domingo, 29 de outubro de 2023

Píndaro de Cinoscéfalos

Píndaro de Cinoscéfalos – (518 a 440) a.C   

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da antiguidade grega que se utilizou da literatura poética para escrever sua obra. Pode ser enquadrado na chamada filosofia estética ou filosofia da arte. Era considerado um proeminente poeta lírico e sua obra é tida como um clássico da História da Literatura. Transcorreu sua obra-prima por um viés chamado de lirismo grego. Teria sido afamado, em seu tempo, com o título de o “príncipe dos poetas”. Foi considerado o autor da célebre frase: "Homem, torna-te quem tu és". Estudou as áreas da Poesia, Música e Escrita na cidade de Atenas. Especula-se que tenha escrito em torno de 17 livros, mas apenas quatro sobreviveram ao tempo. Visto por muitos como uma mistura de profeta com poeta, ele era considerado um exímio tocador de flautas. Iniciou seus estudos musicais na cidade de Delfos, tendo como mestres Agatides e Apolodoro. Posteriormente, enveredou por uma linha mais artística, estudando poesia na cidade de Atenas. Escreveu sua obra em formato de hinos, odes, cantos, elogios, ditirambos, epinícios e lamentos fúnebres. A escrita desenvolvida por ele já era vista, em seu tempo, como sendo ornada de uma linguagem primorosa e inovadora. Seu pai era um aristocrata conhecido pelo nome de Daífanto. Nasceu por volta de 518 a.C, em Cinoscéfalos, região de Tebas e faleceu em 440 a.C, na cidade de Argos.

Filosofia da Arte

Era um grande defensor do renascimento da cultura grega. Pertencia à aristocracia, por isso seus escritos defendiam uma visão de mundo relacionado à sua classe social. Sua obra tinha como objetivo principal enaltecer os atletas vencedores dos jogos olímpicos e exprimir conhecimentos da mitologia grega, dessa forma, seu trabalho cantava a glória dos vencedores. Sua poesia tinha a missão de tornar os atletas vencedores imortais. Nesse sentido, a poesia funcionava como um veículo de memória dos feitos heroicos. Mencionava heróis mortos nas guerras e chegou a escrever a poética frase em homenagem a um deles: "no fundo da terra seu coração escuta". Vivia exercendo seu trabalho de forma itinerante, recitando seus poemas através da tradição oral e da lírica coral. Figura-se na lista dos noves poetas líricos descritos pelos eruditos alexandrinos.

Filosofia Literária

Sua obra textual e poética pode ser enquadrada no ramo da filosofia denominada de estética literária. Utilizou-se da poesia como um instrumento de educação na sociedade ateniense. Píndaro foi considerado um dos primeiros poetas que refletiram a respeito da natureza da poesia e sobre o papel do poeta. Suas odes eram caracterizadas por três elementos fundamentais: elogio ao vencedor, fato mítico e conselhos morais. Dessa forma, ele valorizava um sentimento de honra e elevação moral que eram aprimorados pela emoção lírica. Retratava temas relacionados à mitologia grega. Sua linguagem trabalhava elementos elípticos nas frases, onde ele omitia alguns termos, deixando a ideia subentendida. Esse formato era algo inovador em seu tempo, tornando a linguagem mais refinada. Utilizou-se principalmente da escrita dórica em sua produção, tendo ensaiado algumas composições em linguagem eólica e homérica.

Filosofia Teopolítica

Era contrário ao estilo de democracia realizada em Atenas, desse modo, defendia um conservadorismo que apoiava a aristocracia, zelando pela ordem pública, por isso era adepto da chamada “eunomia”, o mesmo que, “boa ordem”. Utilizava-se de metáforas para misturar elementos singulares da religião com a nobreza. Misturava elementos religiosos com concepções morais em suas odes. Defendia a religião tradicional que era difundida em Tebas. Seu primeiro poema advertia aos homens sobre os perigos da guerra e exaltações da paz. Seus textos também serviram de apoio político no sentido de legitimar as conquistas e auxiliar no processo de colonização dos locais ocupados. Era adepto da metempsicose, pois acreditava na justiça e também que a justiça após a morte traria como prêmio, punições e recompensas.

Filosofia Sapiencial

+ “O que é Deus? É tudo".

+ "Homem, torna-te quem tu és".

+ “É um dia, um dia só, a vida humana”.

+ “O homem é o sonho de uma sombra”.

+ "A resignação é um suicídio cotidiano"

+ “A força, com o tempo, abate o arrogante”

+ “As palavras vivem mais do que os feitos”.

+ “O silêncio é a maior sabedoria do homem”.

+ “O dia precedente é o mestre do dia seguinte”

+ “A Serenidade, é a filha benévola da Justiça.”

+ “O melhor médico é aquele que mais adverte o paciente.”

+ “Muita vezes se diz melhor calando do que falando em demasia”.

+ “Aqueles que seguem por caminhos sinuosos, jamais serão felizes”.

+ “Minha alma não aspira à vida imortal, mas esgota o campo do possível”

+ “Não é possível com mente mortal, indagar os pensamentos dos deuses”

+ “O sucesso, para quem é um grande batalhador, apaga o esforço da luta”.

+ "Muitas vezes o silêncio é a coisa mais inteligente que um homem pode ouvir."

+ “Não é bom que toda a verdade revele tranquilamente a sua essência; e muitas vezes o silêncio é para o homem a melhor decisão”.

+ “Não banho as minhas palavras na mentira; a ação é o controle de todo o homem”.

+ “Não busque a imortalidade na vida; mas esgote todas as possibilidades que estão ao seu alcance”.

+ “Nada neste mundo se oculta dos olhos de Deus: a sua providência estende-se a tudo e por tudo”.

+ “Quem quer vencer um obstáculo deve armar-se da força do leão e da prudência da serpente”.

+ “A glória dos mortais num só dia cresce, mas basta um só dia, contrário e funesto, para que o destino, impiedoso, num gesto a lance por terra e ela, súbito, fenece”.

+ “A glória só tem pleno valor quando é inata. Quem só tem o que aprendeu é um homem obscuro e indeciso, jamais caminha com passo firme. Apenas esquadrinha com imaturo espírito mil coisas altas”.

Fatos e Curiosidades:

Quando Alexandre, o Grande, demoliu Tebas em 335 a.C, como punição por sua resistência ao expansionismo macedônio, ele ordenou que a casa  de Píndaro fosse deixada intacta em agradecimento aos versos elogiando seu ancestral, Alexandre I da Macedônia.

A emblemática frase “Homem torna-te quem tu és”, citada por Píndaro, influenciou consideravelmente vários filósofos ao longo da história, tendo ganhando mais destaque na filosofia de Nietzsche.

