domingo, 18 de abril de 2021

Hípias de Élis

Hípias de Élis – (460 a 399) a.C    

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da Grécia antiga pertencente à escola dos sofistas.  Ficou muito conhecido por ter uma excelente memória. Além disso, possuía uma vasta cultura, sendo admirado por ter grande força atlética e beleza estética. O domínio de seus conhecimentos era visto como uma espécie de saber enciclopédico. Foi também considerado um doxógrafo e compilador de várias obras. Sua vasta coletânea produzida e compilada de maneira ordenada permitiu que muitos filósofos e historiadores, pudessem sistematizar o pensamento da filosofia antiga, contribuindo assim, de maneira notável, com o registro escrito da História da Filosofia. Foi muito criticado pelos filósofos da época devido à prepotência que tinha, em relação ao domínio de seus conhecimentos. Gabava-se também de ganhar muito dinheiro com seus ensinamentos, por isso, era mal visto por alguns pensadores de seu tempo. Além disso, julgava ser conhecedor de tudo e afirmava poder discursar sobre qualquer tema. É considerado um dos criadores da etnologia (ciência que estuda a cultura através de documentos). É autor da célebre frase: “A lei é o tirano dos Homens”. Estudou as áreas da Filosofia, História, Poesia, Música, Educação, Artes, Matemática, Astronomia, Direito e Política. Era tido como um polímata, devido ao seu vasto conhecimento erudito em várias áreas do saber. Acredita-se que teria sido discípulo de um filósofo conhecido por “Hegesidamus”. Seu principal objetivo como professor era ensinar a arte da argumentação (erística), pois desejava que seus pupilos pudessem discutir qualquer tema com maestria.

Desempenhou trabalhos manuais de tecelão e sapateiro, sendo posteriormente a essa fase, nomeado Embaixador de sua cidade natal. Alguns historiadores da filosofia o consideram como o “pai da mnemônica”, por ter sido o criador do método da "Mnemotécnica" (arte da memória). O filosofo Platão o cita em alguns de seus diálogos como “Hípias maior” e “Hípias menor”. Entre suas principais teorias estão: “o conceito de virtude universal, o relativismo da moral, o poder e a igualdade entre os indivíduos”. É visto também como um dos primeiros pensadores a criar teorias sobre a arqueologia. Destacou-se na área financeira tendo inclusive adquirido riquezas com o ensino. Na área da literatura ele escreveu tratados, elegias, tragédias, versos épicos e alguns textos em prosa. Sua obra jurídica também colaborou para que o pensamento democrático grego se consolidasse. De suas obras restaram-se poucos fragmentos. Pesquisadores apontam que ele possivelmente tenha escrito uma obra de nome “Synagogé” em que descreve problemas filosóficos, registros históricos e uma lista com vencedores das olimpíadas. Nasceu por volta de 460 a.C e veio a falecer aproximadamente, em 399 a.C. 

Filosofia da Natureza

Defendia o estudo das ciências da natureza, pois acreditava que através dela o homem produziria um caminho correto para uma boa conduta na vida. Na sua visão, para que o homem pudesse compreender a natureza ele precisaria estudar o “todo” de maneira distinta das “partes” que o formariam, isto é, o universo como um todo seria constituído por seres particulares aos quais ele denominava de “coisas”. Hípias acreditava que a natureza se apresentava de forma plural, daí explicava que as “coisas” não poderiam ser formadas de uma única substância, mas sim de múltiplas partículas. Essas “coisas” existiam independentemente do homem ter dado nome a elas. Dessa forma, para ele, a realidade seria eterna se não existisse o vazio no universo. Dizia que o universo possuía um formato esférico.

Filosofia Moral

Descreveu conceitos sobre a ideia do belo e da moral, antecipando conhecimentos futuros sobre a estética relacionada com a ética. Dizia não haver diferença entre o homem mentiroso e o verdadeiro, pois acreditava que o conceito de “poder” seria a capacidade que o indivíduo tinha de fazer o que quisesse, ou seja, poder dizer a verdade ou a mentira de acordo com sua habilidade. Para ele, um indivíduo ignorante não era capaz de ser um mentiroso, porque não seria hábil na arte de enganar. Explicava que a verdade existe mesmo que o homem não tenha a capacidade de conhecimento total dela. Nesse contexto, ele destacava que a lei natural era essencialmente o sustentáculo da moralidade. Transcorria que a ideia de justo e bom eram relativas para determinadas situações.

Filosofia da Educação

Defendia, na área do ensino, o objetivo da busca pela excelência, apresentando ao estudante, a possibilidade dele poder escolher aquilo que quisesse aprender. Dessa maneira, uma boa educação levaria o aluno a prática do aperfeiçoamento e a solução de suas deficiências. Entendia que o ensino da virtude se relacionava com a ideia de variedade de conhecimentos, por isso, para um conhecimento ter qualidade, ele precisaria de quantidade. Esse método, adotado por Hípias, era chamado de “polymathía” (domínio de todos os saberes) ou saber enciclopédico. Explanava que os cidadãos sábios de todas as nações eram semelhantes em virtudes, portanto deveriam se juntar em torno de uma virtude universal. O conceito de nacionalidade precisaria ser superado e no seu lugar deveria ser construída a ideia de humanidade, como se todos vivessem em uma espécie de “aldeia global” e com pensamentos igualitários. Esses pensamentos conduziriam o ser humano a elaborar políticas públicas práticas, que atendessem as necessidades básicas, para a sua dignidade, pois seriam baseadas em virtudes naturais. Explicava que os conhecimentos deveriam ser aplicados de maneira prática, com isso, ele produzia vestimentas e coisas de uso diário.

Filosofia do Direito

Argumentava que a lei seria apenas um disfarce para o poder. Na sua teoria jurídica, ele condenava conceitos ligados ao direito positivado e advertia da importância de um direito natural, que pudesse transcender alguns estágios de percepção da realidade. Ele acreditava que existiam três formas de compreensão da realidade que seriam: as leis espaciais, os princípios temporais e as regras universais. Posto isto, ele explicava que os homens, ao elaborarem as leis positivadas, ficavam submersos em um mundo, que não entendiam as leis do espaço, então, como consequência, também não conseguiam compreender os princípios temporais e nem transcender na busca de preceitos universais. Dessa maneira, ao criar suas próprias leis positivadas, o homem acabava esquecendo esses princípios, que eram regulados pela natureza. O direito, na sua concepção, deveria ser naturalista, pois segundo ele, o homem precisa conhecer as leis naturais e para isso seria necessário conhecer a natureza. Dizia que o “nómos”, isto é, a lei, obrigava o homem a se tornar um escravo e que as desigualdades, que eram impostas, não possuíam legitimidade, pois era fruto de uma lei e não da natureza. Defendia o igualitarismo ao dizer que não existiria distinção natural entre homens livres e escravos. Condenava o sistema vigente da magistratura, que selecionava para os cargos, pessoas imaturas e incompetentes.

Filosofia da Matemática

Sistematizou partes da história da geometria antiga. Destacou-se na matemática ao descobrir o conceito da trissectriz ou quadratriz em uma curva no círculo. Essa curva mecânica tem essa etimologia porque pode ser usada para formar uma curva dentro de um quadrado e também para trissecar um ângulo. A quadratriz pode ser definida como a intersecção de duas linhas em movimento. Alguns matemáticos utilizaram essa curva em um antigo problema sobre a quadratura do círculo e também sobre a trissecção do ângulo. Ele também formulou os primeiros conceitos sobre a chamada “equação da grade”.

