domingo, 8 de outubro de 2023

Gilgamesh de Uruk

Gilgamesh de Uruk – (2750 a 2600) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da antiguidade sumeriana que escreveu um famoso poema épico, conhecido como “A Epopeia de Gilgamesh”. Essa obra é considerada um clássico da literatura mundial, e descrita também como sendo uma das mais antigas da humanidade. Foi redigida inicialmente na linguagem sumérica, contendo caracteres cuneiformes. Posteriormente passou a ser traduzida para outras línguas, como o hitita, hurrita, elamita e semítico-acadiana. Gilgamesh ficou afamado como sendo um dos reis mais conceituados da antiga Mesopotâmia. Seu nome tinha um significado próximo ao conceito de “o velho que rejuvenesce”. Era filho de um sacerdote conhecido pelo nome de Kullab-Lugalbanda com uma semideusa chamada Ninsuna. As deidades egípcias, descritas nos tempos antigos, eram vistas como uma espécie de rei-herói que possuíam algum poder sobrenatural. Ele teria sido o quinto rei da cidade de Uruk, na antiga Suméria, durante a dinastia de Ur, por volta de (2750 a 2600) a.C. Fala-se que seu reinado teria durado cerca de 126 anos. No prólogo de sua obra está escrito o seguinte adágio: “ele veio de uma estrada distante, estava cansado e encontrou a paz”.

Filosofia Mítica

Segundo as lendas míticas da antiguidade, ele teria recebido uma força descomunal da deidade tempestade, que era também conhecida por Adad. Tendo adquirido grande beleza de Samash, uma espécie de semideus do Sol. O rei de Uruk tinha se entregado aos vícios mundanos e adquirido um caráter tirânico, o povo, então solicitou ajuda dos céus para que Gilgamesh fosse punido. Uma potência divina conhecida por Aruru teria enviado, outro herói chamado Enkidu, que foi feito do barro, para derrotar Gilgamesh, porém depois de lutarem, os dois se tornaram grandes amigos e partiram pelo mundo a procura de aventuras. Após vencerem várias peripécias, outra potestade de nome Ishtar ou Inana, ficou inconformada com as vitórias de Gilgamesh, ela, então, decidiu lançar uma maldição contra Gilgamesh, com isso seu amigo Enkidu acabou sendo morto.

Logo em seguida a morte de seu amigo Enkidu, Gilgamesh inicia outra jornada em busca de um herói chamado “Utnapishtim” que teria sobrevivido a um dilúvio e possuía o segredo da vida eterna. Depois de encontrar a planta que possuía o elixir da eternidade, Gilgamesh se distrai e tem a planta usurpada por uma serpente que engole o vegetal. A serpente retira sua velha pele e foge. Posteriormente a tudo isso, Gilgamesh aceita suas limitações frente ao acaso e os desfortúnios da vida, mas considera que tudo isso lhe serviu de lição, pois agora acredita que está mais sábio, devido às experiências de vida que acumulou entre vitórias e derrotas.

Filosofia Esotérica

A obra retrata um misto de aventura, moralidade e tragédia. Nela o personagem descrito possui características de um semideus com traços humanos. Carrega inicialmente uma personalidade opressora, subjugando a população aos seus interesses, era descrito como um jovem rebelde, por isso teria despertado a desafeição de vários inimigos que passaram a conspirar contra ele. Posteriormente ele se tornou menos agressivo, devido ter se apaixonado por uma mulher, o amor transformou seu caráter mais irascível, em uma pessoa mais branda. A partir daí, ele iniciou uma jornada espiritual em busca da imortalidade, passando a ser visto como “o sábio que viu os mistérios e conheceu coisas secretas”.

A visão esotérica retrata o texto da epopeia mostrando questões fundamentais como o sentido da vida e as incertezas do destino, os quais permeiam a alma humana, desde os primórdios da civilização. Aborda de maneira alegórica os temas relacionados aos vícios e virtudes do homem, como traições, inveja, felicidade, espiritualidade, amor, sexo, amizade, força, poder, coragem, desejo e morte. A obra é vista nesse sistema de pensamento como uma metáfora que trata a respeito da jornada do herói em busca da imortalidade. Explicando que o homem ao sair da sua zona de conforto e enfrentar os desafios da vida, mesmo que não alcance o que desejava, estará, ao final da jornada, mais forte, será uma pessoa melhor, mais autêntica e mais galante.

Várias representações são mistificadas para expressar as reflexões simbólicas que o texto traz. Essa figuração mostra a transformação que alma humana passa, ao longo da vida, após o indivíduo buscar o autoconhecimento e encontrar respostas dentro do seu “eu” interior. Nesse ponto, em dado momento, um dos personagens aclara a seguinte sentença: “Que seja seu próprio reflexo, seu segundo eu”; Aponta também os perigos que homem passa quando se entrega aos vícios e paixões. Gilgamesh buscou alcançar a glória com a finalidade de se tornar imortal, apesar disso se deparou com a inescapável derrota, que lhe ensinou a entender que “os homens passam, mas as obras ficam”. 

Filosofia da História

A Epopeia era composta por 12 tábuas de argila e cada qual continha cerca de 300 versos. Elas foram encontras e preservadas, após uma escavação realizada na região de Nínive, no Oriente Médio. O arqueólogo Austen Harry Layard foi o principal responsável pelas escavações onde foram localizadas as tábuas, por volta de 1890, do século XIX. O texto teria sido publicado pela primeira vez, em 1928, com transliteração do ilustre arqueólogo britânico Campbell Thompson. Ajudaram também no processo de decodificação, os peritos Henry Rawlinson e George Smith, que decifraram as tábuas e encontraram uma narrativa a respeito do dilúvio universal.

Esse documento foi muito importante para a compreensão da cultura desenvolvida na região da Suméria, contendo informações sobre as estruturas de construção, muralhas, templos e o mercado, tudo isso teria sido demonstrado pelos estudos arqueológicos. Os escribas da antiguidade utilizavam o épico como texto para treinamento da escrita. A obra teria desaparecido após um grande incêndio que aconteceu na cidade de Nínive, esse acidente destruiu a principal biblioteca que continha a epopeia. Ela parece ter sido bastante conhecida na região onde teve origem.

Filosofia Sapiencial

+ “Tudo termina onde tudo começa”

+ “Os homens passam, mas as obras ficam”

+ “Busque ser um bom pastor para seu povo”

+ “Sou aquele que viu a profundeza do abismo”

+ “Embora os indivíduos sejam mortais, a humanidade é eterna”

+ “É tolice se preocupar com a eternidade, isso é desperdício de tempo, pois mata a vida aos poucos”.

+ "Quem por você convocará os deuses a uma assembleia, para que possa encontrar a vida que busca?"

+ “Vou apresentar ao mundo aquele que tudo viu, conheceu a terra inteira, penetrou todas as coisas e tudo explorou. Tudo que estava escondido”.

+ “A vida que você procura nunca encontrará. Quando os deuses criaram o homem, reservaram-lhe a morte, porém mantiveram a vida para sua própria posse.”

+ "Você nada mais é do que um braseiro que sai no frio; uma porta dos fundos que não impede a explosão nem o furacão; Calçado que aperta o pé de seu dono! Qual amante você sempre amou?"

