domingo, 11 de agosto de 2024

Mathetes Anônimos

Mathetes Anônimos - (120 a 200) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo teológico que teria escrito uma obra intitulada de “Epistola a Diogneto”. O texto foi considerado uma "joia rara da literatura cristã primitiva”. Floresceu no período de transição compreendido entre a filosofia antiga e a medieval, assim dizendo, no final da primeira fase da patrística. O denominado filósofo incógnito também teria ficado conhecido, juntamente com sua obra, pelo cognome de “Mathetes a Diogneto”. O próprio autor se autodescreve como sendo um discípulo dos Apóstolos. A palavra Mathetes significa “um discípulo” e teria sido designada, por ele, para representar seu pseudônimo, já o sobrenome Anônimos é muitas vezes referenciado, por pesquisadores, para especificar seu anonimato, pois trata-se de um pensador desconhecido. Também se descreve como alguém que mais tarde teria ascendido para a condição de mestre, passando a ensinar a doutrina cristã. A obra figura em algumas listas, como sendo, um dos últimos textos clássicos da filosofia apostólica. Porém enquadra-se didaticamente na literatura apologética, devido a predileção que o texto aponta.  

Filosofia Teológica

Segundo os estudiosos, a epístola seria uma antiga exposição apologética que retratava a vida e os costumes dos primeiros cristãos. A carta foi considerada um texto que possuía uma retórica elegante, e que enaltecia os primeiros conceitos da doutrina da igreja católica, desse modo, era uma obra que se direcionava, em defesa dos cristãos, contra as falsas acusações dos pagãos. A obra iniciava com argumentos contrários a idolatria, advertindo aos cristãos sobre a insignificância que existiria, em adorar objetos materiais que eram construídos de madeira, metais e pedras. Também precavia, aos católicos, sobre a transitoriedade da vida na Terra, ponderando que a passagem nesse mundo seria temporária. O tema principal da obra ensinava sobre a importância de manter-se santificado, como símbolo de iluminação, representando a luz de Cristo no mundo. O autor buscou responder aos questionamentos utilizando conselhos e dando instruções sobre o que lhe era indagado. Dissertava sobre os fundamentos éticos da religião, o amor fraternal entre cristãos e a vinda de Cristo. Descrevendo a transformação moral que o Cristianismo realizava, pontuando à pureza dos novos costumes e à caridade destes primeiros membros cristãos. Resgatou o conceito de “logos” caracterizando-o com a concepção de verbo, pregando que a ideia de que fé e razão, seriam atributos de uma racionalidade divina.

Filosofia da História

A epístola teria sido escrita na cidade de Atenas, por volta do século II d.C. Foi localizada acidentalmente, na cidade de Constantinopla, por volta de 1436, juntamente com outros manuscritos, os quais teriam sido supostamente encaminhados para um certo Diogneto. O original foi encontrado por um jovem pesquisador da igreja católica conhecido pelo nome de Tommaso Arezzo. As obras estavam juntas com papeis usados para embrulhar peixes, em uma pescadaria. O texto original foi perdido após a guerra franco-prussiana, porém outras três cópias foram preservadas. Vários pesquisadores, ao longo da História, teriam atribuído ou especulado, quem teria sido de fato, o suposto autor anônimo, estando descrito, ou melhor, sendo cogitado, entre os candidatos mencionados, os principais padres apostólicos do final da primeira fase da patrística, e os primeiros padres apologistas do início da segunda fase, ou seja, os que teriam florescido, mais ou menos, na mesma época, que a obra foi escrita. O autor se mostrou, em sua obra, um profundo conhecedor das culturas: judaica, grega, helênica, paganismo e cristã.

Diogneto, a quem a carta foi destinada, teria sido um provável pagão culto que desejava conhecer melhor a doutrina cristã. Era visto como um homem erudito que possuía grande poder e admirável eloquência. A maioria dos historiadores consentem com a teoria de que o Diogneto, ao qual a carta foi dirigida, seria o mesmo Diogneto que era tutor do imperador romano Marco Aurélio. Diogneto ficou admirado com a maneira como os cristãos desprezavam os deuses pagãos e testemunhavam o Amor que tinham uns para com os outros. Desse modo, ele teria indagado: “Que Deus era aquele em que confiavam e que gênero de culto lhe prestavam; de onde vinha aquela raça nova e por que razões apareceram na história tão tarde”.

Filosofia Sapiencial

+ “Não há vida sem conhecimento”

+ “Os cristãos são a alma do mundo”

+ “Viver no mundo sem pertencer a ele”

+ “Construindo o mundo, sem ser do mundo”.

+ “Amam a todos e por todos são perseguidos”.

+ “Os Cristãos, também amam aqueles que os odeiam”.

+ “Os cristãos vivem no mundo, mas não são do mundo”.

+ “A alma invisível está encerrada na prisão do corpo visível”

+ “Provada pela fome e pela sede, a alma vai-se melhorando”

+ “Não é a árvore da ciência que mata, mas a desobediência”.

+ “Os itens de Deus são tão elevados que não podem ser abandonados”.

+ “O que é a alma para o corpo, assim são os cristãos no meio do mundo”

+ “Por amor às coisas que nos são reveladas, deixamos você participar de tudo”.

+ “Deixe a ciência ser o seu coração e a vida a verdadeira palavra compreendida”.

+ “A posição que Deus nos atribui é tão importante que não nos é lícito desertar.”

+ “Embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres”.

+ “A alma ama o corpo e seus membros, mas o corpo odeia a alma; assim também os cristãos amam os que os odeiam”.

+ “E, como já disse, isso não é uma mera invenção terrena que foi entregue a eles, os cristãos, nem um sistema humano de opinião, que eles julgaram ser correto e o preservaram cuidadosamente, nem a dispensação de um mero mistério humano que foi confiado a eles, mas o Próprio Deus, o Todo-Poderoso o invisível Criador de Todas as Coisas, foi verdadeiramente enviado dos céus e colocado entre os homens, Aquele que é a verdade, santa e incompreensível Verbo, que foi firmemente estabelecido no coração deles”.

Fontes:

AL TRUESDALE. Heróis da Igreja: Uma Era Primitiva. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2021.

BABTISTA, João. Curso de Patrologia: História da Literatura antiga da Igreja. Braga: Escola tipográfica das oficinas de São José, 1943.

BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: PES, 1992.

BLÁZQUEZ, José Maria. O Nascimento do Cristianismo. Madri: Sínteses, 1990.