Hípias Menor – Diálogo Platônico

Aqui Platão trata da questão do homem mentiroso e do verdadeiro, ele descreve que o personagem Hípias adverte que o homem mentiroso não é diferente do homem que diz a verdade, pois ele pontua o significado de poder como sendo um atributo que uma pessoa adquire tanto para “poder” dizer a verdade quanto à mentira. Nesse diálogo o personagem Sócrates questiona Hípias sobre seu discurso homérico, em que ele descreve argumentos dos personagens Aquiles e Ulisses, que contestavam um dilema ético. O embate segue apresentando as virtudes que existiam entre eles, mostrando que enquanto Áquiles possuía um excelente atributo de heroísmo, Ulisses tinha grande astúcia e esperteza. O diálogo segue entre o paradoxo moral que se estabelece na argumentação de que o homem mais capaz de dizer a verdade pode ser também o mais capaz de mentir e a ideia de que o homem verdadeiro pode não ser superior ao homem mentiroso.

Hípias Maior – Diálogo Platônico

Nesse diálogo, Platão transcorre sobre a ideia do belo descrevendo algumas definições sobre o que pode ser considerado belo. O conceito de belo, nessa época, abordava o tema não apenas em seu formato estético, mas também com uma conotação do que é eticamente o bem e moralmente a justiça. A sua visão totalizante, do que pode ser o belo, se traduz de maneira ontológica e metafísica, pretendendo esgotar o tema, em sua melhor completude. Assim o horizonte de abrangência do que pode ser delimitado como belo, ganha um amplo terreno de possibilidades. Para Hípias, a ideia de belo se fundamentava, em uma visão particular para cada um, ou seja, não seria possível debater tal questão, pois seria mera opinião. O belo ou o feio nunca seriam algo que pudesse ser descrito de forma universal por todos. Os personagens Sócrates e Hípias travam um debate argumentativo, em que as duas visões dos personagens, sobre o que é o belo ou o justo, se completam, porém, sem que eles cheguem a uma conclusão definitiva. 

Filosofia Sapiencial

 + “A lei é o tirano dos Homens”.

+ “É melhor seguir as leis da natureza do que as leis humanas”.

+ “A felicidade não é compatível com o lucro ou com a carência”.

+ “Por natureza ninguém nasce escravo, a lei é que tiraniza o homem”.

+ “A Natureza une os homens, enquanto a lei frequentemente os divide”.

+ “Todos são iguais não existe distinção entre homens livre e escravos, gregos ou bárbaros”.

+ As verdadeiras leis são somente as da natureza: "São válidas em cada país e do mesmo modo".

+ “O semelhante é por natureza parenta do semelhante, mas a lei, tirano dos homens, é muitas vezes contrária à natureza”.

+ “Como tomar as leis a sério, como acreditar ser necessário cumpri-las, se os próprios legisladores as infringem e modificam?”.

+ “Para quem não é uma unidade, não obstante as virtudes individuais constituírem os postulados externos para a virtude absoluta que, através da presença das virtudes separadas, é transformada em virtude total”.

+ “Ó homens aqui presentes! Creio-vos a todos unidos, parentes e concidadãos, não por lei, porque o semelhante é por natureza parente do seu semelhante, mas a lei, como tirana dos homens, em muitas coisas emprega a violência contra a natureza”.

+ “O verdadeiro saber será! à imagem e semelhança do Cosmos, um todo; o enciclopedismo é, para o sábio, um dever e, de modo algum, uma vaidade. O discurso erudito tem, para o espírito, uma trama que é do mundo; será, pois, um discurso totalizador, e sua totalização não representará a nova reiteração de um real reduzido ao mesmo, mas um fazer ver a complexidade e de integrar, sem as perder, as infinitas variedades às quais o real aparece sempre novo”.

Obras:

Os discursos da circunstância; As obras eruditas e as obras poéticas; Os nomes dos povos; Diálogo Troiano; Elegias; Tratados arqueológicos; Anônimo Iâmblico; Discursos Duplos.  

Fontes:

AZEVEDO, Maria Teresa Schiappa. Hípias Menor. Lisboa: Edições 70, 1999.

CAPPELLETTI, Angel. Os Hípias menores e a primazia do conhecimento em Platão. Universitas Philosophica,  2016.

CHAMPLIN, Russel. Norman. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia.11ª ed. São Paulo: Hagnos, 2013.

CHISHOLM, Hugh. Hippias of Elis . Enciclopédia Britânica. Cambridge University Press. 1911.

CURADO, Eliana Borges Fleury. O Movimento Sofista e o ensino da Areté. Tese de Doutorado. Goiânia: UFG, 2010.  

DIELS, Hermann. Os sofistas mais velhos. Indianápolis: Hackett Pub. 200.

GHENT, Davila. Um estudo sobre o sofista Hípias de Élis. Cidade do México: Universidade Pan-Americana, 2018.

GOMES, Pinharanda. Filosofia Grega Pré-Socrática. 4ª ed. Lisboa: Guimarães Editora, 1994.

KERFERD. George. O movimento sofista. trad. Margarida Oliva. Edições Loyola, São Paulo: 2003.

HADOT, Pierre. O que é a Filosofia antiga? São Paulo: Lisboa, 1999.

O’GRADY, Patrícia. Os Sofistas: Uma Introdução. Nova Iorque: Bristol Classical Press, Bloomsbury. 2008.

PLATÃO. Hípias Menor. Lisboa: Gaudium Sciendi, 2013.

_________________Protágoras. trad. Carlos Alberto Nunes, Ed. UFPA, 2002.

REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. História Da Filosofia: Filosofia pagã antiga, v.1. São Paulo: Paulus, 2003.

SOUSA, Ana Maria Alexandre Alves; PINTO, Maria. José. Vaz. SOFISTAS. Testemunhos e Fragmentos. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.

VASCONCELOS, José. Democracia Pura, Editora Nobel, 2006.

VERNANT, Jean. Pierre. O Homem Grego. 1ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1994.

XENOFONTE. Econômico, São Paulo: Martins Fontes, 1999.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Pródico de Céos

Pródico de Céos – (465 a 399) a.C 

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo sofista da Grécia antiga que nasceu na ilha de Céos próximo a região Ática. Teria sido um exímio conhecedor da política e também teria iniciado alguns dos pensamentos céticos. Ele definia um sofista como sendo um indivíduo dotado de um saber intermediário entre o filósofo e o político, pois teorizava que um bom sofista tinha que unir a sabedoria e a reflexão do filósofo com o pragmatismo e a eloquência do político, isso seria necessário para o bem da sociedade. Condenava o homossexualismo que era uma prática comum na região onde ele vivia. Alguns historiadores dizem que ele explicava que a origem das religiões teria se dado através da personificação dos elementos da natureza. Sua filosofia é vista como sendo um tipo de ceticismo-pessimista no campo do conhecimento e como relativista no âmbito da ação individual-coletiva. Ficou conhecido como o “Precursor de Sócrates”.

Os filósofos Platão, Sexto Empírico e Aristófanes citam em suas obras que Pródico tinha bons conhecimentos nas áreas de Astronomia, Astrologia, Cosmogonia e Cosmologia. Ele se Tornou discípulo de Protágoras de Abdera, e além de ter sido um dos mestres de Sócrates, também teve como aluno os seguintes proeminentes filósofos: Isócrates, Eurípedes, Terâmenes e Tucídides. Segundo Platão, o filósofo Sócrates chegou a enviar alguns de seus alunos para ter aulas iniciais com Pródico, pois eles ainda não estariam preparados para terem instrução socrática. Exerceu o cargo de embaixador na cidade de Atenas e escreveu uma obra chamada “As estações” que foi dividida em dois tratados: “Sobre a natureza e Da natureza do homem”. Tinha um físico muito franzino e por isso teria sido dispensado de alguns deveres civis que eram obrigatórios aos cidadãos de sua “pólis”. Também se menciona que ele tinha uma voz grave e uma encantadora sabedoria. Nasceu em 465 a.C e especula-se que tenha falecido por volta de 399 a.C.