+ "Quero ao país dar a conhecer aquele que tudo viu, que conheceu os mares, que soube todas as coisas, que analisou o conjunto de todos os mistérios, Gilgamesh, o sábio universal que conheceu todas as coisas: ele viu as coisas secretas, trouxe o que estava escondido, e transmitiu-nos o saber mais antigo que o Dilúvio".

+ “O destino decretado por Enlil da montanha, o pai dos deuses foi cumprido. Os heróis e os sábios, como a lua nova, têm seus períodos de ascensão e declínio. Foi-te dado um trono, reinar era teu destino; a vida eterna não era o teu destino. Assim não fiques triste, não te atormentes. Ele te concedeu supremacia sobre o povo, vitória nas batalhas. Mas não abuses deste poder; procede com justiça com teus servos no palácio, faze justiça ante a face do Sol”.

 

Fontes:

ARAÚJO, Emanuel. A literatura no Egito faraônico. Brasília: UnB, 2000.

BAPTISTA, Sylvia. Mello. O Arquétipo do caminho: Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

CARREIRA, José Nunes. Gilgamesh em veste hitita. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013.

CORREA, Maria Isabelle Palma Gomes. A água os deuses e o poder na Mesopotâmia: Reflexões sobre os símbolos aquáticos na versão ninivita do épicos de Gilgamesh. Tese de Mestrado. Curitiba: UFPA, 2003.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 1997.

DURANT, Will. The Story of Civilization: Our Oriental History, 1935.

KLUGER, Rivkah Scharf. O significado arquetípico de Gilgamesh: um moderno herói antigo. São Paulo: Paulus, 1999.

LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: A invenção da cidade. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2003.

OLIVEIRA, Carlos Daudt. A Epopeia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

SANDARS, Nancy. Katharine. A Epopeia de Gilgamesh. Trad. Carlos Daudt de Oliveira. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

sábado, 30 de setembro de 2023

Ferreira França

Ferreira França – (1809 a 1857) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Eduardo Ferreira França foi um filósofo brasileiro ligado as correntes de pensamentos da “filosofia da mente”. Sua obra é vista como umas das primeiras investigações psicológicas das Américas. Desse modo, ele era considerado um dos pioneiros da Psicologia no Brasil. Tinha como tema central de sua abordagem a chamada “psicologia experimental”. Encaminhou-se inicialmente pelas ideias do materialismo, migrando posteriormente para as concepções do espiritualismo. Exerceu grande importância nas ciências médicas, doutorando-se em Medicina pela Faculdade de Paris, em 1834, com a tese intitulada de “Ensaio sobre as relações da influência alimentar na moral”. Além da Medicina, atuou também em várias outras áreas, como Química, Literatura, Mineralogia, Filosofia e Política. Tendo relacionado os estudos da mente humana com as ciências da filosofia, fisiologia, frenologia, psicologia e política social. Era filho do senhor Antônio Ferreira França com a dona Ana da Costa Barradas. Nasceu na cidade de Salvador, em 1809 e faleceu por volta de 1857, em alto mar. Relata-se que seu navio teria afundado a caminho da Europa.

Filosofia da Mente

Abordou temas morais relacionando o ecletismo com a psicologia, tendo se destacado, por uma linha de ideias denominada de “ética espiritualista”. Segundo contam, ele desejava encontrar elementos observáveis que pudessem ser aptos a explicar o comportamento moral das pessoas. Em 1854 publicou o livro Investigações de Psicologia. Tal livro é identificado por historiadores da psicologia como sendo um dos mais antigos das Américas. Ensaiou alguns entendimentos a respeito da “motilidade”, isto é, a capacidade de movimentação da alma humana e como a alma exerce ações sobre o corpo. Dissertou acerca dos fenômenos da consciência, dos atributos intelectuais, dos instintos humanos e das atividades volitivas, direcionando esses saberes para as questões da influência do ambiente sobre o homem.

Para a ele a concepção de moral se formava a partir de uma série de funções da mente, o resultado seria o produto equipolente das faculdades intelectivas com as propriedades emocionais. Com isso, existia, segundo ele, uma razão proporcional desses fatores, desse modo, a moral dependeria do grau de assertividade de cada fator limitante. Nesse contexto, ele explicava que os limites da faculdade mental tenderiam a aumentar ou diminuir, conforme se estendessem ou reduzissem os fatores da emoção humana. Nessa perspectiva, ele descrevia que o processo de educação do homem poderia transformar a moral humana, tanto de forma positiva, como também de maneira negativa.

Filosofia Naturalista

Teve grande influência do pensamento naturalista, descrevendo pontos fisiológicos e biológicos da condição existencial do homem. Para Ferreira, havia um determinismo que caracterizava a condição natural do ser humano. Seu naturalismo determinista abordava uma relação interior do indivíduo com questões de ordem social, desse modo, para ele, questões como a “alimentação e a civilização” eram requisitos que justificavam as condições naturais de existência. Nesse sentido, ele destacava que os alimentos e as bebidas ingeridas pelo ser humano influenciavam na formação moral do homem. Diferenciava a influencia que os alimentos de origem animal e vegetal causavam no ser humano. Pontuando que o primeiro despertava no ser humano mais vigor e agressividade, já o segundo gerava menos vigor, produzindo um sentimento de timidez no indivíduo.

Explicava que o homem era formado por duas substâncias principais, corpo e alma, e que elas mantinham uma interação mútua. Segundo Ferreira, o homem enquanto ser material mantém um determinismo característico de sua condição animal, e que por isso, seria regulado pelas leis físicas gerais dos corpos. Porém sua alma, que estaria ligada aos princípios vitais, era responsável por dá animação ao corpo, podendo agir de maneira contraposta as leis naturais dos corpos.

Filosofia Política

Exerceu atividades políticas como deputado federal, atuando em causas ligadas a saúde pública e a medicina social. Era adepto das correntes políticas do liberalismo. Para ele, as questões naturalistas exerceriam determinadas influências na liberdade humana, por consequência, isso também afetava a vida política nas cidades. Explanava que algumas nações eram mais corajosas e cruéis que outras por conta de ingerir uma alimentação rica, apenas em carne animal. Porém os povos que mantinham uma dieta de origem somente vegetal seriam mais compassivos e supersticiosos, demonstrando uma moral fraca. Contudo, as civilizações que consumiam uma alimentação mista, isto é, de origem animal e vegetal, e ao mesmo tempo, essas possuíam todas as vantagens que os alimentos forneciam e ainda eliminavam os percalços produzidos pelas dietas que eram feitas apenas de maneira isolada.

Filosofia Sapiencial

+ “Os alimentos e as bebidas influenciam significativamente nossa moral”.

+ “Não há fenômeno sem uma mudança, não há mudança sem uma causa”

+ “Não é possível ser filósofo sem ser médico nem ser médico sem ser filósofo”.

+ “O estudo do homem moral é um dos mais interessantes e dos mais úteis que existem”.

+ “Os fenômenos que percebemos diariamente são aqueles que mais merecem nossa atenção”.

+ “As constituições não devem ser feitas em favor do poder; as constituições são sempre feitas em favor dos povos”.