Obras:

Epinícios ou odes triunfais: Odes píticas, Odes olímpicas, Odes neméias, Odes ístimicas; Prosódia; Partenéia; Cantos de Coroação; Cantos a Baco; Dafnefórica; Peãs; Hiporquemas; Hinos; Ditirambos; Escólios; Encômios; Trenos; Dramas trágicos; Epigramas épicos;  Exortações em prosa  para  os gregos.

Fontes:

ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Editora Edipro, 2009.

CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 2008.

GENTILI, Bruno. Poesia Pública na Grécia Antiga. Bari: Laterza, 1984.

HESÍODO. Teogonia. Trad. Christian Werner. São Paulo: Hedra, 2013.

HOLDERLIN, Friedrich. Fragmentos de Píndaro. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

LESKY, Albin. História da literatura grega. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1971.

NIETZSCHE, Friedrich. Filosofia na Idade Trágica dos Gregos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

ORTEGA, Afonso. Píndaro: Odes e Fragmentos. Madrid: Editora Gredos, 1984.

ROCHA, Roosevelt. . Píndaro: Epinícios e fragmentos. Curitiba: Kotter, 2018.

SANTOS, Rubens Dos.  A sétima sinfonia de Píndaro: Ensaios de Literatura e Filologia. Vol. 05. Periódicos. UFMG, 1985.

PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Sete odes de Píndaro. Porto: Editora Porto, 2003.

domingo, 22 de outubro de 2023

Pápias de Hierápolis

Pápias de Hierápolis – (70 a 140) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo teológico que teria vivido no período de transição da filosofia antiga para a filosofia medieval. Desenvolveu uma teoria chamada de “milenarismo”. Era bispo de Hierápolis, localidade da antiga Frígia, na atual Turquia. Faz parte da lista dos chamados padres apostólicos. A igreja católica o nomeou como santo, tendo ficado conhecido como o “São Pápias”. Acredita-se que seu nome seria uma variação do verbo papear, isto é, o mesmo que gorjear. Assim como outros cristãos do seu tempo, ele também sofreu perseguição e foi martirizado, tendo sido um grande amigo e discípulo de Policarpo de Esmirna. Também conviveu com outros importantes expoentes da filosofia cristã, como o Inácio de Antioquia, o presbítero João de Éfeso e o pensador Aristion. Escreveu sua obra em formato de “logias”, que eram “ditos populares” narrados pela tradição oral. Existem poucas informações a seu respeito, pois sua obra foi perdida no tempo, restando somente poucos fragmentos isolados que foram preservados por alguns autores e comentários referenciados, sobre sua vida, que foram descritos, por outros pensadores. Pápias floresceu, aproximadamente, entre os anos (70 a 140) d.C.

Filosofia Teológica

Sua obra é considerada muito importante para a compreensão do pensamento primitivo da Igreja e também para entender as origens dos evangelhos. Foi um dos pensadores considerados pioneiros nos estudos e pesquisas a respeito da origem do cristianismo. As teorias descritas por ele foram influenciadas apenas pelos evangelhos de Marcos e de Mateus, não havendo referências ou citações dos outros evangelhos escritos. Seu sistema de pensamento era denominado como sendo de cunho pastoral e escatológico, pois defendia uma doutrina baseada no livro do Apocalipse, em que afirmava que o messias voltaria a Terra para estabelecer um reinado de mil anos, por isso essa corrente ficou conhecida como “ideias milenaristas”. Sua doutrina estabelecia uma relação entre os sete dias da criação e os sete dias da redenção.

Nessa época, ao contrário do que muitos pensam, não havia somente apóstolos, mas também discípulos que seguiam o mestre, desse modo, muitos fatos narrados, em outras literaturas ou textos considerados apócrifos, foram, provavelmente, relatados de forma oral, por discípulos que conviveram naquele meio. Irineu de Lião, por exemplo, chegou a afirmar que Pápias não recebeu ensinamentos dos santos apóstolos, mas sim de pessoas que conviveram com os apóstolos. Alegava que Marcos tinha como propósito não omitir os ensinamentos de Cristo ou falsificá-los, por isso ele tinha muito cuidado na compilação e citação dos fatos que lhe eram narrados.

Filosofia Eclesiológica

Elaborou várias teorias bíblicas que são consideradas apócrifas pela igreja católica, como uma lenda que fala sobre Judas, que após a morte de Cristo, Judas passou a viver moribundo e combalido, como forma de castigo, posteriormente, ao tentar o suicídio, Pápias disse que Judas não morreu enforcado, mas sim de uma queda, pois a corda teria se partido, tendo Judas caído de cabeça e suas entranhas ficaram expostas, depois disso, uma carruagem passou e esmagou partes de suas entranhas.

Contava sobre alguns milagres que teria ouvido de pessoas que conviveram com os apóstolos. Narrou um episódio envolvendo um homem chamado Justus Barsabas, em que este, ao ser desafiado por descrentes, teria bebido veneno de uma serpente, em nome de cristo, tendo sido protegido e nada acontecido, deixando os incrédulos surpresos. Relatou também a respeito de um milagre que ele teria ouvido de uma das filhas de Felipe, que era um discípulo evangelista, em que descreve uma pessoa morta sendo ressuscitada, possivelmente essa pessoa seria a mãe de Manaimo. Discorreu sobre a fertilidade da terra e pensamentos que relacionavam ideias judaicas e cristãs. Declarava que Jesus não teve irmãos carnais, pois estes teriam sido filhos de outra Maria.

Filosofia Sapiencial

+ “A verdade na tradição oral é palavra viva e permanente”.

+ “Não tenho prazer, como a maioria das pessoas, em quem fala muito, mas em quem ensina a verdade”.

+ "Chegarão os dias em que as videiras crescerão, cada uma com dez mil trepadeiras, e em cada videira dez mil galhos, e em cada galho dez mil botões, e em cada botão dez mil cachos, e em cada cacho dez mil sementes, e cada o grão prensado dará vinte e cinco metros de vinho. E quando um dos santos arranca um cacho, outro bando clama a ele: Eu estou melhor, arranca-me e, através de mim, bendiga ao Senhor! Da mesma forma que o grão de trigo produzirá dez mil espigas, cada espiga terá dez mil grãos e cada grão dará cinco chenices de farinha fina; e será o mesmo, mantendo todas as proporções, com os outros frutos, com as sementes e com a grama. E todos os animais, usando este alimento que receberão da terra, viverão em paz e harmonia uns com os outros e estarão totalmente sujeitos aos homens” 

Fatos e Curiosidades

Especula-se que o João descrito, ao qual Pápias teria extraído informações sobre a vida de Cristo, não seria o João evangelista, mas sim João o presbítero, que também era conhecido como “João, o ancião”. As correntes antigas divergem sobre esse fato, porém a corrente majoritária supõe que Pápias se referia ao João ancião. Contudo, existe uma linha intermediária de pensamento que defende a tese de que os dois Joões seriam a mesma pessoa.