Filosofia da Mitologia

Pródico descreve a origem das sociedades a partir da junção de elementos da natureza com conceitos divinos. Esse tipo pensamento é chamado de teologia natural ou filosofia da mitologia.  A partir desses conceitos, ele afirmava que o desenvolvimento da humanidade teria forte relação com as divindades que influenciavam na natureza e na agricultura. Por conta disso, ele considerava como deuses o Sol, a Lua e os quatro elementos (terra, água, fogo e ar). Daí ele acreditava que esses seres poderiam realizar mutações que davam origem à vida e se transformavam em outros elementos da natureza. Nesse processo de transformações entre a vida do homem e as coisas da natureza, Pródico explicava que existiam “entes” necessários que precisavam ser descobertos. Ele chamava esses elementos de “Descobridores”, pois seriam essenciais para a vida do homem e para sua relação com a natureza. Os “descobridores” eram fundamentais para a realização das metamorfoses nessas relações entre o divino, o homem e a natureza.

Explicava que a observação e o estudo da natureza eram muito úteis ao ser humano e ao desenvolvimento da sociedade. Definia que os homens tinham uma visão dos deuses segundo seus interesses utilitários. Nesse sentido, os homens julgavam que os elementos da natureza e os astros eram meios de objetivarem sua compreensão fictícia a respeito da realidade.  Afirmava que em relação a Deus, primeiro a humanidade adorava as grandes forças da natureza da qual dependiam, e depois desse estágio inicial, passavam a adorar os homens notáveis da humanidade que realizaram grandes feitos.

Filosofia da Linguagem

Ele tinha ótimos conhecimentos no campo da sinonímia, sua arte de ensino se enquadrava no que era denominado por sinonímica. Nesse sentido, a partir de palavras sinônimas ele traçava uma investigação sobre os fatos. Por isso ele acreditava que duas opiniões opostas sobre um mesmo assunto não eram totalmente diferentes, desse modo, seria necessário investigar se o fenômeno estudado teria palavras com sinônimos muitos próximos que levassem os interlocutores a pensarem de maneira diferente. A realidade poderia ser investigada por esse prisma e posteriormente aconteceria uma interseção desses conceitos. Dizia que não era possível existir contradição e que era necessário analisar o motivo particular para cada caso concreto. Em vista disso, Pródico acreditava que as discussões existiam porque as pessoas se equivocavam ao achar que estavam falando sobre assuntos divergentes quando na verdade haveria uma ligação sinonímica sobre o fato.

Por isso ele defendia que as palavras deveriam ser rigorosamente bem definidas em um discurso para que o palestrante não fosse mal interpretado, dessa maneira, as palavras tinham que ser precisas em seus significados, com definições exatas na formulação de ideias e conceitos. Pródico era preciso no uso das palavras, ele se esforçava para estabelecer a definição mais apropriada para cada palavra. Devido seus esforços e a ênfase no estudo da linguagem, ele era visto por alguns historiadores como sendo o primeiro filósofo grego a desenvolver um pequeno dicionário. Platão o via como sendo uma pessoa apaixonada pelo sentido correto das palavras e pelo significado de suas etimologias, sabendo descrever com excelência uma análise semântica de expressões afins. Ele buscava uma distinção perfeita dos significados das palavras para que elas não fossem utilizadas de maneira inapropriada. Segundo alguns pensadores, suas ideias teriam influenciado Sócrates no desenvolvimento do método da “maiêutica”.

Filosofia Moral

Dizia que o trabalho poderia servir como terapia para as dores da vida. Foi um grande orador tendo se especializado no ensino da ética. Ele compreendia a ética com certo pessimismo, mesmo assim, preocupava-se em ensinar os fundamentos da moral para seus alunos. Suas ideias também eram consideradas relativistas em certos pontos, pois defendia que o que era bom para uns, poderia não ser bom para outros, dessa maneira, não existiria um critério absoluto a respeito do julgamento de valores. Argumentava que um bom cidadão deveria ser treinado tanto para a realização de assuntos do lar como para questões de interesse público.

Alguns pensamentos desenvolvidos pelo Pródico eram explicados através de fábulas, desse modo, os pesquisadores atribuem a ele também um apólogo chamado de “Hércules na encruzilhada”, em que ele descreve a bifurcação existencial entre uma vida ociosa e uma vida virtuosa. O filósofo Xenofonte descreve essa fábula sobre um herói conhecido por Héracles ou Hércules da qual teria sido formulada por Pródico. Nessa obra ele destacava os pontos bons e ruins que poderiam surgir para o ser humano quando o homem realiza a escolha de um desses caminhos. A fábula conta que o Herói Héracles na flor da puberdade se retira para um lugar sozinho, e lá passa a refletir sobre a existência. Em dado momento, surge à figura de duas mulheres com dois propósitos de vida diferentes para se alcançar a felicidade. A primeira está relacionada aos prazeres da carne e a segunda as virtudes de excelência. Para se chegar à primeira via não é necessário muito esforço e a recompensa é um prazer passageiro, por isso o homem tende a se deixar seduzir com mais facilidade. A segunda via exige mais esforços e a dificuldade garante prêmios permanentes e alegrias que perduram por mais tempo. Os dois caminhos seguem; um para a estrada do que é sensível e o outro para a rota do que é mais racional. Nesse contexto a obra reflete sobre os caminhos da excelência, da disciplina e do trabalho.

Filosofia Sapiencial

+ “O dobro do desejo é o amor, e o amor a dobrar é a loucura”.

+ “De tudo o que é bom e belo, os deuses nada concedem aos homens sem esforço e dedicação”.

+ “O melhor modo de argumentar não deve ser nem muito breve, nem muito longo, mas na medida certa”.

+ “É necessário investir no esforço e no trabalho para se conquistar o que se deseja, isso também proporciona um corpo saudável e uma mente Sã”.

+ “Em virtude da vantagem que daí derivava, os antigos consideraram como deuses o sol, a lua, as fontes e, em geral, todas as forças da natureza que influem sobre a nossa vida, como, por exemplo, os egípcios fizeram em relação ao Nilo”.  Nessa frase Pródico estabelece as bases para uma teoria naturalista da religião, dizendo que cada cultura diviniza o que é mais útil para ele, através dos elementos da natureza.

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5º edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ARISTÓFANES. As Nuvens. Ed. Victor Civita. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. 3. ed. Brasília: Ed. d UnB, 2001.

BERGSON, Henri. Curso sobre a filosofia grega. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

CASSIN, Barbara. Ensaios Sofísticos. São Paulo: Siciliano, 1990.

DIELS, Hermann. Os sofistas mais velhos. Indianápolis: Hackett Pub. 2001

DILLON, John. e GERGEL, Tania. Os sofistas gregos. Londres: Penguin Books. 2003.

ESTOBEU, Giovanni. Antologia. Alessandria: Dell Orso, 2008.

FINLEY, Moses Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1970.

GUTHRIE, William. A history of Greek philosophy. Londres: Cambridge Univ. Press. 1962.

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

KERFERD, George. O movimento sofista. trad. Margarida Oliva. Edições Loyola, São Paulo: 2003.

MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013.