+ “Observar os fenômenos da alma, classificá-los, deduzir suas leis e aplicá-las: eis em resumo o fim do estudo do espírito humano”

+ “O regime animal exclusivo produz paixões violentas e sem freio, torna os homens corajosos, independentes, mas, ao mesmo tempo, cruéis e pouco sociáveis. O regime vegetal, ao contrário, estingue o aguilhão das paixões, torna os homens doces e compassivos; mas ele gera a pusilanimidade, a escravidão, e termina muitas vezes por produzir a fraqueza e a corrupção. Todos os dois, empregados exclusivamente, são contrários ao desenvolvimento da inteligência. É então por um regime misto que o homem pode adquirir as mais belas qualidades morais, que sua inteligência pode crescer e se aperfeiçoar, que ele pode ser corajoso sem ser cruel doce sem ser escravo”.      

Obras:

Investigações de Psicologia; Influência dos pântanos sobre o homem; Ornitologia brasileira; Discursos introdutórios ao estudo de química médica; Relatório sobre o Sistema Penitenciário; Influência das emanações pútridas animais sobre o homem; Ensaio sobre a influência dos alimentos e das bebidas sobre o moral do homem.

Fontes:

ARAÚJO, Bernardo Goytacazes de. As éticas espiritualistas de Cunha Seixas e Ferreira França. Revista Estudos Filosóficos. N: 07. Rio de Janeiro: Universidade Castelo Branco, 2011.

CALMOM, Pedro. História da literatura baiana. Rio de Janeiro: Editora José Olímpio, 1949.

CERQUEIRA, Luiz Alberto. Filosofia brasileira: ontogênese da consciência de si. Petrópoles: Editora Vozes, 2002.

FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1965.

JAIME. Jorge. História da Filosofia no Brasil. Vol. 1. Petrópolis: Vozes, 1997.

LEITE, Geraldo. Eduardo Ferreira França: 114. Site: Blog Médicos Ilustres da Bahia e de Sergipe. Internet: Publicado em 2011. Acesso em 2023.  

MARGUTTI, Paulo. As ideias filosóficas de Eduardo Ferreira França. Porto Alegre: Editorra Fiorg, 2023.

PAIM, Antônio. Ferreira França: Investigações de Psicologia. São Paulo: EDUSP/Editorial Grijalbo, 1973.

ROMERO, Sylvio. A Filosofia no Brasil: Ensaio Crítico. Porto Alegre: Typ. de Deutsche Zeitung, 1878.

SACRAMENTO, Blake. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Adolfo Caminha

Adolfo Caminha – (1867 a 1897) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Adolfo Ferreira dos Santos Caminha foi um filósofo cearense ligado a corrente filosófica chamada de “Determinismo Naturalista”. Era considerado um dos primeiros intelectuais dessa corrente de pensamento no Ceará. Seu sistema de pensamento abrangeu elementos do positivismo, do realismo e do pessimismo. Utilizou-se da literatura para explanar suas ideias. Sua obra era composta de poesias, ensaios críticos e romances literários. Teve uma infância sofrida, pois perdeu sua mãe, com apenas dez anos de idade, atingida pela seca que assombrou o Ceará. Trabalhou inicialmente, por um longo tempo, na Marinha do Brasil. Posteriormente, laborou como escritor na “revista moderna”. Foi um dos fundadores do Centro Republicano Cearense. Participou do movimento chamado de “A Padaria Espiritual”, onde utilizava o pseudônimo de “Félix Guanabarino”. Seus pais eram Raimundo Ferreira dos Santos Caminha e Maria Firmina Caminha. Nasceu no município de Aracati, em 1867 e faleceu prematuramente, em 1897, com apenas 29 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro, vitimado por uma tuberculose. Dois anos depois de sua morte, uma de suas filhas, também faleceu precocemente de tuberculose. Adolfo recebeu várias homenagens de ruas e escolas com o seu nome.

Filosofia Naturalista

Sua obra transcorria sobre aspectos zoomórficos da condição humana, isto é, o homem como um animal selvagem. Essa concepção seria um viés do naturalismo, em que eram pontuados aspectos de uma solidez dramática, que retratava cenas desumanas e sinistras. Havia um intenso criticismo social que caracterizava um aspecto pavoroso. Seus textos eram vistos como obras polêmicas e subversivas, que descreviam os vícios da condição humana. Continha um caráter ácido que desaguavam em crimes e perversões. Entre suas principais características estavam o objetivismo e a impessoalidade. Tinha o domínio de uma escrita linear que desvelava a realidade factual. Nesse sentido, ele valorizava as ideias científicas sobre o prisma do “existencialismo determinista”. Os aspectos que caracterizavam seu enredo eram movidos por situações que contextualizavam a sociedade, a cultura e a genética dos atores sociais. Dessa forma, o personagem sofria influência da raça ao qual fazia parte, por isso, o meio social e a época seriam fatores determinantes nos destinos dos indivíduos. Os personagens agiam movidos pela vontade e também de forma animalesca, sem controle dos impulsos e desejos. Dessa maneira, os instintos subjugavam a razão humana. Os indivíduos eram sempre retratados como pobres e miseráveis que vivam a margem da sociedade. Misturavam os temas como o homossexualismo e o racismo, com ideias ligadas ao racionalismo e o cientificismo.  

Filosofia Política

No campo político era um grande defensor dos ideais abolicionistas no Brasil. Ainda muito jovem, já fazia discursos contra a escravidão e contra o sistema imperial. Essa perspectiva era contrária à posição conservadora em que ele estava inserido socialmente. Sua visão política era moderna e estava em sintonia com o movimento republicano, que era contrário a permanência da monarquia. Desse modo, criticava a ordem política e as injustiças ardilosas que eram perpetradas. Foi considerado um dos fundadores do movimento literário e político chamado de “Padaria Espiritual”, onde eram debatidas ideias sobre a conscientização popular, através da cultura e da educação. Acreditava na educação como meio de transformação da realidade social, em que o país estava submergido. Envolveu-se em certas celeumas sociais que serviram como fonte de inspiração para algumas de suas obras. Nesse sentido, ele utilizava seus textos como forma de resistência contra o falso puritanismo da qual lhe atacavam, denunciando furtivamente aspectos da violência física e psicológica, que eram dissimulados na sociedade.

Filosofia Literária

Lançou o romance “A Normalista”, de cunho naturalista, em que criticava a vida urbana das capitais. A atmosfera escolhida como referência foi à cidade de Fortaleza, onde pontuava aspectos regionalistas, denunciando um espaço urbano parco e frugal.  A obra foi descrita por alguns pensadores como tendo um aspecto pessimista do cenário urbano. Também tinha elementos que mostravam a realidade de uma sociedade vulgar, mesquinha e preconceituosa. O autor evidenciava um cenário de corrupção moral e assédios que maculavam os valores, mostrando o falso moralismo que a sociedade tentava esconder. A história impactante denunciava um incesto patriarcal praticado contra uma jovem moça pelo seu próprio padrinho. O romance abalava os bons costumes morais, tendo sido considerada pervertida pela ordem social vigente. Utilizava-se de um vocabulário coloquial que representava as características locais dos personagens. Alguns desses personagens possuíam um saber empírico que alimentava a percepção das vicissitudes experienciais.