Obras:

Exposição e interpretação das palavras do Senhor

Fontes:

BERTRAND, Dominique. Os padres Apostólicos. Col. Sabedoria Cristã, Brasília: CERF, 2001.

BIBLIOTHECA Patrística. Os Fragmentos de Pápias. Site: Suma Teológica. Internet: Publicado em 2010, Acesso em 2023.

BUENO, Ruiz. Padres Apostólicos. Madrid: Editora. BAC bilíngue, 1950.

CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século, 2002.

CODEX, Alexandrinus. Enciclopédia Católica. Domínio Público: British Library, 1913.

HALL, Edward Henry. Pápias e seus contemporâneos: um estudo do pensamento religioso no século II. Cambridge: Livros Gardners, 2007.

IRINEU, Lião de. Contra as Heresias. São Paulo: Editora Paulus, 2021.

JUSTINO Mártir. Diálogo com Trifão. Col. Pais da Igreja. Brasília: Repositório Cristão, 2022.

KNIGHT, Kevin. Dos Padres Ante-Nicenos. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885.

ROMANO, Clemente. Cartas aos Coríntios. San Juan: Biblioteca Patrística, acesso 2023.

domingo, 8 de outubro de 2023

Gilgamesh de Uruk

Gilgamesh de Uruk – (2750 a 2600) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da antiguidade sumeriana que escreveu um famoso poema épico, conhecido como “A Epopeia de Gilgamesh”. Essa obra é considerada um clássico da literatura mundial, e descrita também como sendo uma das mais antigas da humanidade. Foi redigida inicialmente na linguagem sumérica, contendo caracteres cuneiformes. Posteriormente passou a ser traduzida para outras línguas, como o hitita, hurrita, elamita e semítico-acadiana. Gilgamesh ficou afamado como sendo um dos reis mais conceituados da antiga Mesopotâmia. Seu nome tinha um significado próximo ao conceito de “o velho que rejuvenesce”. Era filho de um sacerdote conhecido pelo nome de Kullab-Lugalbanda com uma semideusa chamada Ninsuna. As deidades egípcias, descritas nos tempos antigos, eram vistas como uma espécie de rei-herói que possuíam algum poder sobrenatural. Ele teria sido o quinto rei da cidade de Uruk, na antiga Suméria, durante a dinastia de Ur, por volta de (2750 a 2600) a.C. Fala-se que seu reinado teria durado cerca de 126 anos. No prólogo de sua obra está escrito o seguinte adágio: “ele veio de uma estrada distante, estava cansado e encontrou a paz”.

Filosofia Mítica

Segundo as lendas míticas da antiguidade, ele teria recebido uma força descomunal da deidade tempestade, que era também conhecida por Adad. Tendo adquirido grande beleza de Samash, uma espécie de semideus do Sol. O rei de Uruk tinha se entregado aos vícios mundanos e adquirido um caráter tirânico, o povo, então solicitou ajuda dos céus para que Gilgamesh fosse punido. Uma potência divina conhecida por Aruru teria enviado, outro herói chamado Enkidu, que foi feito do barro, para derrotar Gilgamesh, porém depois de lutarem, os dois se tornaram grandes amigos e partiram pelo mundo a procura de aventuras. Após vencerem várias peripécias, outra potestade de nome Ishtar ou Inana, ficou inconformada com as vitórias de Gilgamesh, ela, então, decidiu lançar uma maldição contra Gilgamesh, com isso seu amigo Enkidu acabou sendo morto.

Logo em seguida a morte de seu amigo Enkidu, Gilgamesh inicia outra jornada em busca de um herói chamado “Utnapishtim” que teria sobrevivido a um dilúvio e possuía o segredo da vida eterna. Depois de encontrar a planta que possuía o elixir da eternidade, Gilgamesh se distrai e tem a planta usurpada por uma serpente que engole o vegetal. A serpente retira sua velha pele e foge. Posteriormente a tudo isso, Gilgamesh aceita suas limitações frente ao acaso e os desfortúnios da vida, mas considera que tudo isso lhe serviu de lição, pois agora acredita que está mais sábio, devido às experiências de vida que acumulou entre vitórias e derrotas.

Filosofia Esotérica

A obra retrata um misto de aventura, moralidade e tragédia. Nela o personagem descrito possui características de um semideus com traços humanos. Carrega inicialmente uma personalidade opressora, subjugando a população aos seus interesses, era descrito como um jovem rebelde, por isso teria despertado a desafeição de vários inimigos que passaram a conspirar contra ele. Posteriormente ele se tornou menos agressivo, devido ter se apaixonado por uma mulher, o amor transformou seu caráter mais irascível, em uma pessoa mais branda. A partir daí, ele iniciou uma jornada espiritual em busca da imortalidade, passando a ser visto como “o sábio que viu os mistérios e conheceu coisas secretas”.

A visão esotérica retrata o texto da epopeia mostrando questões fundamentais como o sentido da vida e as incertezas do destino, os quais permeiam a alma humana, desde os primórdios da civilização. Aborda de maneira alegórica os temas relacionados aos vícios e virtudes do homem, como traições, inveja, felicidade, espiritualidade, amor, sexo, amizade, força, poder, coragem, desejo e morte. A obra é vista nesse sistema de pensamento como uma metáfora que trata a respeito da jornada do herói em busca da imortalidade. Explicando que o homem ao sair da sua zona de conforto e enfrentar os desafios da vida, mesmo que não alcance o que desejava, estará, ao final da jornada, mais forte, será uma pessoa melhor, mais autêntica e mais galante.

Várias representações são mistificadas para expressar as reflexões simbólicas que o texto traz. Essa figuração mostra a transformação que alma humana passa, ao longo da vida, após o indivíduo buscar o autoconhecimento e encontrar respostas dentro do seu “eu” interior. Nesse ponto, em dado momento, um dos personagens aclara a seguinte sentença: “Que seja seu próprio reflexo, seu segundo eu”; Aponta também os perigos que homem passa quando se entrega aos vícios e paixões. Gilgamesh buscou alcançar a glória com a finalidade de se tornar imortal, apesar disso se deparou com a inescapável derrota, que lhe ensinou a entender que “os homens passam, mas as obras ficam”. 