PINTO, Maria. José. Vaz. Sofistas: Testemunhos e Fragmentos. Lisboa: Imprensa Nacional. 2005.

PLATÃO. Protágoras. Trad. Carlos Alberto Nunes, Ed. UFPA, 2002.

REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993.

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Trad. de Mário da Gama. São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.

VERNANT, Jean. Pierre. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 2002.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Esara de Lucânia

Esara de Lucânia - (400 a 300) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi uma filósofa da antiguidade grega pertencente à escola pitagórica. É considerada uma das filhas de Pitágoras. Sua filosofia se debruçava em questões direcionadas para a metafísica que descreviam conceitos sobre a alma humana. Seu estudo sobre a natureza humana são ideias que relacionavam o direito ético-social com a moral individual. Sua obra é considerada muito importante para a compreensão da filosofia de outras pitagóricas de seu tempo, principalmente de sua mãe Theano e suas outras irmãs. Ela fez parte do grupo de mulheres pitagóricas que fundaram essa escola de pensamento. Acredita-se que ela tenha estudado as áreas da Matemática, Música e Filosofia. Esara também ficou conhecida na filosofia com os seguintes nomes: Aresas ou Aesara de Lucânia. As informações biográficas a seu respeito são muito escassas. De acordo com o historiador Estobeu, Esara desenvolveu uma teoria que falava sobre o conceito de natureza tripartida da alma. Ele chegou a preservar um fragmento da obra dela, em formato de prosa dórica. Provavelmente liderou a escola pitagórica por um curto período. Ainda não é possível descrever com clareza a data exata de seu nascimento e de sua morte, sabe-se apenas que ela floresceu, em meados do século IV a.C.

Filosofia da Natureza

Na sua obra “sobre a natureza humana” Esara refletia a respeito dos princípios da ética e da justiça, dialogando sobre como essas características se refletiam na alma humana. Suas ideias traçavam um paralelo entre alma, família e cidade. Ela descrevia que a natureza humana é como se fosse um modelo da lei e da justiça.  Explicava que assim como a lei e a justiça regulam a cidade, também seria possível investigar e descobrir vestígios dessas virtudes morais no seio familiar e na alma humana. Dissertava que Deus teria feito o homem diferente dos animais, pois somente ao homem teria sido dada a capacidade de ordenar a lei e a justiça, em sua alma. Toda essa ordenação estaria relacionada com a singularidade das partes e com a simetria entre elas. As relações existentes entre as partes que governavam e eram governadas iriam construindo o equilíbrio que se denominava de “legalidade da alma”, ou seja, a lei natural. Para ela, a melhor natureza humana (alma) que essas partes poderiam formar, estaria relacionada com um processo de associação entre as partes, dessa maneira, a forma mais apropriada era combinada do seguinte modo: o elemento “agradável” com a “excelência” e o elemento “prazer” com a “virtude”, pois assim, o intelecto conseguiria construir uma harmonia entre a “virtude” e a “educação”.  Sua obra dialogava entre uma visão macro e micro, desse sistema descrito por ela.

Filosofia da Mente

A sua teoria esclarecia que a alma possuía três partes: intelecto, impulso e o apetite. O intelecto seria responsável por executar o conhecimento e a prudência. O impulso era encarregado de operar a força e o poder. E o apetite estaria incumbido de controlar o amor e os afetos. Todas essas partes estariam ordenadas entre si, realizando uma tripla operação. Nesse sentido, ela argumentava que uma das partes tenderia a se tornar superior em relação às outras, daí, a parte que se destacava, dentre essas três, se tornava mais poderosa e passava a manter o controle sobre as outras duas. Desse modo, a mais fraca se tornaria inferior e passaria a ser controlada. E uma delas se tornava intermediária, governando a mais fraca e sendo governada pela mais forte. A partir disso, acontecia um processo de harmonia dinâmica entre as partes. 

Segundo ela, o processo de introspecção profunda de uma pessoa poderia gerar, nessa pessoa, a capacidade de compreensão dos fenômenos filosóficos naturais das leis e o entendimento das estruturas morais que se relacionam com essas leis. Desse modo, ela argumentava que seria possível através da reflexão, encontrar um fundamento filosófico natural da lei e da moral. Dizia que havia uma integração das partes da alma e que para que ocorresse essa integração seria necessário que houvesse uma harmonia a qual ela chamou de “justiça”. Por isso, a lei e a justiça seriam os pilares que sustentavam dentro desse processo: a harmonia, a igualdade e o equilíbrio da alma. Ao investigar a natureza da alma, ela acreditava na possibilidade de compreensão da estrutura jurídica do sujeito de maneira individual e social. O sentido da vida de um cidadão, homem ou mulher, seria propagar a justiça e a harmonia na cidade e no lar. Esse papel, de ajuda mútua e equilíbrio entre os cidadãos, era o que formaria a base de sustentação de uma sociedade.

Filosofia Sapiencial

+ “O lar é um microcosmo do estado”.

+ “A melhor vida humana é aquela em que o intelecto harmoniza prazer e virtude”.

+ “A natureza humana me parece fornecer um padrão de lei e justiça tanto para o lar quanto para a cidade”.

Obra:

- Sobre a Natureza Humana

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5º ed. São Paulo: Martins, 2007. 

BRUMBAUGH, Roberte. Sherrick. Os filósofos da Grécia. Albany: Universidade de New York, 1981.

BONELLI, Maddalena. Filósofos, professores e Imperatrizes: Por um novo cânone da História da filosofia antiga. Vol. 10. História e Literatura. Roma: Letture.org.  2000.

BURNET, Jonh. A aurora da Filosofia Grega. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: PUC, 2006.

COPLESTON, Frederick. História da Filosofia. Londres: Search Press, 1946.

ESTOBEU, Giovanni. Antologia. AlessandriaDell Orso, 2008.

FERREIRA, Maria Luísa Ribeiro. As Mulheres na Filosofia. Lisboa. Colibri, 2009.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2ª ed. Brasília: UnB. 2008.

MÉNAGE, Gilles. História das mulheres filósofas. Herder Editorial. 2012.

MIGLIORATI, Manuela. Le Filosofe della Scuola Pitagorica: il caso di Esara di Lucania. Master: Univ. Genéve, 2019.

OLSEN, Kirstin. Cronologia da História da Mulher. Greenwood Press 1994.

PACHECO, Juliana. Filósofas: A presença das mulheres na filosofia. BRASIL. Editora FI. 2016.

PIOVEZANE, Helenice. Vieira. As mulheres na filosofia: A antiguidade. Vol. 1. São Paulo. Nova Acrópole. 2016.

POMEROY, Sarah. Mulheres pitagóricas: Sua história e escritos. Baltimore: Universidade Johns Hopkins, 2013.

PORFÍRIO. A vida de Pitágoras. Barcelona: Planeta de Agostini, 1996.

WAITHE, Mary Ellen. The history of women philosophers. Vol. 1. Boston: Martinus Nijhoff, 1987.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Diógenes de Apolônia

Diógenes de Apolônia- (499 a 428) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo grego da antiguidade apelidado de “o físico”. Provavelmente tenha sido um dos últimos filósofos considerados pré-socráticos, pois resgatou alguns pensamentos da primeira escola filosófica grega, ou seja, a chamada escola de Mileto. Era visto como um filósofo pertencente à classe dos filósofos ecléticos. Os ecléticos buscavam juntar ideias de duas ou mais escolas de pensamento. Alguns pesquisadores atribuem a ele a criação dessa escola, pois sua obra se contrapõe a alguns dos conceitos pluralistas, mas se assemelha com outros. Dessa forma, suas ideias dialogam entre os conceitos monistas e as teorias hilozóicas¹, isto é, matéria dotada de consciência. Por conta do fato de ter relacionado às concepções do “ar” de Anaxímenes com as ideias do “noûs” de Anaxágoras, é que seu sistema de pensamento ficou definido como sendo uma espécie de ecletismo. Tentou unificar parte das teorias desses dois filósofos propondo como “arché” uma substância mesclada de “ar-razão”, ou seja, a mistura entre “ar” e o “logos”.