Sofreu censura de algumas obras como o romance “bom-crioulo”, em que descrevia cenas impactantes e polêmicas a respeito do homossexualismo. Na literatura alencarina, essa era uma obra inédita em relação à temática escolhida. Contudo, a crítica conservadora teria desaprovado essa obra, por conta do tema escolhido. Ainda sim, a obra seria considerada tempos depois como uma importante fonte histórica. Ele retratava, nessa obra, além do naturalismo característico, aspectos do realismo, pois confrontava o romantismo idealizado que existia na sociedade. Pontuou a questão de igualdade ao colocar um negro e um branco em situações semelhantes, tanto da vida castrense, como na vida pessoal dos personagens, tendo até polemizado um romance inter-racial. Apropriava-se de hiperbolismos para descrever algumas cenas, enaltecendo sentimentos como o desejo e a frustração, que culminavam em tragédias. Externalizava as discriminações que eram praticadas por questões de raça, gênero e sexualidade, e também certos castigos físicos que eram infligindo nas classes mais desfavorecidas.

 Filosofia Sapiencial

+ “O mundo da lenda é infinito.”

+ “A perfeição é inimiga do homem.”

+ “E consumou-se o delito contra a natureza”.

+ “Pela cara se conhece quem tem lombrigas”.

+ “O dever de todo artista é produzir e produzir sempre.”

+ “Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da pátria, duplica.”

+ “A arte é sempre a arte, verdadeira e bela, intransigente e nobre.”

+ “A forma é quase tudo na arte, dizem; creio, porém, que a sinceridade é tudo”

+ “A lágrima há de existir enquanto palpitar em nós esse músculo que se chama coração.”

+ “A saudade é um estado da alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dor.”

+ “Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de inocente alegria.”

+ “A literatura e as artes de um país são coisas muito mais sérias do que vulgarmente se julga.”

+ “Não se escreve a história de um país sem demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens”.

+ “Ser talentoso é o quanto basta para que um rapaz veja-se antipatizado, odiado, cercado de inimigos.”

+ “Ali se achava, ao redor dele, a sublime expressão da liberdade infinita e da soberania absoluta, coisas que seu instinto alcançava muito vagamente através de um nevoeiro de ignorância”

+ “E um dia a sociedade, esse vampiro enorme, que o sangue chupa ao justo e poupa a tirania, essa ave negra, viu-te, arroxeado e informe, o corpo de criança, a alma… já não via!”

+ “Na obra de arte, com especialidade, essa perfeição só se adquire por meio de um trabalho penoso, mortificante, cheio de desesperos, e que vai desde o simples esboço, rápido e nervoso, até a forma definitiva, serena e límpida, através da qual não se percebem as agonias do artista na luta pela realização do ideal estético”.

Obras:

Voos Incertos (1886), poesia; Judite (1887), contos; A chibata 1887, Contos; Lágrimas de um Crente (1887), contos; A Normalista (1893), romance; No País dos Ianques (1894), romance; Bom Crioulo (1895), romance; Cartas Literárias (1895), romance; Tentação (1896); Ângelo, romance inacabado; O Emigrado, romance inacabado; Pequenos contos; Duas Histórias; Traduções do teatro de Balzac.

 

Fontes:

ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna, 2005.

ADOLFO Caminha. A Normalista. São Paulo, Editora Três, 1973.

_________________ Bom Crioulo.  Carapicuíba: Ateliê Editorial, 1895.

_________________ No país dos Ianques. São Paulo: Poeteiro Editor Digital, 2014.

AZEVEDO, Sânzio de. Literatura Cearense. Fortaleza: Academia Cearense de Letras, 1976.

BEZERRA, Carlos Eduardo de Oliveira. Adolfo Caminha: um polígrafo na literatura brasileira do Século XIX (1885-1897). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2015.

COUTINHO, Afrânio. A ficção naturalista. São Paulo: Global, 1997.

FERRÉZ. Ninguém é inocente em São Paulo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. São Paulo: Vinhedo Horizonte, 2012.

RIBEIRO, João. Roteiro de Adolfo Caminha. Rio de janeiro: Livraria São José, 1957.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira: seus fundamentos econômicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.

domingo, 10 de setembro de 2023

Quintino Cunha

Quintino Cunha - (1875 a 1943) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

José Quintino da Cunha – Foi um filósofo cearense ligado as correntes de pensamento positivistas. Relacionou seus saberes entre ideias cientificistas e as concepções do romantismo literário. Escreveu sua obra em formato de poesias, repentes, modinhas e sátiras. Era considerado por alguns pesquisadores como “o pai do humor cearense”, tendo ficado afamado, por conta de seu carisma simpatizante e pelo seu estilo irreverente, de anedotas ácidas. Possuía profunda eloquência e notável poder de oratória. Era de origem humilde e sua família não possuía grandes posses. Conta-se que, com apenas 11 anos de idade, o menino já praticava atividades laborais para um periódico local. Iniciou seus estudos no Ginásio Cearense, tendo depois migrado para o Colégio Militar de Fortaleza. Atuou por um tempo como rábula, antes de obter diploma na área. No campo literário ficou conhecido como o “Bocage Cearense”. Na área jurídica como o advogado dos pobres. Graduou-se, em Ciências Jurídicas, pela Faculdade de Direito do Ceará, por volta de 1909.

Exerceu os ofícios de militar, político, escritor e advogado criminalista. Era filho de um conceituado filólogo, chamado de João Quintino da Cunha, com uma ilustre professora conhecida por Maria Maximina Ferreira Gomes. Foi membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Itapajé, em 1875 e veio a falecer, por volta de1943, em Fortaleza. A causa de sua morte teria sido por conta de uma malária que ele teria adquirido na região Norte. No seu túmulo se encontra escrito, a seu pedido, o seguinte epitáfio: “O Padre eterno, segundo refere à história sagrada, tirou o mundo do nada, e eu nada tirei do mundo”. Seu corpo se encontra sepultado no cemitério São João batista, em Fortaleza. Recebeu em sua homenagem o nome de um bairro e de uma escola na cidade de Fortaleza.

Filosofia Literária

Descreveu, em sua obra, elementos da tradição oral que eram popularizados no folclore brasileiro. Enaltecendo pontos da aura climática ligada a natureza paisagística de algumas regiões. Tinha o domínio de uma escrita assertiva, em que alinhava aspectos inovadores com um refinamento discursivo. Sua obra é um importante documento histórico que preserva, até os dias de hoje, boa parte da cultura popular, de seu tempo. Transitou seu estilo literário pelas veias do parnasianismo e pelos ideais do romantismo, valendo-se do conto, da poesia e da oratória como instrumentos de consolidação de sua obra. Criou figuras lendárias que alimentaram o imaginário popular, utilizando-se das chamadas tiradas de humor sarcástico. Encabeçou a campanha política de um personagem conhecido até os dias de hoje como o “bode ioiô”. Também chegou a construir outras histórias sobre o personagem o “Cabeleira” da obra do escritor Franklin Távora, em que descreve um personagem mais humano. Defendeu um sistema de educação popular que contemplasse os menos favorecidos.  Atuou com brilhantismo e sagacidade em várias causas jurídicas que eram consideradas de difícil absolvição. Ajudava os mais pobres e os mais desafortunados que eram vitimados pela injustiça social. Lutou contra a extinção da faculdade de Direito, proposta que chegou inclusive a ser cogitada em assembleia legislativa.