CARTA A DIOGNETO. Padres Apologistas. Col. Patrística. São Paulo: Editora Paulus, 1995.

FIGUEIREDO, Jackson. A Ordem. Revista Cultural. Rio de Janeiro, O.C.D.V, 1941.

FRANGIOTTI, Roque. Padres apologistas. São Paulo: Editora Paulus, 1995.

HAMMAN. Adalbert-Gautier. Os Padres da Igreja. São Paulo: Editora Paulinas, 1985.

JUSTINO Mártir. Diálogo com Trifão. Col. Pais da Igreja. Brasília: Repositório Cristão, 2022.

LIGHTFOOT, Joseph Barber. Os Pais Apostólicos. São Paulo. Editora Principis, 2020.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Patrística e Escolástica. São Paulo: Paulus, 1993.

TERTULIANO. Apologéticos e o Pálio. Col. Patrística. São Paulo: Paulus, 1995.

sábado, 13 de julho de 2024

Barnabé de Chipre

Barnabé de Chipre - (10 a 70) d.C.

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo teológico pertencente ao período de transição da filosofia antiga para a medieval, na chamada, primeira fase da patrística, em que estavam emergindo os denominados padres apostólicos. Era tido como sendo um dos primeiros profetas da igreja de Antióquia. Presume-se que ele chegou a acompanhar o messias na sua vinda, e mesmo não sendo considerado um apóstolo, ele estar listado como um dos setenta discípulos de Cristo. Teria, supostamente, escrito duas obras chamadas de “Epistola de Barnabé e O evangelho de Barnabé”. Seus textos foram considerados apócrifos pela igreja católica, por vários motivos, porém são vistos, atualmente, como uma grande fonte histórica para compreensão de alguns acontecimentos da época. Seu nome de nascimento era descrito como José, contudo os apóstolos teriam posteriormente lhe batizado com o codinome de Barnabé, que significava o “filho da exortação” ou o “filho da consolação”. Ficou conhecido pela igreja católica como o “São Barnabé”, bem como também, o “José da consolação”.

Pesquisadores divergem, em vários pontos, sobre a existência de dois ou mais Barnabés, nesse período, e também sobre a possibilidade, dessas obras, terem sido de fato, escritas por algum deles. Nesse contexto, esse estudo buscou uma aproximação maior, com o Barnabé descrito pela bíblia, como sendo o primo do Apóstolo Marcos e que era descendente da tribo de Levi. Algumas fontes dizem que Barnabé e o apóstolo Paulo estudaram juntos em Chipre, na escola de um grande mestre conhecido por Gamaliel. Barnabé e Paulo chegaram a viajar juntos por vários lugares com a finalidade de pregar o evangelho e difundir os primeiros ensinamentos da Igreja. Relatos antigos indicam que São Barnabé foi martirizado na localidade de Salamina, região de Chipre, por volta de 70 d.C. Sua obra contrariava alguns dos ensinamentos judaicos, por esta razão, ele teria sido preso e assassinado a pedradas, por judeus revoltosos com o grande ministério que ele teria desenvolvido naquela região. Seu primo, São João Marcos, conhecido como o evangelista, teria sepultado seu corpo em uma caverna. Tempos depois, alguns de seus vestígios foram encontrados e um mosteiro foi construído, em sua homenagem, na região de Salamina. São Barnabé passou a ser venerado como o Padroeiro de Chipre.

Filosofia Eclesiástica

Foi um dos primeiros membros da igreja primitiva, sendo muito considerado entre os Apóstolos. Segundo a própria bíblia, ele teria vendido alguns bens para ajudar os membros mais pobres da igreja. Também foi um importante amigo de Paulo e o ajudou na divulgação do evangelho entre os gentios. No livro de Atos, na Bíblia, existe várias passagens que fazem alusões a existência e a obra de Barnabé. A carta, escrita por ele, estar dividida, distintamente, em duas partes, que somadas se resumem em introdução, doutrina dogmática, lições morais e conclusão. Transcorria seus ensinamentos advertindo sobre questões ligadas a retidão, circuncisão, caridade, escatologia, sacrifício, ética, batismo e o jejum. Defendia a ideia de que as escrituras sagradas não deveriam ser interpretadas de maneira literal, mas sim de forma alegórica, desse modo, ele se utilizava de recursos figurativos para descrever suas interpretações alegóricas. Falava a respeito de dois caminhos trilhados pelo homem, em que um seria o das trevas e o outro o da luz, ensinando que era preciso que o homem praticasse o bem e fugisse das ações más. Pontuava a existência de três dogmas principais: a esperança da vida; a retidão; e o amor da alegria e do júbilo. Nesse sentido, ele dizia: “Os ensinamentos do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça, começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento das obras realizadas na justiça”.

Filosofia da História

A epístola produzida por Barnabé teria sido escrita, provavelmente, por volta de 70 d.C, após a destruição do templo de Jerusalém. Ela foi encontrada em vários códex antigos, entre eles estar o códex Sinaiticus e o códex descoberto em Constantinopla, em 1885, pelo arcebispo Bryennios. A epistola de Barnabé, teria sido inicialmente colocada no códex bíblico do novo testamento, porém foi retirada posteriormente no concílio de Niceia. Existe também, outros oito manuscritos gregos e um latino que contém o texto de Barnabé, tendo a versão latina, apenas os capítulos primeiro ao décimo sétimo da obra. Outras fontes afirmam que a obra teria sido, possivelmente, escrita depois de 130 d.C. Entre as correntes divergentes, as dos conciliadores acreditam que na verdade, a obra foi compilada em duas partes diferentes, e em dois momentos diferentes, devido a isso, criou-se essas dissidências. Já em relação ao evangelho de Barnabé, acredita-se que esta teria sido uma obra produzida em formato de paródia, de maneira satírica, por antigos mulçumanos, com a finalidade de enganar cristãos e convertê-los a religião islâmica, ela misturava partes da doutrina dos outros evangelhos com situações excêntricas e duvidosas.  

Filosofia Sapiencial

+ “O quanto podes, sê puro com a tua alma”.

+ “Afastar-se do caminho da hipocrisia e do mal”

+ “Não sejas loquaz, porque a boca é armadilha mortal”.

+ “Ai de vós! Porque todos vós envelhecereis como veste e a traça vos roerá".

+ “Não provoques divisão, pelo contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si”.