As teorias de Diógenes superam de forma teleológica as ideias de seus mestres, chegando a influenciar os filósofos de sua época e o pensamento socrático. Os estudos do filósofo Arquelau de Atenas, por exemplo, possui muitas semelhanças com as ideias de Diógenes de Apolônia. Seu pensamento se diferenciava dos outros filósofos do seu tempo por estabelecer um conceito de racionalidade para o principio gerador. Pensadores acreditam que ele pode ter sido discípulo do filósofo Anaxímenes, esse fato foi confirmado pelo filósofo Antístenes. Dedicou-se as áreas da Medicina, Filosofia, Física, Astronomia e Meteorologia. Relatos antigos dão conta de que seu pai era um forte banqueiro local, conhecido pelo nome de “Apolotêmis”. Assim como Sócrates, Diógenes despertou a desafeição e a inveja de alguns grupos, por isso sofreu perseguições e acusações, tendo que fugir de sua cidade natal. Nasceu por volta de 499 a.C, na cidade de Apolônia e veio a falecer em 428 a.C.

Filosofia da Natureza

Mesmo bebendo da fonte dos filósofos pluralistas, sua doutrina é considerada monista, pois ele acreditava que se houvesse uma multiplicidade de elementos geradores, eles não poderiam se misturar e exercer forças de uns sobre outros, ou seja, pensava a realidade como sendo formada por uma unicidade. Dito isto, teorizava que as coisas surgiam através da metamorfose de um mesmo elemento singular. Essa substância geradora seria o “ar-infinito” e teria como característica fundamental uma espécie de inteligência. Esta "inteligência-ordenadora" seria semelhante ao conceito de Deus, pois seria onipresente, onipotente e onisciente. O “ar-infinito-inteligente” governaria tudo de maneira absoluta, utilizando-se de tudo, ocupando-se de todas as coisas e de todas as partes da matéria. Essa “arché” também se caracterizaria por modificar as suas formas, preenchendo espaços vazios ou diminuindo sua ocupação. A sua transfiguração se daria de maneira infinita podendo se tornar quente ou frio, seco ou úmido, estático ou móvel. Por descrever o “ar” como algo dotado de razão e inteligência, muitos pensadores vão descrever sua doutrina como sendo o “hilozoísmo”, pois considerava que a matéria continha sensibilidade e seria animada.

Ele acreditava que todos os animais possuíam almas e que todos os seres se diferenciavam pela temperatura dessa alma, isto é, o calor ou frio variava em cada ser. Esse “ar” poderia ser mais quente em alguns aninais ou mais frio em outros, porém a substância primordial seria a mesma. O calor da alma seria o que caracterizaria a identidade dos seres, entretanto todos os sentidos seriam captados da mesma maneira, através do elemento: “ar-infinito-inteligente”. Seu conceito de alma se traduzia como sendo um “ar-pensante” que se manifestaria através do pulsar da vida. Segundo Diógenes, quando acontece a morte, esse “ar” sai do corpo e se emana para outros lugares. Para ele, a alma humana teria surgido do “ar” e esse “ar-sábio” seria responsável pelo princípio do movimento e da vida. O “ar” seria uma espécie de inteligência ordenadora ao qual orientava e engendrava o pensamento. A mente seria gerada através da presença de “ar” dentro do sangue, e que, ao correr pelas veias, penetraria no corpo e desenvolveria a inteligência. Esse “ar” gerava movimento nas coisas e os movimentos iriam, aos poucos, criando novas coisas na natureza. Tudo que existe seria uma modificação da mesma substância primordial criadora da vida.

Filosofia Cosmológica

Ele acreditava que os corpos celestes seriam semelhantes às rochas vulcânicas. Dizia que os astros fluorescentes, em que poderia ser visualizado seu brilho, possuíam ao seu redor, vários outros corpos que seriam invisíveis. Seu "logos-ordenador" explicava a formação do tempo atmosférico, do ciclo dos anos e do ciclo das chuvas. Teorizou a respeito da origem dos meteoritos. Ao observar o universo das mutações, na filosofia da natureza, Diógenes traçou um ordenamento teleológico a respeito dessas mudanças. Pontuando as alternâncias climatológicas, as mudanças meteorológicas, as estações do ano e os ciclos dos astros, tudo isso, como sendo um processo ordenado de fatos que necessitariam de uma mente geradora. Desse conceito ele exprimiu sua teoria de explicação fenomenológica para a criação de tudo.

O seu “ar-pensante” seria um elemento que possuiria fácil adaptabilidade e poderia se ajustar a várias formas físicas. Os processos de rarefação e condensação do “ar”, por exemplo, promoveriam mutações nas coisas, produzindo e modificando a qualidade do “ser”. Esse “ar-infinito-consciente” criaria vários mundos possíveis em uma série de sucessões infinitas da realidade. O “ar-pulsante” seria também a fonte inicial da vida para todos os entes animados.  Esse princípio único também era eterno e ilimitado, pois gerava e destruía tudo que existe. Esse elemento, que seria o “ar- infinito” dotado de razão propiciava a aparição das coisas, que se daria através de um desenvolvimento dinâmico e combinado desse elemento gerador. 

Filosofia Medicinal

Na área da medicina, ele estudou as questões relativas à anatomia do corpo e algumas patologias psíquicas. Explicava que as funções cognitivas do corpo eram afetadas pelo “ar” que provinha de um meio exterior ao corpo. Quando o ar de fora entrava no corpo e se misturava com o ar de dentro do corpo, isso provocava sensações que agitavam os órgãos e os sentidos. Especulou teorias a respeito das veias do corpo e da sua distribuição no organismo humano. Acreditava que o sangue continha ar e que ao percorrer toda a cabeça, ele transmitiria a sensação do pensamento, ou seja, o ar contido no sangue produzia a consciência. O esperma era visto como uma extensão do sangue, e por isso poderia também influenciar nas sensações e pensamentos. Estabeleceu critérios para a formação de diagnósticos, os quais definiam a “cor” do paciente como sendo um subsídio para a investigação da doença. O “ar” seria o fator mais importante de análise entre a saúde e a doença. Através do exame da língua, ele também relacionava a cor dela e o seu estado, como sendo fatores de reconhecimento das infecções. Ensaiou algumas pesquisas no campo da embriologia e da fisiologia. Especula-se que ele tenha escrito um tratado sobre as causas das doenças e seus remédios.

Filosofia da psique

Sua filosofia antecipava alguns questionamentos a respeito da filosofia da mente, pois ele discorria sobre a inter-relação que existiria entre a inteligência, a vitalidade, o pensamento e o prazer. Com isso, ele  conectava as ideias de correspondência da razão, da vida, da compreensão e do contentamento com os aspectos fisiológicos ligados a quantidade do “ar” e do sangue no cérebro. Em paralelo, ele também relacionava essas teorias com os conceitos de ordem e movimento da natureza. Nesse contexto, existiria uma afinidade entre suas concepções a respeito das emoções do corpo, da psique-intelectiva e a natureza ordenada.