Filosofia do Direito

Relata-se que, certa vez, atuando como advogado, na área criminal, numa causa muito difícil, em uma grande audiência, apareceu como seu opositor um brilhante e intelectual promotor de justiça que citava de cabeça o nome dos maiores juristas nacionais e internacionais, e isso impressionavam tanto o juiz, bem como também o júri popular. Foi quando, então, o Dr. Quintino começou a citar o nome de outro nobre e grande jurista chamado de “Alberto Nepomuceno”. Postulou sua defesa citando uma perfeita argumentação, e era...invocando o tal de Dr, Nepomuceno aqui de um lado.... e aduzindo Nepomuceno acolá de outro. Quando, enfim, saiu à sentença dando causa favorável para o cliente do Dr. Quintino. Em seguida, o promotor veio parabenizá-lo e o indagou: - Dr. Quintino, eu já estudei e ainda estudo muito essa nossa área do Direito criminal, mas devo lhe confessar que nunca ouvi falar do Dr. Nepomuceno. Gostaria de saber mais sobre ele. Logo depois o Dr. Quintino responde: “eu também não conheço, acabei de inventar”. Nessa época, os poetas e boêmios intelectuais de Fortaleza conviviam pelos conhecidos cafés da famosa Praça do Ferreira. Então, posteriormente se descobriu que o tal de Dr. Alberto Nepomuceno, seria na verdade um erudito maestro, grande estudante da área de música, que frequentava esses locais da praça.

Comenta-se que, em certa ocasião, um andarilho maltrapilho vivia sofrendo chacota de um arrogante morador da cidade, que era muito influente e tinha grande poder aquisitivo. Até que, em um fatídico dia, o maltrapilho cansado das ofensas, acabou assassinando seu ofensor. Devido a grande influência da família da vítima ninguém queria defender o acusado. Então, Dr. Quintino aparece de surpresa no dia do julgamento final, veste a toga e se apresenta como advogado de defesa. Após o promotor realizar uma brilhante explanação em desfavor do réu, Dr. Quintino inicia sua defesa apenas com elogios aos presentes: “Senhor Meritíssimo Juiz, Nobre e estimado Promotor, caros e ilustres jurados” redisse a frase por várias vezes, até que enfim foi interrompido pelo o Juiz que falou em tom ríspido e nervoso: - Dr. Quintino vamos logo, conclua seu raciocínio. Logo em seguida, Dr. Quintino responde. Vejam bem senhores aqui presente, faz somente, menos de dez minutos que repito apenas elogios a todos vocês e alguns aqui, já estão impacientes e irritados, imaginem então vocês, como esse pobre infeliz não deve ter se sentido ao receber a mesma ofensa por quase dez anos, qualquer um aqui nessa sala poderia ter feito o mesmo. Menciona-se que, logo depois, os jurados votaram a favor da absolvição do réu.

Narra-se um outro caso curioso que aconteceu com um rapaz pobre que não tinha como custear sua defesa. O acusado, enciumado tinha tentado um crime passional contra a vida de um rival. Ninguém queria realizar a defesa porque o crime tinha chocado a sociedade. Dr. Quintino assume o caso, mesmo sobre orientações contrárias dos colegas, pois era uma causa perdida. Depois que a acusação realizou seu discurso, segura da condenação, Dr. Quintino começa sua defesa dizendo: Senhores jurados, não olhem para o crime desse pobre infeliz, que merecia receber prisão perpétua, mas antes de tudo, orem, eu digo orem pela mãezinha, já velha e doente deste traste, ela que tanto fez por nossa cidade, e agora jaz esquecida num leito de uma cama, e nesse momento reza implorando misericórdia e justiça para com ela, pois ela só tem ele como filho, e chora esperando que ele entre agora pela porta do quarto, para cuidar dela. Conta-se que o resultado foi pela absolvição do réu, após o final da sessão, um dos jurados se dirige ao Dr. Quintino e pergunta. – “Dr. Gostaria de solicitar o endereço dessa família, eu queria fazer uma doação para ajudá-los”. Dr. Quintino, então responde: - “Ora! Eu sei lá onde mora esse imprestável, nem sei ao menos se este infeliz algum dia teve mãe.

Filosofia Sapiencial

+ “A escola é uma prisão onde se aprende a ser livre”.

+ “A fome não respeita virtudes, quanto mais fronteiras”

+ “O cearense é como o passarinho, tem que voar para fazer o ninho”

+ “Há homens de caráter mudo, que pensam que ser sério, é ser sisudo”

+ “No Ceará, o sujeito nasce na fé, cresce na esperança e morre na caridade”

+ “Vê como se separam duas águas, que se querem reunir, mas visualmente; É um coração que quer reunir as mágoas de um passado, às venturas de um presente”.

+ “Na história da teimosia, entra a rudeza e a arrogância, é tão forte a ignorância, tão cruenta, tão mendaz, que a própria sabedoria; de tudo, sabendo tanto, não pode saber de quanto o ignorante é capaz”.

 

Fatos e Curiosidades

Conta-se que, certo dia, Quintino Cunha estava descontraidamente pescando, em um lago, na região do Amazonas. Quando, em dado momento, surgiu uma canoa com dois homens que se aproximaram. Um deles cumprimentou o Sr. Quintino e o indagou. - Bom dia senhor! O que está fazendo? Ele então respondeu com um sorriso irônico:  “Estou pescando a vida”. Relata-se que esse senhor era o escritor Euclides da Cunha, e que a partir desse momento, os dois se tornaram grandes amigos. Posteriormente, os dois passeando entre os rios se encontraram por acaso, a proa da canoa de um, colidiu com a do outro, então Dr. Quintino reverberou – Euclides esse rio é muito estreito para as nossas duas cunhas. Referindo-se a ideia de que os dois possuíam o mesmo sobrenome.

Fala-se que, em dada época, na cidade de Fortaleza, existiam dois conceituados periódicos de grande circulação. O Dr. Quintino escrevia para um, e um outro redator, que era seu opositor nas ideias, colaborava com o segundo periódico. Os dois escritores não se bicavam. Certa ocasião, os amigos do Dr. Quintino resolveram fazer um aniversário surpresa para ele, quando do nada, apareceu sem ser convidado o seu rival. Após os parabéns, entra na sala seu contendor, o mesmo trazia nas mãos, dentro de uma caixa enfeitada, um presente embrulhado. Todos ficaram em silêncio e aguardaram o Dr. Quintino abrir o pacote, após o suspense, Quintino retira de dentro do embrulho, um chapéu em formato de chifres. Um pouco constrangido, ele permanece em silêncio. Passado alguns dias, nada tinha sido retratado sobre o fato nas linhas dos periódicos. Até que depois de poucos meses, na comemoração do aniversário de seu algoz, seu rival organiza uma grande festa para toda a nata da elite cearense, mas decide não convidar o Dr. Quintino. Todos esperavam que Dr. Quintino aparecesse de penetra, porém para surpresa de todos, Quintino só surge no final da festa e aguarda todos na saída, traz em sua mão um pacote semelhante ao que recebeu com os mesmo enfeites. Entrega o presente para o aniversariante que sem graça abre o embrulho pensando que seria algo parecido com o que tinha dado, mas para o espanto de todos, dentro tinha apenas um buquê de flores. Admirados os colegas questionam o que significava aquilo, então Dr. Quintino responde: “a gente só pode dá, aquilo que a gente tem”.