+ “O Deus, que reina sobre o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência, ciência, conhecimento de suas decisões, e perseverança”.

+ “Portanto, nós também guardamos o oitavo dia, que é o dia da ressurreição, para nos alegrarmos em que também Jesus se levantou dentre os mortos e, havendo sido manifestado, ascendeu aos céus”.

+ “Os ensinamentos do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça, começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento das obras realizadas na justiça”.

+ “Eu vos expliquei essas coisas com a maior simplicidade possível, e espero não ter deixado nada de lado. Com efeito, se vos escrevesse sobre o presente ou o futuro, não compreenderíeis, pois isso permanece em parábolas”.

+ “Ama aquele que te criou. Teme aquele que te formou. Glorifica aquele que te resgatou da morte. Sê simples de coração e rico de espírito. Não te ligues àqueles que andam no caminho da morte. Odeia tudo o que não é agradável a Deus. Odeia toda hipocrisia”.

+ “Com efeito, por meio dos profetas, o Senhor nos fez conhecer o passado e o presente, e nos fez saborear antecipadamente o futuro. Vendo que uma e outra coisa se realizam conforme ele falou, devemos progredir no seu temor, de maneira mais rica e mais elevada.”

+ “Não dês ordens com rudeza ao teu servo ou à tua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus, que está acima de uns e de outros; com efeito, ele não vem chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou”.

+ “Desata todas as amarras da injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família”.

+ “Como os dias são maus e é aquele que exerce o poder, devemos, para o nosso próprio bem, procurar as decisões do Senhor. Os auxiliares da nossa fé são o temor e a perseverança, e nossos companheiros de luta são a paciência e o autocontrole. Se essas virtudes permanecem puras diante do Senhor, a sabedoria, a inteligência, a ciência e o conhecimento virão regozijar-se com elas”.

Fatos e Curiosidades:

Relata-se que teria sido Clemente de Alexandria quem deu origem a tradição que atribui a autoria da epístola de Barnabé, afirmando que ele seria, companheiro e colaborador de São Paulo. "A Tiago, o Justo, a João e a Pedro, o Senhor, após sua ressurreição, transmitiu a gnose, estes a transmitiram aos outros apóstolos e os outros apóstolos aos 70 discípulos, dos quais um era Barnabé".

Conta-se que, na localidade de Lacônia, após o final da primeira viagem missionária, durante a pregação, o apóstolo Paulo teria curado um pobre paralítico. A multidão maravilhada com o milagre, depois de observarem o “Levanta-te e anda”, começaram a vociferar: “Deuses em forma humana vieram a nós”. Conclamavam a Barnabé de Júpiter e a Paulo de Hermes, descrevendo aquele como símbolo da sabedoria e este pelo dom da oratória.

 

Fontes:

ESCRIBA DE CRISTO. As Epístolas de Barnabé Explicadas: Pseudo Epígrafos. Brasília. Epub/Bibliomundi, 2022.

EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 2002.

CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006

GIOVANNINI, Luigi; SGARBOSSA, Mario. Um Santo para cada dia. São Paulo: Paulus, 1997.

GUEDES, Ivan Pereira. Companheiros de Paulo – Barnabé. Internet. São Paulo: Site Blog “reflexãoIPG”. Publicado em 2018 / Acesso em 2024.

KNIGHT, Kevin. Dos Padres Ante-Nicenos. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885.

ORÍGENES. Contra Celso. Col. Patrística. São Paulo: Editora Paulus, 2011.

ROMANO, Clemente. Cartas aos Coríntios. San Juan: Biblioteca Patrística, acesso em 2024.

SCHAFF, Philip. Carta de Barnabé: Os pais apostólicos. Série: Pais da Igreja. Repositório Cristão, 2021.

SMITH, Julien. A Epístola de Barnabé e as Duas Formas de Autoridade de Ensino. EUA: Brill Publishers/Vigiliae Christianae, 2014.

VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento, aos livros apócrifos e aos pais apostólicos. Santo André: Editora Academia Cristã, 2005.

domingo, 19 de maio de 2024

David Hume

David Hume - (1711 a 1776) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo escocês do período moderno que seguiu uma linha de pensamento voltada para o empirismo. Seu sistema de ideias se relacionava com outras correntes de pensamento como o naturalismo e o ceticismo. Dissertou de maneira contrária aos pensamentos racionalistas. Estudou as áreas da Filosofia, História, Economia, Política, Ciências Naturais, Arte e Literatura. Escreveu sua Magnus Opus intitulada de “Ensaio sobre o Entendimento Humano”. Exerceu grande inspiração para os pensadores iluministas e sofreu grande influência dos pensamentos de John Lock, sendo considerado um radicalizador do empirismo e do ceticismo. Chegou a trabalhar como diplomata e estudar a área do Direito, migrando depois para a Filosofia. Também exerceu atividades laborais como comerciante, professor e bibliotecário. Sofreu perseguição da Igreja Católica, sendo acusado de heresia, por isso teve seus livros proibidos pela Igreja. Militava em prol do partido liberal, tendo defendido a união entre o reino da Escócia e o da Inglaterra. Embora pertencesse a uma família aristocrática, Hume era descrito como sendo um homem simples, amável e modesto. Era filho de um senhor chamado Joseph Hume com uma senhora de nome Catherine Falconer. Nasceu em Edimburgo, na Escócia em 1711 e faleceu em 1776, na sua cidade natal, com 65 anos de idade.

Filosofia do Conhecimento

Segundo Hume, o comportamento humano não seria governado pela razão humana, como afirmavam os racionalistas, mas sim pela paixão. Desse modo, em relação a moral, Hume afirmava que os julgamentos morais eram baseados nos sentimentos, e não na razão. Defendia o uso da razão e do método científico como um caminho para se chegar ao conhecimento. Utilizava a experiência e a observação como fundamentos sólidos para a ciência. Elencava três princípios básicos para a argumentação que seriam a demonstração, as provas e as probabilidades. Explicava que a questão essencial do homem seria encontrar respostas sobre a origem de suas crenças. Ele buscava, com isso, descobrir as origens e construções do conhecimento humano.