Filosofia da História

A Epopeia era composta por 12 tábuas de argila e cada qual continha cerca de 300 versos. Elas foram encontras e preservadas, após uma escavação realizada na região de Nínive, no Oriente Médio. O arqueólogo Austen Harry Layard foi o principal responsável pelas escavações onde foram localizadas as tábuas, por volta de 1890, do século XIX. O texto teria sido publicado pela primeira vez, em 1928, com transliteração do ilustre arqueólogo britânico Campbell Thompson. Ajudaram também no processo de decodificação, os peritos Henry Rawlinson e George Smith, que decifraram as tábuas e encontraram uma narrativa a respeito do dilúvio universal.

Esse documento foi muito importante para a compreensão da cultura desenvolvida na região da Suméria, contendo informações sobre as estruturas de construção, muralhas, templos e o mercado, tudo isso teria sido demonstrado pelos estudos arqueológicos. Os escribas da antiguidade utilizavam o épico como texto para treinamento da escrita. A obra teria desaparecido após um grande incêndio que aconteceu na cidade de Nínive, esse acidente destruiu a principal biblioteca que continha a epopeia. Ela parece ter sido bastante conhecida na região onde teve origem.

Filosofia Sapiencial

+ “Tudo termina onde tudo começa”

+ “Os homens passam, mas as obras ficam”

+ “Busque ser um bom pastor para seu povo”

+ “Sou aquele que viu a profundeza do abismo”

+ “Embora os indivíduos sejam mortais, a humanidade é eterna”

+ “É tolice se preocupar com a eternidade, isso é desperdício de tempo, pois mata a vida aos poucos”.

+ "Quem por você convocará os deuses a uma assembleia, para que possa encontrar a vida que busca?"

+ “Vou apresentar ao mundo aquele que tudo viu, conheceu a terra inteira, penetrou todas as coisas e tudo explorou. Tudo que estava escondido”.

+ “A vida que você procura nunca encontrará. Quando os deuses criaram o homem, reservaram-lhe a morte, porém mantiveram a vida para sua própria posse.”

+ "Você nada mais é do que um braseiro que sai no frio; uma porta dos fundos que não impede a explosão nem o furacão; Calçado que aperta o pé de seu dono! Qual amante você sempre amou?"

+ "Quero ao país dar a conhecer aquele que tudo viu, que conheceu os mares, que soube todas as coisas, que analisou o conjunto de todos os mistérios, Gilgamesh, o sábio universal que conheceu todas as coisas: ele viu as coisas secretas, trouxe o que estava escondido, e transmitiu-nos o saber mais antigo que o Dilúvio".

+ “O destino decretado por Enlil da montanha, o pai dos deuses foi cumprido. Os heróis e os sábios, como a lua nova, têm seus períodos de ascensão e declínio. Foi-te dado um trono, reinar era teu destino; a vida eterna não era o teu destino. Assim não fiques triste, não te atormentes. Ele te concedeu supremacia sobre o povo, vitória nas batalhas. Mas não abuses deste poder; procede com justiça com teus servos no palácio, faze justiça ante a face do Sol”.

 

Fontes:

ARAÚJO, Emanuel. A literatura no Egito faraônico. Brasília: UnB, 2000.

BAPTISTA, Sylvia. Mello. O Arquétipo do caminho: Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

CARREIRA, José Nunes. Gilgamesh em veste hitita. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013.

CORREA, Maria Isabelle Palma Gomes. A água os deuses e o poder na Mesopotâmia: Reflexões sobre os símbolos aquáticos na versão ninivita do épicos de Gilgamesh. Tese de Mestrado. Curitiba: UFPA, 2003.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 1997.

DURANT, Will. The Story of Civilization: Our Oriental History, 1935.

KLUGER, Rivkah Scharf. O significado arquetípico de Gilgamesh: um moderno herói antigo. São Paulo: Paulus, 1999.

LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: A invenção da cidade. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2003.

OLIVEIRA, Carlos Daudt. A Epopeia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

SANDARS, Nancy. Katharine. A Epopeia de Gilgamesh. Trad. Carlos Daudt de Oliveira. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

sábado, 30 de setembro de 2023

Ferreira França

Ferreira França – (1809 a 1857) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Eduardo Ferreira França foi um filósofo brasileiro ligado as correntes de pensamentos da “filosofia da mente”. Sua obra é vista como umas das primeiras investigações psicológicas das Américas. Desse modo, ele era considerado um dos pioneiros da Psicologia no Brasil. Tinha como tema central de sua abordagem a chamada “psicologia experimental”. Encaminhou-se inicialmente pelas ideias do materialismo, migrando posteriormente para as concepções do espiritualismo. Exerceu grande importância nas ciências médicas, doutorando-se em Medicina pela Faculdade de Paris, em 1834, com a tese intitulada de “Ensaio sobre as relações da influência alimentar na moral”. Além da Medicina, atuou também em várias outras áreas, como Química, Literatura, Mineralogia, Filosofia e Política. Tendo relacionado os estudos da mente humana com as ciências da filosofia, fisiologia, frenologia, psicologia e política social. Era filho do senhor Antônio Ferreira França com a dona Ana da Costa Barradas. Nasceu na cidade de Salvador, em 1809 e faleceu por volta de 1857, em alto mar. Relata-se que seu navio teria afundado a caminho da Europa.

Filosofia da Mente

Abordou temas morais relacionando o ecletismo com a psicologia, tendo se destacado, por uma linha de ideias denominada de “ética espiritualista”. Segundo contam, ele desejava encontrar elementos observáveis que pudessem ser aptos a explicar o comportamento moral das pessoas. Em 1854 publicou o livro Investigações de Psicologia. Tal livro é identificado por historiadores da psicologia como sendo um dos mais antigos das Américas. Ensaiou alguns entendimentos a respeito da “motilidade”, isto é, a capacidade de movimentação da alma humana e como a alma exerce ações sobre o corpo. Dissertou acerca dos fenômenos da consciência, dos atributos intelectuais, dos instintos humanos e das atividades volitivas, direcionando esses saberes para as questões da influência do ambiente sobre o homem.

Para a ele a concepção de moral se formava a partir de uma série de funções da mente, o resultado seria o produto equipolente das faculdades intelectivas com as propriedades emocionais. Com isso, existia, segundo ele, uma razão proporcional desses fatores, desse modo, a moral dependeria do grau de assertividade de cada fator limitante. Nesse contexto, ele explicava que os limites da faculdade mental tenderiam a aumentar ou diminuir, conforme se estendessem ou reduzissem os fatores da emoção humana. Nessa perspectiva, ele descrevia que o processo de educação do homem poderia transformar a moral humana, tanto de forma positiva, como também de maneira negativa.

