central estaria na mesma proporção que os intervalos das escalas musicais. Em um tratado a respeito da origem do cosmos, ela teria dito que ele seria formado por várias esferas concêntricas como o Sol, a Lua, as Estrelas, a Terra, e a Contra-Terra. Além também dos  planetas conhecidos na época como Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Em relação às estrelas ela acreditava que elas seriam imóveis e estáticas. Durante alguns estudos com seu mestre Pitágoras, ela teria lhe ajudado a identificar a densidade do “éter” e a resolver vários problemas científicos.

Obras:

Sobre a piedade; Sobre a Sabedoria; Cosmologia; Teoria dos números; Teorema da proporção áurea; A vida de Pitágoras; Sobre a virtude; Construção do universo; Carta a Eubula; Conselhos Femininos; Carta a Timeonide; Comentários Filosóficos.

Anedotas:

Conta-se que certo dia um discípulo de Pitágoras que estava admirado com a beleza de Theano questiona ao seu mestre a respeito da idade dela. Pitágoras então teria respondido com um enigma matemático: “Theano é perfeita e a sua idade é um número perfeito. A idade de Theano, para além de ser um número perfeito, é o número das suas extremidades multiplicado pelo número de admiradores, que é um número primo”.

Relata-se que ao ensinar sobre a moralidade sexual na escola pitagórica, Theano advertia para as discípulas que as mulheres deveriam esquecer a vergonha na hora do sexo com o marido, despir-se da modéstia juntamente com a roupa, mas logo ao amanhecer, quando se levantassem da cama vestissem junto com a roupa, seu pudor novamente. Pois a mulher teria virtudes inerentes a sua condição de mulher. Quando questionada pelos discípulos o que seriam essas qualidades femininas então, ela respondeu: "Aquelas pelas quais me chamo de mulher.”.

Certa vez ao ser questionada por uma aluna sobre em quantos dias à mulher se tornaria pura novamente após ter tido relações com um homem, ela teria respondido: “Se for o seu marido, imediatamente. Mas se for um amante estrangeiro, nunca mais!”.

Curiosidades.

As filhas de Theano com Pitágoras seriam:

Mulheres - (Esara, Damo, Myia e Arignote).

Homens - (Mnesarchus, Telauges e Arimnesto). 


Filosofia Sapiencial

- "O amor é a paixão da alma no tempo livre". 

- "A beleza vem da moderação e isso é atributo das mulheres nobres".

- "O número é o princípio da realidade e o princípio da individualidade".

- “É melhor confiar em um cavalo desenfreado do que em uma mulher tola”.

- “Não eram os números, mas a ordem dos números, o que governa o universo”. 

- "A mulher que vai para a cama com um homem deve adiar a modéstia com a saia e colocá-la novamente com a mesma roupa".

- "Daquilo que for ser dito, pense antes de falar, o que não é bonito dizer é porque é constrangedor, então não fale, fique quieto. E o que não é bom falar é porque é vergonhoso, então, cale-se!”.

- "Bem, a vida seria realmente uma festa para os ímpios que cometeram iniquidades. Depois de morrer, se a alma não fosse imortal, a morte seria um achado feliz".

- “Ouvi dizer que os gregos pensavam que Pitágoras havia dito que tudo havia sido gerado pelo número. Mas essa afirmação nos perturba: como podemos imaginar coisas que não existem e que podem gerar? Ele disse que não todas as coisas nasceram do número, mas que tudo foi formado de acordo com o número, já que a ordem essencial reside no número, e as mesmas coisas podem ser nomeadas primeiras, segundo e assim por diante, somente quando elas participam desta ordem".


Fontes:

GALVÃO, Mateus. História das mulheres na matemática: Uma Proposta para a sala de aula. Juazeiro: UNIVASF – Profmat, 2019.

GLEICHAUF Ingeborg. Mulheres filósofas na história: da antiguidade ao século XXI. Vilassar de Dalt: Icaria editorial, 2010.

GORMAN, Peter. Pitágoras: uma vida. Londres: Routledge & Kegan, 1979.

HUFFMAN, Carl. A História do Pitagorismo. Cambridge: University Press, 2017.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres.  2ª ed. Brasília. UnB. 2008.

MARIO, Miller. Fragmentos e cartas de Mulheres Pitagóricas. Bordeus: De la Masnie. 1980.

MÉNAGE, Gilles. História das mulheres filósofas. Herder Editorial. 2012.

OLSEN, Kirstin. Cronologia da História da Mulher. Greenwood: Press,  1994.

PIOVEZANE, Helenice Vieira. As mulheres na filosofia: A antiguidade. Vol. 1. São Paulo. Nova Acrópole. 2016.

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WAITHE, Mary Ellen. The history of women philosophers. Vol. 1. Boston: Martinus Nijhoff, 1987.