Para Hume, a experiência sensível do ser humano, estaria dividida em duas partes: impressões e ideias. A primeira estaria associada aos sentidos do ser humano como visão, tato, audição, olfato e paladar, já a segunda estaria relacionada com as representações mentais resultantes dessas impressões, sendo as impressões, sensações consideradas mais fortes, mais vivas e mais recentes. Nesse sentido, o pensamento humano se iniciava com as impressões, ou seja, o pensamento estaria ligado às sensações, pois as nossas sensações são os únicos fatos comprováveis. A realidade humana só seria percebida verdadeiramente pelos órgãos dos sentidos que estimulam nos indivíduos os sinais físicos e nervosos. As ideias teriam origem na chamada experiência sensorial, por isso as impressões seriam as causas das ideias, não sendo possível desvincular o pensamento das sensações. As ideias seriam cópias mentais menos vívidas das impressões, os quais formam nossos pensamentos e conceitos. Segundo Hume, todas as ideias são derivadas de impressões, e não há conhecimento inato. Desse modo, ele explicava que as sensações seriam as únicas formas, de entendimento humano, possíveis de serem explicadas.  

Filosofia do Ceticismo

Seu sistema de pensamento ficou conhecido como “fenomenismo”, isto é, teoria filosófica que contraria as crenças naturais e do sentido comum. Para Hume, quando o homem não consegue encontrar respostas válidas para as grandes questões da vida, ele deve suspender o juízo. Nesse contexto, a filosofia não deveria buscar compreender a relação existente entre causa e efeito, pois essa “causalidade” era baseada no hábito e no costume, e não na razão lógica. Dessa maneira, ele negava a base material de explicação das coisas e da causalidade entre elas, esclarecendo que os princípios racionais, seriam associações de ideias que, o hábito e a repetição, vão sistematicamente, aos poucos, fortalecendo. O conceito de “eu” seria apenas uma coleção de estados da consciência. Nesse sentido, ele dizia que: “o fundamento de nossas expectativas não está na razão, mas, sim, no hábito, no costume, na repetição”.

Segundo ele, não seria possível ao homem comprovar a existência de Deus mediante argumentos baseados na lógica. Argumentava que faltavam bases racionais para a o homem, para que ele pudesse realizar algumas suposições e explicar determinados fenômenos. Definiu princípios sobre a “teoria da oscilação”, pontuando que não houve evolução linear do politeísmo para o monoteísmo, na história da humanidade, como julgavam alguns, pois o que teria acontecido de fato seria uma oscilação irracional.  Isso levava Hume a ser um cético, em relação à inferência indutiva, pois, para ele, não existia uma base racional para acreditar que o futuro poderá se assemelhar ao passado, ou seja, as leis científicas podem até explicar uma experiência passada, mas não garante nenhuma certeza que isso irá se repetir no futuro.

Filosofia Sapiencial

+ "A corrupção dos melhores é a pior".

+ "O homem é o maior inimigo do homem".

+ "Cada solução leva a uma nova pergunta”

+ “O hábito é o grande guia da vida humana”.

+ "A natureza é sempre muito forte para a teoria"

+ “Qualquer coisa pode produzir qualquer coisa”

+ "Seja filósofo, mas não se esqueça de ser homem".

+ “O costume é, portanto, o grande guia da vida humana.”

+ “As nossas sensações são os únicos fatos comprováveis”

+ “A beleza não está nas coisas, mas na mente que as contempla.”

+ "Afirmações extraordinárias necessitam de provas extraordinárias".

+ "O autocontrole da mente é limitado, assim como é o domínio do corpo".

+ “O caminho mais doce e inofensivo da vida passa pela estrada do saber".

+ "O coração do homem existe para reconciliar as contradições mais notórias."

+ "Nenhum homem jamais jogou fora a vida enquanto ela valia a pena ser mantida."

+ “Toda hipótese que não pode ser comprovada por meio da experiência deve ser descartada”.

+ "De um modo geral, os erros na religião são perigosos; enquanto os da filosofia apenas ridículos."

+ “O hábito de culpar o presente e admitir o passado, está profundamente arraigado na natureza humana”.

+ “É difícil para um homem falar longamente acerca de si próprio sem ser vaidoso, portanto devo ser breve…”

+ “Todas as nossas ideias ou percepções mais fracas são imitações de nossas mais vivas impressões ou percepções”.

+ "Onde as riquezas são absorvidas por poucos, estes devem contribuir mais para o provimento das necessidades públicas".

+ "A memória não tanto produz, mas revela a identidade pessoal, ao nos mostrar a relação de causa e efeito existente entre nossas diferentes percepções."

+ “Quando entro mais intimamente nisto que eu chamo de eu mesmo, sempre tropeço em uma ou outra percepção particular, de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer.”

Obras:

História da Minha Vida; As Cartas Inglesas; Tratado sobre a Natureza Humana; Ensaio sobre o Entendimento Humano; Investigação sobre os Princípios da Moral; Diálogos sobre a Religião Natural; Ensaios Morais e Políticos; A História da Inglaterra; História Natural da Religião.

Fontes:

ALBIERI, Sara. David Hume filósofo e historiador. Revista de Ciências Sociais: Mediações. Londrina: Dossiê, 2004.

BALIEIRO, Marcos Ribeiro. Essa mistura terrena grosseira: filosofia e vida comum em David Hume. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2009.

BUCKLER, Stephen. O Tratado Iluminista de Hume. A unidade e o propósito de uma investigação sobre a compreensão humana. Oxford: Clarendom Press, 2001.

CABRAL, Álvaro. Filosofia Moral britânica. Campinas: Unicamp, 1996.

CONTE, Jaimir. A Natureza da Filosofia de Hume. Revista Princípios. Natal, UFRN, 2010.

DANOWSKI, Débora. David Hume, o começo e o fim. Revista de Filosofia: Kriterion. Belo Horizonte: UFMG, 2011.

HUME, David. Tratado da natureza humana. Trad. João Carlos Brandão. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2009.

KIRALY, Cesar. Os Limites da Representação: um ensaio desde a filosofia de David Hume. São Paulo: Editora Giz, 2010.

REALE, Giovanni. ANTISERI, Dário. História da filosofia: de Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2004.