Explicava que se o “ar” era o que gerava a vida e a vida seria dotada de uma alma, como consequência o “ar” também era alma. Esse “ar-espírito” teria uma espécie de poder absoluto sobre os fenômenos ligados à criação da vida, tanto dos seres vivos de toda a natureza, como também da existência humana. Os aspectos físicos dessa substância eram consideradas amorfas e de fácil adaptação ao ambiente. Ela geraria certas vibrações que faziam com que os corpos vibrassem juntos com esse “ar”. Esse “vento-alma” reuniria em si dois aspectos fundamentais que seriam: os conceitos “vitais” juntamente com os conceitos da “inteligência”, ou seja, inteligência e vida. O fluxo do sangue e o ritmo de “ar” por todo o corpo influenciaria o estado de ânimo de uma pessoa, gerando momentos de bem-estar ou mal-estar. Esse movimento do ar e do sangue pelo corpo seria responsável por momentos de prazer e de desânimo. Nesse sentido, a anatomia do corpo também teria um papel importante, pois essa correspondência do “ar” afetava o corpo, influenciando o pensamento e as decisões de alguém.

Filosofia Sapiencial

+ “Nada procede do não ser, e nada se resolve no não ser”.

+ "A alma é a mesma", porém "as criaturas vivem, veem e ouvem pela mesma coisa".

+ O ar sobe ao mais alto e desce ao mais baixo e preenche todos os espaços”.

+ “A terra é redonda, está ao centro, suportada pelo ar. O sol é uma espécie de pedra pomes”.

+ “Em minha opinião, a substância primordial é imensa, onipotente, eterna, imortal e sapiente”.

+ “A substância primordial existe, em si e para si, é um corpo eterno e imortal, embora tudo o mais feneça e morra”.

+ “A nossa alma é “ar-pensamento”, que, vivendo, respiramos, e que exala-se com o último suspiro quando morremos”.

+ “Todos estes entes, uma vez que se diversificam a partir de um só, se tornam diferentes em circunstâncias diversas e retornam ao mesmo”.

+ "No preâmbulo de qualquer discurso parece-me necessário estabelecer-se um princípio irrefutável e fazer-se uma exposição simples e elevada."

+ “O ar é o princípio de todas as coisas. Existem mundos infinitos e infinito é também o espaço. O ar produz os mundos ao condensar-se e rarefazer-se.

+ “Os homens e os outros seres animados vivem da respiração do ar. E isto são para eles alma e inteligência; porque, se lhes for retirado, morrem e sua inteligência se apaga”.

+ “Com as estrelas visíveis giram pedras que são invisíveis e, por isso, sem nome. Elas costumam cair no chão e se extinguir, como a estrela de pedra que caiu em chamas em Egospótamo."

+ “Além destes, existem, como complemento, estes importantes testes: os homens e outros animais vivem do ar, visto que o respiram, e isto é para eles, alma e inteligência, como será claramente demonstrado neste tratado, e se isso é tirado deles, eles morrem e sua inteligência os abandona.

+ “Enquanto o todo está em movimento, uma parte do todo escasseia enquanto outra se condensa. Onde o denso se reúne, ele produz a Terra por condensação, e é da mesma maneira que outras coisas são produzidas; pelo contrário, as partes mais claras, por serem dispostas acima, dão origem ao Sol”.

+ “E eu entendo que o que tem inteligência é o que os homens chamam de ar. Todos os homens são governados por ele, e ele domina todas as coisas. Também entendo que isso é precisamente Deus, e que ele alcança tudo e dispõe de todas as coisas e está presente em tudo. Não há nada que não participe dele.”

+ “Parece-me, que todos os entes são diversificações de um só e são um só. E isto é bem claro: porque, se os que agora existem neste mundo, - a terra, a água, o ar, o fogo e todos os mais que aparecem neste mundo, - fosse cada um diferente do outro, diferente por sua própria substância, e não um mesmo ente que de muitas maneiras muda e se diversifica, de nenhum modo poderiam eles, misturarem-se uns com os outros, nem ajudar-se ou prejudicar-se entre si. Não poderia a planta surgir da terra, nem o animal, nem outra coisa poderia nascer se não estivessem de tal modo constituídos que fossem o mesmo”.

Fatos e Curiosidades

Alguns historiadores afirmam que o comediógrafo Aristófanes teria feito uma paródia das ideias de Diógenes, na sua peça “As Nuvens”. Nessa peça ele faz uma analogia do “pensamento-ar” de Diógenes com as nuvens. Mostrando um filósofo descendo das nuvens, pensando a respeito do “ar” e ao mesmo tempo contrapondo-se aos sofistas que estariam em terra.

Obras:

- Contra os sofistas;

- Tratado sobre Meteorologia;

- Da natureza do Homem;

- Sobre a ciência da natureza;

Fontes:

ARISTÓFANES. As Nuvens.  Rio de JaneiroExpresso Zahar. 1995.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução do português, textos adicionais e notas de Edson BINI. São Paulo: Edipro, 2012.

BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1967.

BURNET, John. A aurora da filosofia grega. 1ª ed. Rio de Janeiro: PUC RIO, 2007.

CAPPELLETTI, Ángel. Los Fragmentos de Diógenes de Apolônia: Y la Segunda filosofia Jônica. Itália: Editora Brochura, 1975.

CIVITA, Victor. Pré-Socráticos: Os pensadores. São Paulo: Nova Cultura LTDA, 1996.

GOMES, Pinharanda. Filosofia Grega Pré-Socrática. 4ª ed Lisboa: Guimarães Editora, 1994.

HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. Martins Fontes, 2001.

KIRK, Geoffrey; RAVEN, John; SCHOFIELD, Malcom. Os filósofos pré-socráticos. Trad. Calor Alberto Louro Fonseca. 7ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2ª ed. Brasília: UnB, 2008.

MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução aos textos. São Paulo: Paulus, 2013.

PLUTARCO. Vidas Paralelas. Trad. Carlos Alcade Martín e Marta González González. Madrid: Gregos, 2010.

REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993.

REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 3ª.ed. Vol.1. São Paulo. Paulus,1990.

SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2010.

SIMPLICÍO. Física.  Trad. Alexandre Costa. Anais de filosofia clássica. Vol. 3. N; 06. Rio de Janeiro: UFRJ. 2009.

VERNANT, Jean. Pierre. As origens do pensamento grego. 20ª ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002.

VERNANT. Jean Pierre. Mito e pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: PUC, 1965.

 

Notas

¹Hilozóicos. Na filosofia esse termo foi utilizado para conceituar os pensadores que acreditavam que a matéria era dotada de consciência, ou seja, o universo ou a natureza era um ser animado, que possuía vida própria. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Górgias de Leontinos

Górgias de Leontinos – (485 a 380) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da antiguidade grega pertencente à escola conhecida como sofismo. Fez parte da primeira geração de sofistas. Era muito fluente na arte da comunicação, tendo se destacado na oratória, retórica e dialética. Possuía grande eloquência e poder de persuasão. O termo “gorgianizar” se refere ao seu estilo de oratória próprio e original. Sua retórica encantava os ouvintes devido ao requinte teatral com que ele explanava suas ideias. Seu pensamento lhe rendeu o título de pai da sofística. Exerceu muita influência entre os primeiros sofistas no campo da educação, sendo visto como um filósofo itinerante, que também desenvolveu conceitos sobre a arte da fala. Em seus discursos tinha bastante habilidade em improvisar as falas. Atuou como embaixador e chegou a viajar por grande parte da Grécia antiga. Suas obras abordavam principalmente conceitos relacionados ao relativismo, ao ceticismo-absoluto, ao subjetivismo e ao asceticismo. A maioria dos sofistas cobrava pelos seus ensinamentos na arte da oratória, por isso eles foram bastante criticados pelos filósofos da época.  Os sofistas sofreram duras críticas dos filósofos clássicos como Sócrates, Platão e Aristóteles. Górgias nasceu em 485 a.C, na região de Leontinos¹ e faleceu, por volta de 380 a.C, na localidade de Tessália, morreu muito velho, com mais de cem anos de idade.