Filosofia Naturalista

Teve grande influência do pensamento naturalista, descrevendo pontos fisiológicos e biológicos da condição existencial do homem. Para Ferreira, havia um determinismo que caracterizava a condição natural do ser humano. Seu naturalismo determinista abordava uma relação interior do indivíduo com questões de ordem social, desse modo, para ele, questões como a “alimentação e a civilização” eram requisitos que justificavam as condições naturais de existência. Nesse sentido, ele destacava que os alimentos e as bebidas ingeridas pelo ser humano influenciavam na formação moral do homem. Diferenciava a influencia que os alimentos de origem animal e vegetal causavam no ser humano. Pontuando que o primeiro despertava no ser humano mais vigor e agressividade, já o segundo gerava menos vigor, produzindo um sentimento de timidez no indivíduo.

Explicava que o homem era formado por duas substâncias principais, corpo e alma, e que elas mantinham uma interação mútua. Segundo Ferreira, o homem enquanto ser material mantém um determinismo característico de sua condição animal, e que por isso, seria regulado pelas leis físicas gerais dos corpos. Porém sua alma, que estaria ligada aos princípios vitais, era responsável por dá animação ao corpo, podendo agir de maneira contraposta as leis naturais dos corpos.

Filosofia Política

Exerceu atividades políticas como deputado federal, atuando em causas ligadas a saúde pública e a medicina social. Era adepto das correntes políticas do liberalismo. Para ele, as questões naturalistas exerceriam determinadas influências na liberdade humana, por consequência, isso também afetava a vida política nas cidades. Explanava que algumas nações eram mais corajosas e cruéis que outras por conta de ingerir uma alimentação rica, apenas em carne animal. Porém os povos que mantinham uma dieta de origem somente vegetal seriam mais compassivos e supersticiosos, demonstrando uma moral fraca. Contudo, as civilizações que consumiam uma alimentação mista, isto é, de origem animal e vegetal, e ao mesmo tempo, essas possuíam todas as vantagens que os alimentos forneciam e ainda eliminavam os percalços produzidos pelas dietas que eram feitas apenas de maneira isolada.

Filosofia Sapiencial

+ “Os alimentos e as bebidas influenciam significativamente nossa moral”.

+ “Não há fenômeno sem uma mudança, não há mudança sem uma causa”

+ “Não é possível ser filósofo sem ser médico nem ser médico sem ser filósofo”.

+ “O estudo do homem moral é um dos mais interessantes e dos mais úteis que existem”.

+ “Os fenômenos que percebemos diariamente são aqueles que mais merecem nossa atenção”.

+ “As constituições não devem ser feitas em favor do poder; as constituições são sempre feitas em favor dos povos”.

+ “Observar os fenômenos da alma, classificá-los, deduzir suas leis e aplicá-las: eis em resumo o fim do estudo do espírito humano”

+ “O regime animal exclusivo produz paixões violentas e sem freio, torna os homens corajosos, independentes, mas, ao mesmo tempo, cruéis e pouco sociáveis. O regime vegetal, ao contrário, estingue o aguilhão das paixões, torna os homens doces e compassivos; mas ele gera a pusilanimidade, a escravidão, e termina muitas vezes por produzir a fraqueza e a corrupção. Todos os dois, empregados exclusivamente, são contrários ao desenvolvimento da inteligência. É então por um regime misto que o homem pode adquirir as mais belas qualidades morais, que sua inteligência pode crescer e se aperfeiçoar, que ele pode ser corajoso sem ser cruel doce sem ser escravo”.      

Obras:

Investigações de Psicologia; Influência dos pântanos sobre o homem; Ornitologia brasileira; Discursos introdutórios ao estudo de química médica; Relatório sobre o Sistema Penitenciário; Influência das emanações pútridas animais sobre o homem; Ensaio sobre a influência dos alimentos e das bebidas sobre o moral do homem.

Fontes:

ARAÚJO, Bernardo Goytacazes de. As éticas espiritualistas de Cunha Seixas e Ferreira França. Revista Estudos Filosóficos. N: 07. Rio de Janeiro: Universidade Castelo Branco, 2011.

CALMOM, Pedro. História da literatura baiana. Rio de Janeiro: Editora José Olímpio, 1949.

CERQUEIRA, Luiz Alberto. Filosofia brasileira: ontogênese da consciência de si. Petrópoles: Editora Vozes, 2002.

FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1965.

JAIME. Jorge. História da Filosofia no Brasil. Vol. 1. Petrópolis: Vozes, 1997.

LEITE, Geraldo. Eduardo Ferreira França: 114. Site: Blog Médicos Ilustres da Bahia e de Sergipe. Internet: Publicado em 2011. Acesso em 2023.  

MARGUTTI, Paulo. As ideias filosóficas de Eduardo Ferreira França. Porto Alegre: Editorra Fiorg, 2023.

PAIM, Antônio. Ferreira França: Investigações de Psicologia. São Paulo: EDUSP/Editorial Grijalbo, 1973.

ROMERO, Sylvio. A Filosofia no Brasil: Ensaio Crítico. Porto Alegre: Typ. de Deutsche Zeitung, 1878.

SACRAMENTO, Blake. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Adolfo Caminha

Adolfo Caminha – (1867 a 1897) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Adolfo Ferreira dos Santos Caminha foi um filósofo cearense ligado a corrente filosófica chamada de “Determinismo Naturalista”. Era considerado um dos primeiros intelectuais dessa corrente de pensamento no Ceará. Seu sistema de pensamento abrangeu elementos do positivismo, do realismo e do pessimismo. Utilizou-se da literatura para explanar suas ideias. Sua obra era composta de poesias, ensaios críticos e romances literários. Teve uma infância sofrida, pois perdeu sua mãe, com apenas dez anos de idade, atingida pela seca que assombrou o Ceará. Trabalhou inicialmente, por um longo tempo, na Marinha do Brasil. Posteriormente, laborou como escritor na “revista moderna”. Foi um dos fundadores do Centro Republicano Cearense. Participou do movimento chamado de “A Padaria Espiritual”, onde utilizava o pseudônimo de “Félix Guanabarino”. Seus pais eram Raimundo Ferreira dos Santos Caminha e Maria Firmina Caminha. Nasceu no município de Aracati, em 1867 e faleceu prematuramente, em 1897, com apenas 29 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro, vitimado por uma tuberculose. Dois anos depois de sua morte, uma de suas filhas, também faleceu precocemente de tuberculose. Adolfo recebeu várias homenagens de ruas e escolas com o seu nome.