QUINTON, Anthony. David Hume. São Paulo: Editora UNESP. 1999.


sábado, 18 de maio de 2024

Cálicles de Egina

Cálicles de Egina – (483 a 405) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da Grécia antiga pertencente à escola de pensamento dos sofistas. Exerceu um importante papel na história do movimento sofista, sendo considerado um dos sofistas mais atuantes de seu tempo. Era tido como um dos principais discípulos de Górgias. Pertencia à aristocracia, e visto como sendo um hábil articulador político. Foi um dos principais opositores de alguns dos pensamentos socráticos. Segundo alguns pesquisadores, a filosofia de Cálicles teria influenciado consideravelmente as ideias de Nietzsche. Era natural de Atenas e pouco se sabe ao seu respeito, embora tenha a sua existência como sendo duvidosa, pois as informações ao seu respeito estão registradas em poucas fontes, ainda sim, a corrente majoritária dos historiadores acredita que de fato ele foi uma figura histórica. A principal fonte a seu respeito está descrita no diálogo platônico intitulado de Górgias. Nasceu por volta de 483 a.C, na ilha de Egina, região da Arcádia, na Atenas antiga, vindo a falecer aproximadamente, em 405 a.C.

Filosofia Moral

Desenvolveu uma teoria em que abordava a dicotomia existente entre a aristocracia e os escravos. Descrevendo um sistema que apresentava como antagônicos os modos de vida do nobre e do servo. Para Cálicles, os fracos buscam proteção na lei, por isso eles construíram a noção de lei, para que os fracos pudessem se proteger das ações dos fortes. Ele negava a existência de noção da igualdade entre homens, argumentando que essa ideia não estaria vinculada a natureza humana, por isso ele advertia que teria sido da revolta dos fracos contra os fortes que a lei teria surgido. Nesse sentido, a verdadeira justiça seria aquela que se originava das leis da natureza, ou seja, do mundo animal, isto é, a lei do mais forte. Desse modo, ele defendia que era justo que os mais fortes dominassem os mais fracos, e consequentemente, injusto que os fracos resistissem a tal dominação. Segundo Cálicles, a lei seria produto da união de homens fracos, ou seja, uma necessidade de proteção da maioria, ele acreditava que na natureza, seria justo que o mais forte ou o melhor tivesse prevalência sobre o mais o fraco. Para ele, como a lei teria surgido da revolta dos fracos contra os fortes, esse conceito, não seria algo natural do ponto de vista da justiça e do direito natural. Acreditava que “natureza e lei” teriam sentidos opostos, mas que ambos seriam conceituados sob o mesmo ponto de vista. Alegava ainda que as condutas morais e as instituições não teriam sido criações divinas, mas sim produto da concepção humana, que buscava apenas atender seus próprios interesses.

Sua teoria se ancorava nas teses hedonistas, baseando-se no conceito de que o homem forte deveria se guiar apenas pelo prazer, equilibrando força e prazer na direção da felicidade. Dessa maneira, sua filosofia fazia uma relação entre o prazer, à justiça e o bem. Para Sócrates, o filósofo Cálicles deveria escolher uma forma de pensar filosófica, entre a ideia de política e a de retórica, afirmando que a primeira teria certa subordinação aos princípios éticos, enquanto a segunda não teria um valor moral específico, podendo se moldar ao tempo e as circunstâncias dinâmicas, que pudessem surgir em um debate na pólis. Nesse contexto, Sócrates argumentava que, a maioria, quando decidia algo, tornava-se o mais forte, portanto teria a mesma legitimidade para fazer as leis, logo, também são por força da natureza, equivalentes aos homens que são individualmente fortes.

Filosofia do Conhecimento

Ensinava que a vida boa seria aquela, em que o homem dava explicação da sua própria consciência, da melhor forma possível, a si mesmo, ou seja, o homem deveria fazer um autoexame ou autoanálise de sua consciência. Defendia a ideia de que a filosofia só tinha alguma importância até certa idade, sendo inútil discutir temas filosóficos na velhice. Para Cálicles, a filosofia não era útil para a vida política local, pois ela não seria adequada para um homem livre que já tinha seu espírito de consciência formado, devendo ela ser ensinada apenas para os adolescentes que estavam em processo de formação. Desse modo, segundo ele, a filosofia teria uma finalidade apenas educacional, voltada para a formação cidadã. Seu pensamento se dividia entre a filosofia política e a filosofia retórica, nesse sentido, ele entendia que a filosofia política se mostrava dependente da ética. Dissertou a respeito do dualismo existente entre a ideia de “physis” e “nomos”, pontuando certa relação e contradição entre esses conceitos. Estudou os ramos da dialética, da oratória e da retórica, dissertando sobre questões racionais que existiam no discurso. Sofreu duras críticas de Sócrates que afirmava que seu sistema de pensamento ensinava apenas uma retórica simplista e não as virtudes necessárias para formar um bom cidadão da pólis.

Filosofia Sapiencial

+ “A imaginação é um poder mágico”

+ “É da revolta dos fracos contra os fortes que surgiu a lei”.

+ “Os indivíduos superiores deveriam ser os únicos a governar”

+ “Se Sócrates fosse acusado de algum crime, não saberia escapar da morte”.

+ “A democracia é a tirania de muitos medíocres sobre os indivíduos excelentes".

+ “A natureza mostra que o superior governa o inferior e tem uma participação maior do que eles”

+ “A vida boa consiste em que cada um dê satisfação a sua consciência da melhor maneira que consiga”.

+ “A simples superioridade numérica não faz o melhor, os melhores e os mais fortes são os superiores, ou seja, aqueles de melhor entendimento – por natureza, o de melhor entendimento prevalece sobre os inferiores”.

Fontes:

ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Editora Edipro, 2009.

CORDEIRO, Arthur Lopes Campos. A Filosofia, O Pós-Morte e o Mito do Górgias Revista Analysis 30. Minas Gerais: UFMG, 2021.

DINUCCI, Aldo. Górgias: Górgias de Leontinos. São Paulo: Oficina do Livro, 2017.

FILÓSTRATO. Vida dos Sofistas. Madrid: Editora Aguilar, 1973.

GUTHRIE, William. Os sofistas. São Paulo: Paulus, 2007.

 JUNIOR, Wilson Antônio Frezatti. O Valor de um caracol ou o nobre nietzschiano: um elogio a Cálicles?. São Paulo: Cadernos Nietzsche, 2006.

KERFERD. George. O movimento sofista. trad. Margarida Oliva. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

LACROIX, René. Sócrates ou Cálicles: Quem tem medo da justiça? São Paulo: Poliética, 2013.  

PLATÃO. Górgias. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1989.