Filosofia da Linguagem

Górgias foi considerado um inovador na arte da retórica, pois introduziu novas estruturas linguísticas nos discursos, como por exemplo, a ideia de ornamentação e a introdução da paradoxologia. Algumas de suas obras foram preservadas através de um compilado de textos chamado de “Technai”, que era um manual de instrução retórica, o qual consistia de modelos a serem memorizados, e que também demonstrava diversos princípios da prática retórica. Para ele, não importava quem estaria certo ou errado na defesa da verdade, nem quem estaria com a razão, em um debate de ideias, mas sim quem dominava a retórica, isto é, a arte da fala. Desse modo, quem discursasse melhor atingiria a ideia de razão. Dizia que a verdade não existia em si mesma, o que existiria seria a arte de argumentar com eloquência e competência. 

O estilo de Górgias era considerado performático, devido o esforço que ele fazia para demonstrar sua habilidade retórica e para convencer as pessoas através de um argumento absurdo. Górgias utilizava em seus discursos e escritos, estratégias como a paródia, a figuração artificial e a teatralidade. Utilizava-se também de ideias impopulares e de paradoxos. Seu discurso argumentativo era descrito como sendo de poesia sem métrica. Ele acreditava que as palavras persuasivas continham uma força que era equivalente as palavras divinas. Em uma de suas obras, ele faz uma analogia dizendo que as palavras tinham um efeito na alma parecida com o efeito das drogas no corpo. Veja o que ele diz:

 “Assim como diferentes drogas trazem à tona os diferentes humores do corpo - alguns interrompendo uma doença, outros a vida - o mesmo ocorre com as palavras: algumas causam dor, outras alegria, algumas provocam o medo, algumas instilam em seus ouvintes a ousadia, outras tornam a alma muda e enfeitiçada com crenças más”. (Górgias).

Explicava que as palavras tinham poder de encantamento, podendo curar a alma e controlar fortes emoções. Seu estilo poético encantava as plateias. Górgias argumentava que a virtude era relativa a cada pessoa, por isso ele não acreditava que a virtude poderia ser ensinada de maneira igual para todos. Portanto, a retórica seria a rainha de todas as ciências, pois era capaz de persuadir qualquer curso de ação, em um indivíduo. Ele obrigava seus discípulos a decorar passagens importantes da literatura, com a finalidade deles dominarem o uso da linguagem. Sua persuasão era realizada de maneira parecida com a magia e o encantamento, utilizando-se, para isso, do instrumento da linguagem, daí ele empregava o discurso como uma espécie de feitiço.

Filosofia do Conhecimento

Górgias acreditava que não existia um fundamento absoluto para a verdade. Para ele, nada “é”, a verdade do mundo seria incompreensível, e o conceito de verdade era criação da imaginação. Assim como outros sofistas, Górgias não acreditava em uma verdade única, pois dizia que os sentidos criavam uma ilusão em relação à verdade. Nesse sentido, conhecer a verdade seria impossível, pois todo o conhecimento era ilusório. A frase que melhor sintetizava sua filosofia era: “Nada Existe”, a sentença parece ser a priori simples, porém a expressão traduz um duplo sentido. Ele foi chamado de “niilista”, pelo fato de não acreditar em uma verdade universal. Sua obra se diferencia da teoria de Protágoras na medida em que Górgias assumiu uma visão mais radical sobre a impossibilidade de um critério absoluto. Enquanto para Protágoras o relativismo poderia conduzir o pensamento para algo útil, para Górgias seria impossível afirmar qualquer pensamento concreto, restando ao ser humano, apenas uma atitude “niilista”, isto é, a inexistência de qualquer valor ou critério que fundamentasse uma verdade.

Filosofia da Natureza

Para Górgias, o “ser” não existe, o que “existe” é apenas o “nada”. Por isso, o “ser” é o “nada”. Nesse sentido, se existisse alguma verdade o homem não seria capaz de conhecê-la, e se pudesse imaginar esse conceito de “ser”, ainda sim, não saberia como expressá-lo em palavras, logo, o homem fala sobre palavras em relação ao saber e não sobre o que realmente é o “ser”. Assim, a palavra não exprime uma verdade em si, mas apenas uma aparência sobre a verdade. Explicava que não era apenas o “ser” que não existia, mas que o “não-ser” também não poderia existir. Tudo, então, seria apenas uma representação mental das coisas, que não estaria propriamente conectada com a realidade, o homem comunicaria a “si e ao outro”, somente o “logoi”, isto é, princípios “incriados”, não conseguindo expressar a real substâncias das coisas. O que existiria no mundo não passaria de uma relação metalinguística que teria sido convencionada pelo homem para explicar os fenômenos de forma ilusória.

Ao combater o pensamento da escola Eleata, Górgias afirmava que não haveria uma conexão entre o “ser” e o “pensar”. Pois ele não acreditava na existência do “ser”, daí logicamente não poderia existir também o “pensar” e como consequência disso, não existiria uma verdade absoluta. Esse conceito se baseava em suas três teses fundamentais que eram: “o ser não existe; o ser é incognoscível; e o ser é inexprimível”.

Em relação à primeira tese ele defendia a não existência do “ser” alegando que não era possível diferenciar o “ser” do “não-ser”, logo, “Nada é”. Também explicava que o “ser” não poderia ser gerado e nem poderia ser eterno. E por fim ele concluía que também não poderia ser “uno” e nem “múltiplo”. Com isso, ele definia como inviável a ideia de “ser” como sendo um fundamento substancial da realidade, pois se o “ser” fosse colocado em primeiro plano como realidade fundamental, logo se pensaria na ideia do “não-ser” como existência oposta. A aceitação do “não-ser” terminaria por “nadificar”, isto é, eliminar o conceito de “ser”. Nesse contexto, seu surgimento fazia dele um outro “ser”. Portanto, posicionados os dois lado a lado, “ser” e “não-ser” deixariam equivalentemente de “ser”.

Na segunda tese, ele discorria sobre o incognoscível, ou seja, sobre a impossibilidade de conhecimento real do “ser”. Pois o “ser” não possuiria um sentido físico como a visão ou a audição, para traduzir o que era o real “ser” das coisas. O homem não possuía um sentido com capacidade de apreensão cognitiva do “ser”. A mente não conseguiria imaginar situações que “não-são”, logo, ela possuiria limites para projetar experiências que envolvessem questões do “não-ser”. Como as situações ilógicas por exemplo. Portanto, também não seria possível diferenciar os fenômenos que “são”, dos que “não-são”. Nesse sentido, sobre o mesmo ponto de vista, seria inconcebível dissociar o “ser” do “não-ser”.