Obras:

A pulga; Diferentes; Os Mártires da Selva; Baturité; Folhas de Urtiga; Manual de História do Direito; De mim para os meus; Versos de Cores; Pelo Solimões; Voando com os Deuses da História; O Julgamento de Sócrates sob a luz do Direito; O Julgamento de Jesus Cristo sob a luz do Direito; Questões Relevantes de Direito Penal e Processual Penal; A Morte de Cabeleira; O estilo da Jurisprudência; Campanha Prorabelo e Discursos; Vir para Voltar; A Vida no Ceará.  

Fontes:

ACL. Pesquisa Histórica. Quintino Cunha. Site: Academia Cearense de Letras. Fortaleza: Copyright, acesso em 2023.

BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado. Rio de Janeiro: Editora Conquista, 1973.

CUNHA, Lourdite. Quintino Cunha: No conceito de seus contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1955.

CUNHA, Quintino. Pelo Solimões: Versos norte-brasileiros. Manaus: Editora Valer, 1999.

CUNHA, Plautus. Flagrantes da vida genial de Quintino Cunha. Fortaleza: Editora Sebo Cultural, 1974.

_______________Quintino Cunha e Outros. Fortaleza: Editôra Angelo Accetti, 1974.

GIRÃO, Raimundo. A Academia de 1894. Fortaleza: ACL, 1975.

________________O Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1966.

KRUGER, Marcos Frederico; TELLES, Tenório. Poesia e Poetas do Amazonas. Col. Resgate. Manaus: Editora Valer, 1999.  

LINHARES, Mário. História Literária do Ceará. Fortaleza: Federação das Academias de Letras, 1948.

MENESES, Erigutemberg. Quintino Cunha: Estilo na Jurisprudência e nas Letras. Blumenau: Editora do Autor, 2021.

SOLDON, Renato. Verve Cearense.  Fortaleza: Instituto do Ceará, 1969.

domingo, 27 de agosto de 2023

Hermas de Roma

Hermas de Roma – (80 a 170) d.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo romano que viveu no período de transição entre a filosofia helenística e a filosofia medieval. Direcionou seus estudos para o campo da filosofia teológica. Era considerado um dos patriarcas da literatura apostólica. Ficou conhecido como o “Pastor de Hermas”, por conta do livro “o pastor” que teria sido escrito por ele. Contudo, acredita-se que seu irmão de nome Pio, que era um conceituado bispo da cátedra de Roma, teria lhe ajudado a escrever a obra, pois Hermas era iletrado e não sabia escrever muito bem. Hermas era de origem pobre, inclusive chegou a ser vendido como escravo, porém uma mulher, de nome Rosa, com boas condições, teria lhe comprado e depois o libertou, tendo ele adquirido um matrimônio com essa senhorita. Após conquistar sua liberdade, Hermas tornou-se um homem de grandes posses. Nesse contexto, a obra teria um viés autobiográfico, pois alguns fatos do texto de Hermas, e da sua vida, possuem certa correspondência. A obra foi encontrada em vários pergaminhos e manuscritos antigos, que foram preservados, em formatos de códices. Não existe, ao certo, um consenso exato do ano em que a obra foi precisamente escrita, porém, alguns pesquisadores, presumem que tenha sido, aproximadamente, no decorrer de (142 a 150) d.C. Diante de alguns documentos e fatos históricos, especula-se que Hermas tenha florescido entre os anos de (80 a 170) d.C.

Filosofia Moral

Dissertou a respeito dos conceitos morais que fundamentavam as primeiras doutrinas orientadas pela igreja. Defendia a ideia de que igreja seria uma instituição necessária para a condição de salvação da alma humana. A principal preocupação de Hermas era com a ideia de penitência, por isso ele advertia aos fieis, sobre a possibilidade de arrependimento dos seus pecados. Acreditava que existia uma nova possibilidade de perdão além do batismo. Discorria sobre a importância da piedade como virtude cristã e sobre a necessidade de santificação do homem, para se alcançar a misericórdia divina. Fazia algumas revelações de cunho metafísico, em que trazia a tona conhecimentos transcendentes. Os ensinamentos apresentavam visões que ensinavam a respeito da vida sacra e como se aproximar de Deus. Para ele, a noção de Deus era representada, com a noção de “trindade” estando inserida dentro da ideia de “dualidade”, pois ele dividia essa concepção como sendo, apenas “Deus-Pai” e “Deus-Espírito-Filho”.

Filosofia Eclesiológica

O livro o Pastor de Hermas quase chegou a ser escolhido para fazer parte dos livros bíblicos do novo testamento, sendo considerado, na época, um dos livros mais populares da igreja primitiva. Posteriormente ele foi incluído na lista dos livros tidos como apócrifos pela igreja católica. O estudo dessa obra revela importantes questões culturais que servem de base para a compreensão da relação que existia entre Roma e a igreja católica. Sua compilação dissertava a respeito de alguns temas eclesiológicos e também trazia explanações de cunho social. Utilizava-se de algumas alegorias para simbolizar a estruturação da igreja, revelando que a anciã mencionada nos textos representava a igreja, por ter sido criada há muito tempo, antes de todas as coisas. Já o pastor seria a personificação de um anjo que surgia para orientá-lo e protegê-lo.

A obra foi muito utilizada no cristianismo primitivo como instrumento de orientação para os novos membros da igreja, pontuando preceitos religiosos e questões ligadas ao sacramento. Advertia aos fieis sobre a relevância do jejum, do celibato e do martírio. Explicava que, enquanto a igreja estivesse no mundo estaria constantemente em construção, edificando seu aprimoramento, até os últimos dias do juízo final. Seu trabalho foi dividido basicamente, em visões, mandamentos e parábolas, sendo considerada uma produção que orientava sobre o mundo apocalíptico, convidando o cristão a se arrepender antes que fosse tarde demais, porém ela também anunciava elementos éticos e apologéticos, a respeito de uma boa conduta.

Filosofia Sapiencial

+ “É necessário arrancar da miséria todo homem”.

+ “O verdadeiro profeta é calmo, sereno e humilde”.

+ “Afasta de ti a tristeza, pois ela é irmã da dúvida e da cólera”.

+ “A paciência é mais doce do que o mel e a ira, porém, é amarga e inútil”.

+ “Quando o homem indeciso descumpre um propósito, a tristeza toma conta da alma”

+ “A dúvida, não tendo fé total em si mesma, falha em toda obra em que empreende”.

+ “Aquele, pois, que livrar uma pessoa da necessidade, adquire para si uma grande alegria”.

+ “Purifique o seu coração de todas as vaidades do mundo, do mal e do pecado. Purifique sua alma da dúvida, vista-a dá-lhe fé, porque a fé é poderosa, e creio firmemente que Deus ouvirá todas as suas súplicas”.