SOBRINHO, Rubens Garcia. Kósmoa e inteligência: As potências da alma no Górgias. Belo Horizonte: UFMG, 2011. 

terça-feira, 19 de março de 2024

Filosofia do Amor

Filosofia do Amor

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Filosofia do Amor é um campo da filosofia que busca explicar a natureza do amor. A etimologia da palavra “amor” deriva do latim antigo “amororis ou amare”, podendo ser traduzido como um sentimento de afeição, ou no sentido de gostar de algo. Segundo alguns pesquisadores, o amor pode ser compreendido como um princípio que estabelece uma relação entre os seres humanos, ou outros seres vivos. A reflexão sobre esse tema abarca diversos campos, como a religião, a família, a sociedade, a pátria e a liberdade, sendo de grande importância seu estudo para compreensão do desenvolvimento humano. O entendimento a esse respeito leva os indivíduos a se compreenderem melhor, gerando um equilíbrio mental necessário ao convívio social. Esse fato pode auxiliar na prevenção de distúrbios psíquicos e disfunções sociais, evitando dores ocasionadas pela desarmonia gerada pela falta de autoconhecimento. Ademais, o amor com suas múltiplas definições ou faces, pode ser definido como um sentimento belo, justo, digno ou esplendoroso. As definições do amor assumem uma importância para várias áreas do conhecimento, não se limitando apenas ao campo teológico, filosófico ou científico. Acredita-se que existem várias formas de amar, por isso o verbo amar é utilizado em várias ocasiões e de diferentes formas. Ele possui um mar de definições e um vasto campo de possibilidades. O amor é vida e é visto como a forma pura do bem.

Amor Ágape

Seria o amor sublime que era visto, dentre outros termos, como sendo definido por amor ágape. Esse amor era descrito pelos gregos como uma espécie de amor universal e incondicional que se relacionava com os aspectos da pureza. Poderia ser descrito como um amor divinal ou que contém algo de puro. Era tido como uma forma elevada de amor, ele é muitas vezes atribuído como sendo o amor de Deus. Esse é o amor por todos os seres, por toda a humanidade. O verdadeiro amor ágape era caracterizado por uma conexão com a natureza, a humanidade e o universo. Também era descrito, biblicamente, como um amor ligado ao autossacrifício, isto é, relacionado à doação ao próximo. Além disso, pode ser descrito como um amor totalizante que preenche todos os espaços, o amor ágape, era geralmente definido como o "amor abnegado”. Transita entre o isolamento da contemplação, no sentido de solitude e o entusiasmo puro da centelha divina, na direção do sagrado.

Pode ser entendido como à forma pura e perfeita da ideia de bem. Lewis (2017) reconhece este, como sendo o maior dos amores. Ele não encontra uma definição exata que possa ser expressa na linguagem humana, sendo apenas idealizada, para ser sentida. Entre suas principais características está a ideia de compaixão e caridade. Por ser perfeito, esse amor nunca acaba, tem um viés altruísta de servidão ligada à justiça e a verdade. É alimentado pela empatia e condiciona a liberdade, pois dá sem esperar nada em troca, ou seja, não cria expectativas e contém um quê de atitude. A Bíblia compreende a ideia de amor como sendo a principal virtude entre as relações, isto é, o valor mais importante entre os humanos, Deus e suas criaturas. Mesmo os homens não sendo digno da presença de Deus, esse amor purifica a humanidade, sendo um reflexo de Deus, servindo como um espelho que reflete na vida das pessoas.

Amor Filos

Esse seria o amor sobre a forma de amizade, ligado ao amor entre amigos e irmãos. Direcionava-se para ideia de parceria e companheirismo, tendo a amizade, a sinceridade e a gentileza como pontos basilares. O termo também se refere à ideia de partilhar algo entre amigos, isto é, algo em comum que exista entre as partes. A intimidade entre colegas pode aos poucos construir grandes laços de amizade que despertam o amor filos entre eles. A interação entre dois amigos gera uma escolha que interfere no destino deles, por isso, nesse formato, o amor cria certa afinidade e admiração que se traduz em um polo mental e cultural, entre os atores envolvidos, desperta também espírito de lealdade e igualdade neles. Tem forte ligação com a alma humana e pouca aproximação com o aspecto material do indivíduo.

É descrito também como o amor do “bom senso”, pois exige certa reciprocidade entre as parte. Por estar inserido entre o foco espiritual e o lado emocional, esse tipo de amor estaria em um nível intelectual, por isso foi que dele se originou o termo filosofia, que se traduz na ideia de um amigo do saber ou alguém que ama o saber, isto é, uma espécie de “amor-amigo” do conhecimento. O filósofo Aristóteles chegou a afirmar que a ideia de amor filos tem grande relação com a noção de alegria e felicidade, criando laços de apego entre dois amigos. Definindo essa ideia como uma parceria do “outro eu”, aceitando o outro na forma de ser, de como ele é.     

Amor Eros

Esse tipo de amor se direciona para as esferas sensuais e românticas. Eros está associado com a libido e a sexualidade. Ele é caracterizado pelo romance, pela paixão e pelo desejo, além disso, estaria conectado ao prazer, à atração física e ao sexo. O termo se refere aos conceitos eróticos que fazem relação com a atração entre casais. Ele se liga aos sentimentos existentes entre um homem e uma mulher. Está estruturado na beleza e na atração gerada por um estímulo que outro ser desperta em uma pessoa, podendo ocasionar paixão e obsessão pelo outro. A intimidade entre duas pessoas também alude à compreensão desse conceito de amor, por isso, possui forte ligação com a ideia de conquista. A ideia de amor platônico também se referia a esse tipo de amor, direcionada para a concepção de idealização e fantasia.  O livro cânticos de Salomão, na bíblia, retrata um pouco essa visão do amor ardente ligado à sexualidade e ao romantismo, com uma conotação também se referindo à ideia de existência, reprodução e sobrevivência humana.  O filósofo Jung utilizava o termo “Eros” de forma um pouco diferente do usual, colocando o termo como atributo da psique feminina que contrastava com o logos masculino, ligado a razão. Já o pensador Freud abordava o tema direcionando o conceito de amor para a noção de libido, estendendo sua definição para além da ideia sexual, sendo descrito como uma força de vontade vital a cada indivíduo.