Filosofia Naturalista

Sua obra transcorria sobre aspectos zoomórficos da condição humana, isto é, o homem como um animal selvagem. Essa concepção seria um viés do naturalismo, em que eram pontuados aspectos de uma solidez dramática, que retratava cenas desumanas e sinistras. Havia um intenso criticismo social que caracterizava um aspecto pavoroso. Seus textos eram vistos como obras polêmicas e subversivas, que descreviam os vícios da condição humana. Continha um caráter ácido que desaguavam em crimes e perversões. Entre suas principais características estavam o objetivismo e a impessoalidade. Tinha o domínio de uma escrita linear que desvelava a realidade factual. Nesse sentido, ele valorizava as ideias científicas sobre o prisma do “existencialismo determinista”. Os aspectos que caracterizavam seu enredo eram movidos por situações que contextualizavam a sociedade, a cultura e a genética dos atores sociais. Dessa forma, o personagem sofria influência da raça ao qual fazia parte, por isso, o meio social e a época seriam fatores determinantes nos destinos dos indivíduos. Os personagens agiam movidos pela vontade e também de forma animalesca, sem controle dos impulsos e desejos. Dessa maneira, os instintos subjugavam a razão humana. Os indivíduos eram sempre retratados como pobres e miseráveis que vivam a margem da sociedade. Misturavam os temas como o homossexualismo e o racismo, com ideias ligadas ao racionalismo e o cientificismo.  

Filosofia Política

No campo político era um grande defensor dos ideais abolicionistas no Brasil. Ainda muito jovem, já fazia discursos contra a escravidão e contra o sistema imperial. Essa perspectiva era contrária à posição conservadora em que ele estava inserido socialmente. Sua visão política era moderna e estava em sintonia com o movimento republicano, que era contrário a permanência da monarquia. Desse modo, criticava a ordem política e as injustiças ardilosas que eram perpetradas. Foi considerado um dos fundadores do movimento literário e político chamado de “Padaria Espiritual”, onde eram debatidas ideias sobre a conscientização popular, através da cultura e da educação. Acreditava na educação como meio de transformação da realidade social, em que o país estava submergido. Envolveu-se em certas celeumas sociais que serviram como fonte de inspiração para algumas de suas obras. Nesse sentido, ele utilizava seus textos como forma de resistência contra o falso puritanismo da qual lhe atacavam, denunciando furtivamente aspectos da violência física e psicológica, que eram dissimulados na sociedade.

Filosofia Literária

Lançou o romance “A Normalista”, de cunho naturalista, em que criticava a vida urbana das capitais. A atmosfera escolhida como referência foi à cidade de Fortaleza, onde pontuava aspectos regionalistas, denunciando um espaço urbano parco e frugal.  A obra foi descrita por alguns pensadores como tendo um aspecto pessimista do cenário urbano. Também tinha elementos que mostravam a realidade de uma sociedade vulgar, mesquinha e preconceituosa. O autor evidenciava um cenário de corrupção moral e assédios que maculavam os valores, mostrando o falso moralismo que a sociedade tentava esconder. A história impactante denunciava um incesto patriarcal praticado contra uma jovem moça pelo seu próprio padrinho. O romance abalava os bons costumes morais, tendo sido considerada pervertida pela ordem social vigente. Utilizava-se de um vocabulário coloquial que representava as características locais dos personagens. Alguns desses personagens possuíam um saber empírico que alimentava a percepção das vicissitudes experienciais.

Sofreu censura de algumas obras como o romance “bom-crioulo”, em que descrevia cenas impactantes e polêmicas a respeito do homossexualismo. Na literatura alencarina, essa era uma obra inédita em relação à temática escolhida. Contudo, a crítica conservadora teria desaprovado essa obra, por conta do tema escolhido. Ainda sim, a obra seria considerada tempos depois como uma importante fonte histórica. Ele retratava, nessa obra, além do naturalismo característico, aspectos do realismo, pois confrontava o romantismo idealizado que existia na sociedade. Pontuou a questão de igualdade ao colocar um negro e um branco em situações semelhantes, tanto da vida castrense, como na vida pessoal dos personagens, tendo até polemizado um romance inter-racial. Apropriava-se de hiperbolismos para descrever algumas cenas, enaltecendo sentimentos como o desejo e a frustração, que culminavam em tragédias. Externalizava as discriminações que eram praticadas por questões de raça, gênero e sexualidade, e também certos castigos físicos que eram infligindo nas classes mais desfavorecidas.

 Filosofia Sapiencial

+ “O mundo da lenda é infinito.”

+ “A perfeição é inimiga do homem.”

+ “E consumou-se o delito contra a natureza”.

+ “Pela cara se conhece quem tem lombrigas”.

+ “O dever de todo artista é produzir e produzir sempre.”

+ “Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da pátria, duplica.”

+ “A arte é sempre a arte, verdadeira e bela, intransigente e nobre.”

+ “A forma é quase tudo na arte, dizem; creio, porém, que a sinceridade é tudo”

+ “A lágrima há de existir enquanto palpitar em nós esse músculo que se chama coração.”

+ “A saudade é um estado da alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dor.”

+ “Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de inocente alegria.”

+ “A literatura e as artes de um país são coisas muito mais sérias do que vulgarmente se julga.”

+ “Não se escreve a história de um país sem demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens”.

+ “Ser talentoso é o quanto basta para que um rapaz veja-se antipatizado, odiado, cercado de inimigos.”

+ “Ali se achava, ao redor dele, a sublime expressão da liberdade infinita e da soberania absoluta, coisas que seu instinto alcançava muito vagamente através de um nevoeiro de ignorância”

+ “E um dia a sociedade, esse vampiro enorme, que o sangue chupa ao justo e poupa a tirania, essa ave negra, viu-te, arroxeado e informe, o corpo de criança, a alma… já não via!”

+ “Na obra de arte, com especialidade, essa perfeição só se adquire por meio de um trabalho penoso, mortificante, cheio de desesperos, e que vai desde o simples esboço, rápido e nervoso, até a forma definitiva, serena e límpida, através da qual não se percebem as agonias do artista na luta pela realização do ideal estético”.

Obras:

Voos Incertos (1886), poesia; Judite (1887), contos; A chibata 1887, Contos; Lágrimas de um Crente (1887), contos; A Normalista (1893), romance; No País dos Ianques (1894), romance; Bom Crioulo (1895), romance; Cartas Literárias (1895), romance; Tentação (1896); Ângelo, romance inacabado; O Emigrado, romance inacabado; Pequenos contos; Duas Histórias; Traduções do teatro de Balzac.

 

Fontes:

ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna, 2005.

ADOLFO Caminha. A Normalista. São Paulo, Editora Três, 1973.