Por fim, na terceira tese ele dissecava a respeito da incomunicabilidade do ser. Aqui, ele parte do principio da falseabilidade das duas hipóteses anteriores. Supondo que o “ser” exista e que possa ser conhecido através do sentido de apreensão. Ele, então se questiona: - como isso poderia ser comunicado? Para Górgias, as palavras não possuem a função de transmissão, elas servem apenas para rememorar a mente sobre algo. Não existiria uma transmissão real das coisas através das palavras, mas somente uma aparente ilusão que afetaria as experiências sensoriais, fazendo as pessoas interligarem um acontecimento a uma vaga lembrança da palavra. Como não existe um sentido específico para a apreensão do “ser”, não poderia existir essa recordação entre o sentido e a palavra em um caso singular, ou seja, se fosse possível perceber o “ser” das coisas, nessa lógica, não seria possível comunicá-la, pois para Górgias a experiência seria sempre de caráter pessoal e não poderia ser transferido. Não podendo a percepção das coisas, ser expresso de maneira concreta. Por fim, então ele conclui: “Nada existe e, se existisse nós não o conheceríamos e, se pudéssemos conhecer, não saberíamos explicar essa existência para ninguém”.

Elogio de Helena

Na obra o “Elogio de Helena” Górgias retrata o poder que um discurso poético tem na alma humana. Ele mostra como as palavras podem afetar as emoções de uma pessoa. Por isso, ao mexer com os sentimentos as palavras podem retirar a autonomia e o poder de decisão de uma pessoa. Para esse filósofo, o homem vive perdido na ilusão da ignorância e em vista disso, pode ser facilmente manipulado. O discurso poético pode, então, conduzir facilmente essas pessoas por caminhos ao qual o orador possua a intenção de levar. Observe um pequeno trecho que foi traduzido dessa obra:

“Ordem, para a cidade, virilidade; para o corpo, beleza; para a alma, sabedoria; para o ato, excelência e verdade; para o discurso. O contrário destes, desordem. Tanto homem, quanto mulher; tanto discurso, quanto obra; tanto cidade, quanto assunto privado é preciso, por um lado, com louvor, honrar o digno de louvor; por outro lado, repreender ao indigno. Pois igual erro e ignorância é repreender coisas louváveis e louvar coisas repreensíveis”. (Górgias).

Ao explicar o poder que existia na ideia de “logos” ele advertia que “Helena” só poderia ter fugido com “Páris” em quatro hipóteses previsíveis: força física, vontade dos deuses, persuasão pela fala ou seduzida pelo “amor Eros” (desejo erótico). Com isso, em nenhum desses casos, ela teria culpa, dessa forma, não seria justo responsabilizá-la. Sua inocência era ainda maior na hipótese da persuasão pela fala, pois um belo discurso ornamentado pelo “logos” poderia impressionar a alma e fazê-la mudar suas crenças, passando a vítima a agir de acordo com a vontade do hipnotizador. Esse poder causado pelo bom orador teria a mesma equivalência de coação da força física ou da vontade dos deuses.

Filosofia Sapiencial

+ “Não há nada que seja ou exista”.

+ “O artista é um criador de mundos”.

+ “As coisas não são mais do que não são”.

+ “Mesmo que as coisas sejam elas não são conhecíveis”.

+ “O que parece a mim é para mim, e o que parece a ti é para ti”.

+ “A persuasão aliada a palavras modela a mente dos homens como quiser”.

+ “O ser não é uno, não é múltiplo, não criado e nem gerado, por conseguinte o “ser” é “nada”.

+ “A persuasão é soberana, porque não há nenhuma verdade acima da que um homem pode ser persuadido a crer”.

+ "Como alguém pode se comunicar a ideia de cor por meio de palavras, pois o ouvido não ouve cores, mas somente sons?"

+ “Frente ao drama da vida a única consolação é a palavra que adquire valor próprio porque não exprime a verdade, mas a aparência”.

+ “O ser não existe; se existisse, não poderia ser reconhecido; mesmo que fosse conhecido, não poderia ser comunicado a ninguém”.

+ “Se é eterno não teve princípio, se não tem princípio é infinito, se é infinito não está em nenhum lugar, se não está em nenhum lugar não existe”.

+ “A boa ordem da cidade é a coragem dos seus cidadãos; a do corpo, a beleza; a da alma, a sabedoria; a da ação, a excelência; e a do discurso, a verdade”

+ “A arte da persuasão ultrapassa todas as outras, e é de muito a melhor, pois ela faz de todas as coisas suas escravas por submissão espontânea e não por violência”.

+ “Assim como a visão não conhece os sons, o ouvido não ouve as cores, mas os sons. Quem fala expressa bem um som, mas não pode falando expressar uma cor ou uma experiência”.

+ “Difícil explicar o que leva o ser a direcionar as suas ações em função do meio. Por vezes deixamos de fazer tanta coisa, justamente por conta do meio. Liberte-se, escuta a tua intuição e serás feliz”.

+ “Podemos somente analisar a condição em que nos encontramos e expor o que devemos ou não fazer e mesmo o que devemos ou não fazer muda muito dependendo da situação em que nos encontramos”.

+ "O Discurso é um senhor soberano que, com um corpo diminuto e quase imperceptível, leva a cabo ações divinas. Na verdade, ele tanto pode deter o medo como afastar a dor, provocar a alegria e intensificar a compaixão".

+ “A poesia é um discurso com métrica e quem a escuta é invadido por um arrepio de estupor, uma compaixão que arranca lágrimas, um ardente desejo de dor e pelo efeito das palavras a alma sofre seu próprio sofrimento ao ouvir a sorte ou o azar de fatos e pessoas estranhas”.

+ “Uma tal ilusão que, por um lado, o que cria a ilusão é mais justo que aquele que não a cria e, por outro lado, aquele que se deixa encantar é mais sábio que aquele que não se deixa levar. De fato, um é mais justo porque aquilo que prometeu fê-lo; o outro, o que cede ao encanto, é mais sábio: com efeito, deixa-se levar pelo prazer das palavras, o que não deixa de ter um sentido.”

Obras:

Discursos; O Elogio de Helena; A Defesa de Palamedes; A Oração Fúnebre; O Discurso Olímpico; O Elogio dos Elisinos; O Elogio de Aquiles; A Arte Oratória; O Onomástico; Elogio a cidade de Eléia; Tratado do Não Ente ou Sobre o não-ser.

Fontes:

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. 2ª ed. São Paulo: EDIPRO, 2012.

BARBOSA, Manuel e CASTRO, Inês. Górgias: Testemunhos e Fragmentos. Lisboa: Colibri, 1993.

BARNES, Jonathan. Filósofos pré-socráticos. Trad. Julio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix , 1967

CASERTANO, Giovanni. Sofista. São Paulo: Paulus, 2010.

CASSIN, Barbara. Ensaios Sofísticos. São Paulo: Siciliano, 1990.

DINUCCI, Aldo. Górgias: Górgias de Leontinos. São Paulo: Oficina do Livro, 2017.

DUMONT, Jean. Paul. Elementos de história da filosofia antiga. Brasília: EdUnB, 2005.

FILÓSTRATO, Flávio. História dos Sofistas Ilustres. Londres: Loeb, 1989.

GUTHRIE, William. Os Sofistas. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2007.

HADOT, Pierre. O que é a Filosofia antiga? São Paulo: Lisboa, 1999.

HOBUSS, João. Introdução à história da filosofia antiga. Pelotas: Dissertatio Filosofia. 2014.

KERFERD. George. O movimento sofista. trad. Margarida Oliva. Edições Loyola, São Paulo: 2003.

KIRK, Geoffrey. RAVEN, John. Os Filósofos pré-socráticos. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1994.

REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1993.

UNTERSTEINER, Mario . Os sofistas . Trad. Kathleen Freeman . Oxford: Alden Press, 1954.

WILBORN, Josh. Górgias de Leontini: O orador. Dicionário clássico de Oxford: 2016.

 

Notas:

_________________

¹Leontinos era uma colônia grega da Grécia antiga que ficava localizada na costa leste da antiga Sicília.