Amor Storge

Esse seria o amor dos pais pelos filhos, que também estaria direcionada para o conceito de confraternização entre familiares. Tem como principais características a proteção, o apoio e a cumplicidade dos pais no que tange às questões ligadas à família. Existe uma afetividade formada através dos laços de parentesco. Esse amor surge de forma natural e gradual no seio da família, indo aos poucos se formando e se estendendo entre os membros. Ele se forma através da intimidade compartilhada no seio familiar. Por isso, pode ser sentido também por pessoas próximas que vivem como se fossem membros de uma família. Pode ser visto também como um tipo de amor que não se adquire, ou seja, ele é pré-existente. Como exemplo, os pais que amam seus filhos antes mesmo deles nascerem. Traz a ideia de aconchego e acolhimento, tendo relação com a ideia de afeição, carinho, ternura e cuidado. É um tipo de amor genuinamente gratuito e que assume a ideia de confiança. A família é um centro de apoio em várias situações da vida, por isso esse amor tem um viés de dedicação, maturidade e flexibilidade. Carrega um sentimento de nostalgia, interesse por lembranças e recordações sobre o que já foi vivido. É percebido como a forma mais indiscriminada de amor, tendo o apoio e a aceitação, como a base de pertencimento do lar.

Amor Pragma

O Pragma é o tipo de amor que transita entre o que é mais e menos duradouro, pode ser traduzido como “amor prático”, referindo-se ao tipo de amor baseado no “dever, no compromisso e na praticidade”. No campo prático é visto como algo rápido e passageiro, por outro lado, segue um aspecto duradouro quando caminha por uma linha voltada a permanência de um relacionamento. Paradoxalmente, tem como características o que é transitório e temporário, se ancorando no agora. Bem como também, continuidade e constância quando se refere à convivência. Sua tradução etimológica é definida como “Pragma” do grego, "prática", "negócio" ou “coisa feita”. Desse modo, exige certa ponderação em seus atos, sendo mais racional. É um amor baseado na dedicação ao bem maior, em um amor pragmático. Relacionado ao altruísmo, a responsabilidade e ao interesse momentâneo das coisas. Pressupõe um compromisso entre as partes que legitima um vínculo promovido pela experiência e maturidade, gerando um caráter de reciprocidade. Visto como um amor momentâneo que se prende ao que é necessário e urgente. Procura se firmar na serenidade e na lealdade, buscando a compatibilidade e o realismo. Na busca por uma relação sólida, esse tipo de amor procura superar os desafios e obstáculos, para então vencer os conflitos que surgem, durante a jornada da vida.

Amor Ludus

O amor “ludus” é um amor lúdico está ligado à ideia de alegria, diversão e felicidade. Flerta também com o feitiço gerado pelo clima de dança, música e festa. É um amor verdadeiro, mas que não possui total comprometimento, pois é desprendido do individual, estando mais ligado ao coletivo, ao todo. Tem um caráter de amplitude globalizante que se estende, não se limitando as fronteiras, visto como algo mais intenso e misterioso, contendo um viés ecumênico. Aproxima-se da ideia de paixão, pois está inserido no contexto inicial das relações, quando as pessoas se conhecem, por isso estão felizes e rindo o tempo todo, em estado de êxtase ou encantamento. A palavra “ludus” remete a ideia de jogo, por isso promove um jogo de sedução que provoca os atores, em um envolvimento emocional, despertando euforia. Seria, portanto, um estado de animação, em que se busca conquistar ou hipnotizar, utilizando certo magnetismo ou charme. Relaciona-se com o conceito de desprendimento, buscando autonomia e liberdade.

Amor Philautia

Direciona-se para um formato de amor-próprio relacionado com a autoestima, autocuidado e o bem-estar social. É conhecido como o “amor de si”, buscando reconhecer em si mesmo uma valorização. Compreende que só é possível amar o outro se primeiro você amar a si mesmo. O amor de si gera segurança, e essa segurança gera a autoconfiança, sentimento necessário para que esse amor possa ser externalizado para outros de fora. A felicidade de si promove condições favoráveis para que essa felicidade possa ser estendida, visando o autoperdão e a autocompaixão. Alguns teóricos pontuam a necessidade de um equilíbrio desse amor, pois se não houver certo bom senso, ele pode acabar se tornando negativo, transmutando-se em egoísmo e narcisismo.

Outros tipos de amor:

Fátria; Mania; Caritas; Fati; Xênia.

Fontes:

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004.

BOWLBY, John. Apego e perda. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2002.

BRANDEN, Nathaniel. A psicologia do amor . Rio de Janeiro: Editora Record,1998

CAPELÃO. André. Tratado do amor cortês. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2000.

FERREIRA, Nadiá Paulo. A teoria do amor. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004

FROMM, Erich. A Arte de Amar. Belo Horizonte: Editora Itatiaia,1964.

GIKOVATE, Flávio. Ensaios sobre o amor e a solidão. São Paulo: Editores Associados, 1998.

KONDER, Leandro. Sobre o amor. São Paulo: Bom tempo, 2007.

LEE, John. As cores do amor. Toronto: New Press, 1973.

LEWIS, Clive. Os Quatro Amores. Brasil: Thomas Nelson, 2017.

NOGUEIRA, Renato. Por que amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor. Nova York: Harper Collins, 2020.

SIMMEL, Georg. Filosofia do Amor. São Paulo: Martins Fontes, 1993.


segunda-feira, 18 de março de 2024

Amenemope de Akhmim

Amenemope de Akhmim - (1300 a 1075) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo do antigo Egito que escreveu uma obra literária enquadrada na chamada filosofia sapiencial. A obra ficou conhecida como “as sabedorias de Amenemope”, foi encontrada em formato hierático. Sua filosofia influenciou outras gerações, servindo como guia prático para as condutas éticas e morais, daqueles tempos. Esse livro é considerado um clássico da sabedoria antiga, tendo sido localizado pela primeira vez em um rolo de papiro egípcio. Segundo alguns pesquisadores, essa obra é um dos primeiros livros de autoajuda da antiguidade. Seu sistema de pensamento misturava elementos míticos com filosofia simbólica. Laborou como escriba-chefe pro três gerações seguidas, nos reinados de Horemebe, Ramsés I e Seti I. Seu nome tinha um significado etimológico descrito como “amen-em-ope”, o mesmo que, “O Deus está em paz” e também pode ser transcrito como “Amenophis”. Seu pai era conhecido como “Kanakht” e sua mãe pelo nome de “Tausert”. Floresceu no período compreendido como novo reino, por volta do século XIII a.C. O túmulo de Amenompe está localizado em uma colina da necrópole de Tebas. Um pesquisador chamado Douglas Derry teria analisado os ossos e o crânio de Amenemope, tendo concluído que ele faleceu de meningite e que provavelmente era manco.  