_________________ Bom Crioulo.  Carapicuíba: Ateliê Editorial, 1895.

_________________ No país dos Ianques. São Paulo: Poeteiro Editor Digital, 2014.

AZEVEDO, Sânzio de. Literatura Cearense. Fortaleza: Academia Cearense de Letras, 1976.

BEZERRA, Carlos Eduardo de Oliveira. Adolfo Caminha: um polígrafo na literatura brasileira do Século XIX (1885-1897). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2015.

COUTINHO, Afrânio. A ficção naturalista. São Paulo: Global, 1997.

FERRÉZ. Ninguém é inocente em São Paulo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. São Paulo: Vinhedo Horizonte, 2012.

RIBEIRO, João. Roteiro de Adolfo Caminha. Rio de janeiro: Livraria São José, 1957.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira: seus fundamentos econômicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.

domingo, 10 de setembro de 2023

Quintino Cunha

Quintino Cunha - (1875 a 1943) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

José Quintino da Cunha – Foi um filósofo cearense ligado as correntes de pensamento positivistas. Relacionou seus saberes entre ideias cientificistas e as concepções do romantismo literário. Escreveu sua obra em formato de poesias, repentes, modinhas e sátiras. Era considerado por alguns pesquisadores como “o pai do humor cearense”, tendo ficado afamado, por conta de seu carisma simpatizante e pelo seu estilo irreverente, de anedotas ácidas. Possuía profunda eloquência e notável poder de oratória. Era de origem humilde e sua família não possuía grandes posses. Conta-se que, com apenas 11 anos de idade, o menino já praticava atividades laborais para um periódico local. Iniciou seus estudos no Ginásio Cearense, tendo depois migrado para o Colégio Militar de Fortaleza. Atuou por um tempo como rábula, antes de obter diploma na área. No campo literário ficou conhecido como o “Bocage Cearense”. Na área jurídica como o advogado dos pobres. Graduou-se, em Ciências Jurídicas, pela Faculdade de Direito do Ceará, por volta de 1909.

Exerceu os ofícios de militar, político, escritor e advogado criminalista. Era filho de um conceituado filólogo, chamado de João Quintino da Cunha, com uma ilustre professora conhecida por Maria Maximina Ferreira Gomes. Foi membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Itapajé, em 1875 e veio a falecer, por volta de1943, em Fortaleza. A causa de sua morte teria sido por conta de uma malária que ele teria adquirido na região Norte. No seu túmulo se encontra escrito, a seu pedido, o seguinte epitáfio: “O Padre eterno, segundo refere à história sagrada, tirou o mundo do nada, e eu nada tirei do mundo”. Seu corpo se encontra sepultado no cemitério São João batista, em Fortaleza. Recebeu em sua homenagem o nome de um bairro e de uma escola na cidade de Fortaleza.

Filosofia Literária

Descreveu, em sua obra, elementos da tradição oral que eram popularizados no folclore brasileiro. Enaltecendo pontos da aura climática ligada a natureza paisagística de algumas regiões. Tinha o domínio de uma escrita assertiva, em que alinhava aspectos inovadores com um refinamento discursivo. Sua obra é um importante documento histórico que preserva, até os dias de hoje, boa parte da cultura popular, de seu tempo. Transitou seu estilo literário pelas veias do parnasianismo e pelos ideais do romantismo, valendo-se do conto, da poesia e da oratória como instrumentos de consolidação de sua obra. Criou figuras lendárias que alimentaram o imaginário popular, utilizando-se das chamadas tiradas de humor sarcástico. Encabeçou a campanha política de um personagem conhecido até os dias de hoje como o “bode ioiô”. Também chegou a construir outras histórias sobre o personagem o “Cabeleira” da obra do escritor Franklin Távora, em que descreve um personagem mais humano. Defendeu um sistema de educação popular que contemplasse os menos favorecidos.  Atuou com brilhantismo e sagacidade em várias causas jurídicas que eram consideradas de difícil absolvição. Ajudava os mais pobres e os mais desafortunados que eram vitimados pela injustiça social. Lutou contra a extinção da faculdade de Direito, proposta que chegou inclusive a ser cogitada em assembleia legislativa.

Filosofia do Direito

Relata-se que, certa vez, atuando como advogado, na área criminal, numa causa muito difícil, em uma grande audiência, apareceu como seu opositor um brilhante e intelectual promotor de justiça que citava de cabeça o nome dos maiores juristas nacionais e internacionais, e isso impressionavam tanto o juiz, bem como também o júri popular. Foi quando, então, o Dr. Quintino começou a citar o nome de outro nobre e grande jurista chamado de “Alberto Nepomuceno”. Postulou sua defesa citando uma perfeita argumentação, e era...invocando o tal de Dr, Nepomuceno aqui de um lado.... e aduzindo Nepomuceno acolá de outro. Quando, enfim, saiu à sentença dando causa favorável para o cliente do Dr. Quintino. Em seguida, o promotor veio parabenizá-lo e o indagou: - Dr. Quintino, eu já estudei e ainda estudo muito essa nossa área do Direito criminal, mas devo lhe confessar que nunca ouvi falar do Dr. Nepomuceno. Gostaria de saber mais sobre ele. Logo depois o Dr. Quintino responde: “eu também não conheço, acabei de inventar”. Nessa época, os poetas e boêmios intelectuais de Fortaleza conviviam pelos conhecidos cafés da famosa Praça do Ferreira. Então, posteriormente se descobriu que o tal de Dr. Alberto Nepomuceno, seria na verdade um erudito maestro, grande estudante da área de música, que frequentava esses locais da praça.

Comenta-se que, em certa ocasião, um andarilho maltrapilho vivia sofrendo chacota de um arrogante morador da cidade, que era muito influente e tinha grande poder aquisitivo. Até que, em um fatídico dia, o maltrapilho cansado das ofensas, acabou assassinando seu ofensor. Devido a grande influência da família da vítima ninguém queria defender o acusado. Então, Dr. Quintino aparece de surpresa no dia do julgamento final, veste a toga e se apresenta como advogado de defesa. Após o promotor realizar uma brilhante explanação em desfavor do réu, Dr. Quintino inicia sua defesa apenas com elogios aos presentes: “Senhor Meritíssimo Juiz, Nobre e estimado Promotor, caros e ilustres jurados” redisse a frase por várias vezes, até que enfim foi interrompido pelo o Juiz que falou em tom ríspido e nervoso: - Dr. Quintino vamos logo, conclua seu raciocínio. Logo em seguida, Dr. Quintino responde. Vejam bem senhores aqui presente, faz somente, menos de dez minutos que repito apenas elogios a todos vocês e alguns aqui, já estão impacientes e irritados, imaginem então vocês, como esse pobre infeliz não deve ter se sentido ao receber a mesma ofensa por quase dez anos, qualquer um aqui nessa sala poderia ter feito o mesmo. Menciona-se que, logo depois, os jurados votaram a favor da absolvição do réu.