+ “Dois anjos acompanham o homem, um da justiça e outro do mal... O anjo da justiça é delicado e modesto e manso e calmo. Então, quando este anjo entrar em seu coração, ele imediatamente falará com você sobre justiça, pureza, santidade, para se contentar com o que você tem, sobre todo trabalho justo e toda virtude reconhecida. Quando você sentir que seu coração está penetrado por todas essas coisas, entenda que o anjo da justiça está com você, porque essas são as obras do anjo da justiça. Você deve acreditar nele então, e em suas obras”.

+ “Aqueles que nunca buscaram a verdade ou indagaram sobre a divindade, mas se contentaram em acreditar, agitados com seus negócios, suas riquezas. suas amizades pagãs e muitas outras ocupações deste século, todos aqueles que estão envolvidos nessas coisas. eles não entendem as parábolas sobre a divindade. É que com todos esses negócios eles estão escurecidos, corrompidos e secos. Assim como as belas vinhas secam por causa dos espinhos e de todo tipo de ervas daninhas se não forem cuidadas, assim também os homens que, depois de receberem a fé, se entregam à multiplicidade das ditas ações, se perdem em sua inteligência e já compreendem absolutamente nada sobre divindade. Porque, na verdade, quando eles ouvem algo sobre a divindade, suas mentes estão em seus negócios e, portanto, eles não entendem absolutamente nada. Mas aqueles que temem a Deus, e investigam sobre a divindade e a verdade, e têm seus corações voltados para o Senhor, entendem e compreendem imediatamente o que lhes é dito, porque eles têm dentro de si o temor de Deus. Pois onde o Senhor habita, há grande inteligência. Aderi, pois, ao Senhor, e compreendereis e compreendereis tudo”.

 

Fontes:

BERARDINO, Ângelo. Patrologia: A idade de ouro da literatura patrística Latina. Madrid: Biblioteca de Autores Cristãos, 2007.

CALVO, Juan José Ayán. O Pastor de Hermas. Alenquer: Editora Cidade Nova, 1995.  

EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século, 2002.

FRANGIOTTI, Roque. Introdução a Hermas. São Paulo: Editora Paulus, 1995.

HERMAS, O pastor de. Padres Apostólicos. Col. Patrística. São Paulo: Paulus, 1995.

IRINEU, Lião de. Contra as Heresias. São Paulo: Editora Paulus, 2021.

JAEGER, Werner. Cristianismo primitivo e a Paideia grega. México: FCE, 1998.

PADOVESE, Luigi. Introdução à teologia patrística. São Paulo: Editora Loyola, 1999.

VALDEMIR, Mota de Menezes. O Pastor de Hermas Explicado pelo Escriba de Cristo. Col. Patrologia. Domínio Público: Editora: Bibliomundi. Ubook acesso em 2023.

VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento, aos livros apócrifos e aos pais apostólicos. Santo André: Editora Academia Cristã, 2005.

domingo, 30 de julho de 2023

Teodoro de Cirene

Teodoro de Cirene – (465 a 398) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo do período clássico da Grécia antiga pertencente à chamada escola cirenaica. Essa escola ficou conhecida também como Escola Moral de Cirene ou “Escola Hedonista”. Ele teria vivido em Cirene, na região da Líbia, e era tido como um dos principais representantes dessa escola. Inicialmente teria sofrido grande influência dos pitagóricos, tendo posteriormente desenvolvido conceitos relacionados à ética, por isso sua filosofia está relacionada com os estudos da moral. Dedicou-se principalmente as áreas da Matemática, Astronomia, Música, Filosofia e Educação. Chegou a lecionar na cidade de Atenas e conviveu com grandes filósofos da antiguidade como, por exemplo, o famoso Sócrates. Foi discípulo do filósofo Protágoras de Abdera e considerado também um dos mestres de Platão, que inclusive escreveu sobre ele, em sua obra chamada Teaetetos. Muito do que se sabe a respeito de sua vida foi escrito pelo filósofo conhecido como Teaetetos, que também teria sido seu discípulo.

Destacou-se com grande relevância nos estudos sobre os números irracionais. Escreveu uma obra chamada de: “sobre os deuses”, por isso foi apelidado de “o ateu”, tendo sido acusado de ateísmo. Sua obra foi mal compreendida na cidade de Cirene, em vista disso, ele teve que se refugiar na cidade de Atenas, mas foi reconhecido, e assim como Sócrates, condenado a beber cicuta. Retornou para a sua terra natal, e faleceu na cidade de Cirene, por volta de 398 a.C. Algumas correntes da história da filosofia tentam desvincular o Teodoro de Cirene do Teodoro Matemático, acreditando que eles sejam duas pessoas distintas e que viveram em épocas diferentes. Contudo, a maior parte da historiografia filosófica reconhece que se trata da mesma pessoa.

Filosofia Moral

Fazia uma relação da felicidade com o conhecimento e também das dores com a ignorância, em outras palavras, a alegria seria resultado da sabedoria, e o sofrimento era decorrente da ignorância. Dizia que nenhum dos prazeres ou dores era bons e nem maus. Nesse sentido, ele explicava que o objetivo da vida era a busca pelo “bem-estar” e em contrapartida o homem deveria evitar a dor. Sua teoria se aproximava um pouco dos conceitos hedonistas, em relação à ideia de que o sentimento interior de alegria e serenidade poderia despertar no homem sábio, o senso de justiça e o espírito de alegria. Pensava que para ser feliz bastava conseguir ser um "sábio" e que a alegria, a sabedoria e o senso de justiça eram suficientes para se alcançar a felicidade. Chegou a defender ideias no campo do cosmopolitismo, que era o conceito de que o homem deveria viver de acordo com as leis da natureza, sem estabelecer fronteiras geográficas entre as cidades-estados. Por conta disso, alguns teóricos afirmaram que Teodoro tinha uma veia da filosofia Cínica. Também dissertou a respeito de questões ligadas a velhice, a desvalorização da amizade e sobre o impulso das relações sexuais.

Filosofia da Matemática

Ele postulou um teorema matemático conhecido como “Espiral de Teodoro”, em que descreve um método para construir geometricamente os segmentos de comprimento, em um formato de espiral proporcional. Ficou lembrado na Matemática por sua contribuição para o desenvolvimento dos números irracionais, exercendo importantes contribuições, especialmente para a seara dos números irracionais e no que diz respeito às raízes quadradas. Segundo alguns historiadores, Teodoro teria sido um dos pioneiros nos estudos da irracionalidade das raízes dos números inteiros não-quadrados (2, 3, 5.....17). A partir do teorema de Pitágoras, ele teria desenvolvido um método novo, para provar que a raiz quadrada de dois era irracional. A existência desses números já havia sido descoberta, por outros pitagóricos, contudo, acredita-se que o método de Teodoro ajudou a consolidar novos fundamentos sobre os números incomensuráveis.

Filosofia sapiencial

+ “A felicidade pode ser alcançada com a alegria e o juízo”.

+ "São princípios da ação o prazer e a dor, que aquele dimana da sabedoria e esta da ignorância.”

+ “Ofereça os seus discursos com a maior boa vontade, “com a mão direita”, mas quanto aos ouvintes, os recebam com a mão esquerda”.