Filosofia Moral

Foi um grande estudioso das cosmogonias do antigo Egito, tendo relacionado esses saberes com os conhecimentos da natureza humana. Sua filosofia retravava temas éticos e conselhos práticos para uma vida virtuosa. Direcionando os discípulos para alcançarem o equilíbrio e a justiça. As instruções ensinavam como agir corretamente, em várias situações do cotidiano e como manter uma boa relação humana com o outro. Ministrava também orientações sobre como alcançar o sucesso e a felicidade na vida, buscando evitar comportamentos negativos como o egoísmo, a inveja e a ganância. A bússola orientadora de sua filosofia estava ancorada na ideia de discernimento como fonte para se compreender a ética da serenidade e a virtude do silêncio. Condenava o autoritarismo e o abuso de poder, aconselhando sobre a importância de proteger e respeitar as classes mais frágeis da sociedade, como os idosos, crianças, pobres e as viúvas.

Apontava a importância de cultivar a honestidade, a paciência, a piedade e a humildade, como meios para alcançar o “maat”, que era a ideia de justiça harmônica e ordem cósmica, descrita pelos egípcios. Também tratava de temas como a gentileza e a integridade.  Advertia sobre a importância de não buscar o poder para si, procurando sempre promover a tolerância. Acreditava que a riqueza e a fortuna eram dádivas de Deus. Ensinava que o fruto do pecado era a punição. Explicava sobre o “caminho da barca” que era uma metáfora a respeito da experimentação como meio de obtenção da experiência de vida. Para Amenemope, a ideia de barca representava simbolicamente a noção de travessia, possibilitando ao homem, percorrer novos caminhos, tendo como finalidade experienciar seu destino, atravessar o mundo em busca de si, como meio de compreensão da realidade, objetivando aprender e ensinar.

Filosofia Teológica

Boa parte da obra possui muita semelhança com os escritos contidos no livro de provérbios, na Bíblia Sagrada. Muitos pensadores e historiadores comprovam que a filosofia hebraica influenciou os escribas do antigo Egito. Um grande estudioso da literatura sapiencial, conhecido por “Whybray”, publicou vários estudos comprovando que a literatura egípcia sofreu influência da filosofia hebraica. Os textos de Amenemope também possuem certa correspondência com textos egípcios mais antigos como as Máximas de Ptahotep. Escrita em formato de “sebayt”, o livro é visto como um “ético da serenidade”, transmitindo conselhos sobre como se importar menos com o sucesso material e procurar mais a chamada paz interior. De acordo com Amenemope, o homem deve se concentrar nos propósitos divinos e aceitar o destino que lhe for projetado por Deus. Os historiadores presumem que a obra “os analectos de Confúcio” tenham sido inspirados nesses compilados de Amenemope. Ensinava a respeito da confiança em Deus e como combater a ansiedade cultivando a tranquilidade. Utilizava a metáfora da balança para representar a medida exata da justiça, descrita também como o peso da verdade, desse modo, ele dizia: “Não altere as escalas nem falsifiques os pesos ou diminua as frações de medida, pois Deus posta-se junto á balança".

Filosofia Sapiencial

+ “Deus é o seu construtor”.

+ “As riquezas criam asas e voam”

+ “O homem propõe, mas Deus dispõe”.

+ “Evite amizade com pessoas violentas”

+ “Tenha cuidado com seus modos à mesa”

+ “Não roube terras e coma do seu próprio campo”

+ "Preserve sua língua de responder a um superior”.

+ “Não provoque nenhum inimigo, quando você não vir suas ações”.

+ “Melhor é pão quando o coração está feliz que riqueza na tristeza”

+ “A rapidez é a fala quando o coração está ferido, mais que o vento”.

+ “Não fique ansioso demais, o Deus está sempre em sua perfeição”.

+ “Melhor é pobreza na mão de deus, que riqueza em um armazém”

+ “Não brigue com o homem argumentativo, nem o incite com palavras”

+ “O escriba que é hábil em seu ofício, é considerado digno de ser cortesão”.

+ “Não se deixem seduzir pelos lábios doces, mas sim pela linguagem amarga”.

+ “Não estenda a mão para tocar um homem velho, nem corte as palavras de um ancião”.

+ “Não fixe seus pensamentos em assuntos externos: para cada homem há seu tempo determinado”.

+ "Não apague o sulco alheio, é proveitoso mantê-lo são. São seus campos e você encontrará o que precisa. Você receberá pão de sua própria eira."

+ “Dê ouvidos, ouça o que é dito, Permita seu coração entendê-las, Deixar estas palavras chegarem ao seu coração é valioso, Mas ignorá-las é danoso”.

+ “As tentativas de obter vantagem em detrimento de outros incorrem em condenação, confunde os planos de Deus, e leva, inexoravelmente, à desgraça e punição”.

+ “Não se esforce para buscar riquezas excessivas quando suas necessidades estão seguras e satisfeitas. Se as riquezas forem trazidas a você por roubo, elas não passarão a noite com você”.

+ “Deixe as palavras boas descansarem no meio do seu ventre, De modo que elas possam ser uma chave para o seu coração, quando há um tornado de palavras, elas devem ser um local de ancoragem para a sua língua”.

Fontes:

ARAÚJO, Emanuel. A literatura no Egito faraônico. Brasília: UnB, 2000.

ASANTE, Molefi Kete. Amenemope. Os filósofos egípcios: antigas vozes africanas de Imhotep a Akhenaton. Chicago: African American, 2000.

BILDA, Jonas Otávio. A Instrução de Amenemope. São Paulo: Clube dos Autores, 2021.

BROWN, Brian. A Sabedoria dos Egípcios. Nova Iorque: Brentano's, 1923.

CARREIRA, José Nunes. Filosofia Antes dos Gregos. Lisboa: Europa-América, 1994.

EMERTON, John Adney. O Ensino de Amenemope e Provérbios: Reflexões adicionais sobre um problema antigo. Artigo de Jornal. Vol. 51. Cambridge: JSTOR, 2021.

IPB, Instituto de Pesquisa Bíblica. Os Provérbios da Septuaginta e a Sabedoria de Amenemope. Internet: Publicação Digital, 2021.

KASTER, Joseph. A Sabedoria do Antigo Egito. Reino Unido: Editora Michael O'Mara, 1995.

MARZAL, Angel. O Ensino de Amenemope. Madri: Marova, 1965.

SHAW, Ian; NICHOLSON, Paulo. O Dicionário do Egito Antigo. Nova Iorque: Princeton University Press, 1995.