Narra-se um outro caso curioso que aconteceu com um rapaz pobre que não tinha como custear sua defesa. O acusado, enciumado tinha tentado um crime passional contra a vida de um rival. Ninguém queria realizar a defesa porque o crime tinha chocado a sociedade. Dr. Quintino assume o caso, mesmo sobre orientações contrárias dos colegas, pois era uma causa perdida. Depois que a acusação realizou seu discurso, segura da condenação, Dr. Quintino começa sua defesa dizendo: Senhores jurados, não olhem para o crime desse pobre infeliz, que merecia receber prisão perpétua, mas antes de tudo, orem, eu digo orem pela mãezinha, já velha e doente deste traste, ela que tanto fez por nossa cidade, e agora jaz esquecida num leito de uma cama, e nesse momento reza implorando misericórdia e justiça para com ela, pois ela só tem ele como filho, e chora esperando que ele entre agora pela porta do quarto, para cuidar dela. Conta-se que o resultado foi pela absolvição do réu, após o final da sessão, um dos jurados se dirige ao Dr. Quintino e pergunta. – “Dr. Gostaria de solicitar o endereço dessa família, eu queria fazer uma doação para ajudá-los”. Dr. Quintino, então responde: - “Ora! Eu sei lá onde mora esse imprestável, nem sei ao menos se este infeliz algum dia teve mãe.

Filosofia Sapiencial

+ “A escola é uma prisão onde se aprende a ser livre”.

+ “A fome não respeita virtudes, quanto mais fronteiras”

+ “O cearense é como o passarinho, tem que voar para fazer o ninho”

+ “Há homens de caráter mudo, que pensam que ser sério, é ser sisudo”

+ “No Ceará, o sujeito nasce na fé, cresce na esperança e morre na caridade”

+ “Vê como se separam duas águas, que se querem reunir, mas visualmente; É um coração que quer reunir as mágoas de um passado, às venturas de um presente”.

+ “Na história da teimosia, entra a rudeza e a arrogância, é tão forte a ignorância, tão cruenta, tão mendaz, que a própria sabedoria; de tudo, sabendo tanto, não pode saber de quanto o ignorante é capaz”.

 

Fatos e Curiosidades

Conta-se que, certo dia, Quintino Cunha estava descontraidamente pescando, em um lago, na região do Amazonas. Quando, em dado momento, surgiu uma canoa com dois homens que se aproximaram. Um deles cumprimentou o Sr. Quintino e o indagou. - Bom dia senhor! O que está fazendo? Ele então respondeu com um sorriso irônico:  “Estou pescando a vida”. Relata-se que esse senhor era o escritor Euclides da Cunha, e que a partir desse momento, os dois se tornaram grandes amigos. Posteriormente, os dois passeando entre os rios se encontraram por acaso, a proa da canoa de um, colidiu com a do outro, então Dr. Quintino reverberou – Euclides esse rio é muito estreito para as nossas duas cunhas. Referindo-se a ideia de que os dois possuíam o mesmo sobrenome.

Fala-se que, em dada época, na cidade de Fortaleza, existiam dois conceituados periódicos de grande circulação. O Dr. Quintino escrevia para um, e um outro redator, que era seu opositor nas ideias, colaborava com o segundo periódico. Os dois escritores não se bicavam. Certa ocasião, os amigos do Dr. Quintino resolveram fazer um aniversário surpresa para ele, quando do nada, apareceu sem ser convidado o seu rival. Após os parabéns, entra na sala seu contendor, o mesmo trazia nas mãos, dentro de uma caixa enfeitada, um presente embrulhado. Todos ficaram em silêncio e aguardaram o Dr. Quintino abrir o pacote, após o suspense, Quintino retira de dentro do embrulho, um chapéu em formato de chifres. Um pouco constrangido, ele permanece em silêncio. Passado alguns dias, nada tinha sido retratado sobre o fato nas linhas dos periódicos. Até que depois de poucos meses, na comemoração do aniversário de seu algoz, seu rival organiza uma grande festa para toda a nata da elite cearense, mas decide não convidar o Dr. Quintino. Todos esperavam que Dr. Quintino aparecesse de penetra, porém para surpresa de todos, Quintino só surge no final da festa e aguarda todos na saída, traz em sua mão um pacote semelhante ao que recebeu com os mesmo enfeites. Entrega o presente para o aniversariante que sem graça abre o embrulho pensando que seria algo parecido com o que tinha dado, mas para o espanto de todos, dentro tinha apenas um buquê de flores. Admirados os colegas questionam o que significava aquilo, então Dr. Quintino responde: “a gente só pode dá, aquilo que a gente tem”.

Obras:

A pulga; Diferentes; Os Mártires da Selva; Baturité; Folhas de Urtiga; Manual de História do Direito; De mim para os meus; Versos de Cores; Pelo Solimões; Voando com os Deuses da História; O Julgamento de Sócrates sob a luz do Direito; O Julgamento de Jesus Cristo sob a luz do Direito; Questões Relevantes de Direito Penal e Processual Penal; A Morte de Cabeleira; O estilo da Jurisprudência; Campanha Prorabelo e Discursos; Vir para Voltar; A Vida no Ceará.  

Fontes:

ACL. Pesquisa Histórica. Quintino Cunha. Site: Academia Cearense de Letras. Fortaleza: Copyright, acesso em 2023.

BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado. Rio de Janeiro: Editora Conquista, 1973.

CUNHA, Lourdite. Quintino Cunha: No conceito de seus contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1955.

CUNHA, Quintino. Pelo Solimões: Versos norte-brasileiros. Manaus: Editora Valer, 1999.

CUNHA, Plautus. Flagrantes da vida genial de Quintino Cunha. Fortaleza: Editora Sebo Cultural, 1974.

_______________Quintino Cunha e Outros. Fortaleza: Editôra Angelo Accetti, 1974.

GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.

________________O Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1966.

KRUGER, Marcos Frederico; TELLES, Tenório. Poesia e Poetas do Amazonas. Col. Resgate. Manaus: Editora Valer, 1999.  

LINHARES, Mário. História Literária do Ceará. Fortaleza: Federação das Academias de Letras, 1948.

MENESES, Erigutemberg. Quintino Cunha: Estilo na Jurisprudência e nas Letras. Blumenau: Editora do Autor, 2021.

SOLDON, Renato. Verve Cearense.  Fortaleza: Instituto do Ceará, 1969.