+ “Os ignorantes não aproveitam uma boa oportunidade quando ela se apresenta. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel, do tomilho, planta que é seca e azeda, assim do mesmo modo, de forma similar, as pessoas sensatas muitas vezes obtêm para si algo de útil e aprazível das mais situações adversas”.


Fatos e Curiosidades:

Diógenes Laercio relata, que certa vez, o filósofo Estilpo teria questionado Teodoro lhe indagando: -- Teodoro!  No seu nome “Teo”, significa Deus, correto. Logo em seguida, Teodoro teria respondido: -- Sim! Estilpo, está correto. Então, em seguida, o filósofo Estilpo adverte a seguinte conclusão.... Se teu nome é Teodoro, e teu nome quer dizer deus, logo, tu és deus? Nessa hora, Teodoro refuta com um riso irônico: “Meu querido, tu demonstrarias por este raciocínio, que tu és uma gralha ou um outro animal do gênero”.

 

Fontes:

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2012.

BARNES, Jonathan. Filósofos pré-socráticos. Trad. Julio, Fischer. São Paulo: Editora Martins Fontes. 1997.

CÍCERO, Marcus Tullios. A academia do Cícero. Trad. Harris Rackham. Attalus. 1933.

EVES, Howard. Introdução a História da Matemática. São Paulo: Editora Unicamp, 2011.

JÂMBLICO. Suma Pitagórica. Milão: Bompiani, 2006.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2ª ed. Brasília: UnB, 2008.

PLATÃO. Diálogo: Crátilo e Teeteto. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 1988.

PLUTARCO. Vidas Paralelas. Trad. Carlos Alcade Martín e Marta González González. Madrid: Gregos, 2010.

SIMPLICÍO. Física.  Trad. Alexandre Costa. Col. Anais de filosofia clássica. Vol. 3. N; 06. UFRJ. 2009.

ZINGANO, Marco. Estudos de Ética Antiga. São Paulo: Editora Discurso Editorial, 2007.

Hermótimo de Clazômenas

Hermótimo de Clazômenas – (610 a 570) a.C

Autor: Alysomax Soares

Introdução

Foi um filósofo da antiguidade grega que viveu no período pré-socrático, durante a época dos primeiros filósofos gregos. Algumas correntes da história da filosofia classificavam esses filósofos, que antecederam os primeiros pré-socráticos, como sendo os “filósofos hiperbóreos”. Enquadra-se no período da filosofia grega, em que estava se iniciando a transição do pensamento mítico para o pensamento racional. Trabalhou, em seu sistema de pensamento, tanto ideias ligadas a filosofia da mente, bem como também, ao xamanismo, mantendo certa relação com os conceitos pitagóricos. Acredita-se que Hermótimo teria sido um dos mestres de Anaxágoras e que tenha convivido com outros notáveis pensadores de seu tempo. Considerado um filósofo lendário, alguns dos discípulos de Pitágoras chegaram a afirmar que ele seria uma reencarnação de Hermótimo. O próprio Pitágoras também teria confirmado essas alegações, ao dizer que se lembrava de suas vidas passadas, tendo recordado e reconhecido antigos objetos de outras vidas.

Não se sabe ao certo a data exata de seu nascimento e de sua morte, o que se sabe é que ele floresceu por volta de 610 a.C, tendo falecido após realizar um transe, em que sua alma viajava no tempo, fora do corpo, porém alguns inimigos aproveitaram sua vulnerabilidade e atearam fogo no seu corpo adormecido. Segundo relatos, em um fatídico dia, após entrar em transe e realizar uma viajem astral, a sua esposa teria cometido uma traição, devido uma intriga pessoal entre o casal, permitindo que os algozes de Hermótimo queimasse seu corpo, enquanto o mesmo se encontrava em estado letárgico. Por conta de tal fato, sua alma teria retornado tarde demais para seu corpo inconsciente, provocando o seu falecimento. Posteriormente, os habitantes da cidade ergueram um templo para Hermótimo, exprimindo uma homenagem. As mulheres ficaram proibidas de frequentar o templo, simbolizando a marca da traição que teria sido realizada por sua esposa.

Filosofia da Mente

Estabeleceu como “arché” do universo a ideia de uma mente transformadora, ou seja, uma razão, que seria a força propulsora e geradora das mudanças na matéria, em outras palavras, defendia a ideia de que uma espécie de inteligência ordenadora teria dado causa originária a tudo. Ele trabalhava o conceito de mudança das coisas, através da mente, isto é, a mente seria um regente do cosmos, porém a essência da matéria permanecia estática. Nesse sentido, sua teoria é considerada dual, pois estabelecia um princípio material e outro ativo, como sendo as causas primeiras que davam origem a tudo no universo. As teorias de Hermótimo antecederam os pensamentos que tinham a mesma similitude, porém o seu discípulo Anáxagoras foi o responsável por sistematizar essas concepções com mais fundamentação.

Acreditava na ideia de que a alma seria capaz de viajar fora do corpo durante o sono, desse modo se supõe que ele era considerado um praticante da letargia, o mesmo que, uma prática multisciente ou parapsíquica, tida como variante da meditação, esse fenômeno era muito experienciado pelos primeiros pensadores xamanicos dessa época. Segundo o historiador Plinio (1991), as chamadas “viagens extáticas” tinham como principal objetivo, se conectar com o mundo do além, para aquisição do poder de cura junto aos deuses, esse êxtase teria as mesmas características e aspectos do transe xamânico. Nas suas viagens, o filósofo da mente relatava o que viveu, em outras vidas passadas, tendo revelado fatos curiosos sobre antigas calamidades, desastres e terremotos. Enquanto alguns dos pensadores dessa época relatavam, apenas acontecimentos do passado, Hermótimo julgava também poder avançar no tempo e beber da fonte do conhecimento futuro. Segundo os doxógrafos, sua alma viajava por muito tempo e para lugares distantes, observando o passado e profetizando o futuro.

 

Filosofia Sapiencial

+ “Qualquer um pode segurar o leme quando o mar está calmo”.

+ "A raça humana está em uma melhor situação quando possui o mais alto grau de liberdade".

Fatos e Curiosidades

O filósofo Luciano de Samósata, em uma de suas obras, teria escrito uma fábula comparativa que descrevia como uma mosca poderia se reanimar, após sofrer possíveis desalentos. No seu texto, “o elogio da mosca” ele descreveu uma analogia, explicando que assim como a mosca conseguia se reascender, também seria possível para Hermótimo entrar em grandes êxtases profundos e reflorescer repetidamente, trazendo de volta sua alma ao corpo.

Fontes:

ARISTÓTELES. Metafísica. trad. Edson BINI. São Paulo: Editora Edipro, 2012.

BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Editora Cultrix , 1967.

CATIQUE, Mariney Souza. Xamanismo grego: sabedoria e filosofia no pensamento de Empédocles e Pitágoras. Manaus: UFAM, 2014.

CIVITA, Victor. Pré-Socráticos: Os pensadores. São Paulo: Editora Nova Cultura LTDA. 1996.

DETIENNE, Marcel. Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2003.

ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2002.

HADOT, Pierre. O que é a Filosofia antiga? São Paulo: Editora Lisboa, 1999.

KIRK, Geoffrey; RAVEN, John; SCHOFIELD, Malcom. Os filósofos pré-socráticos. Trad. Calor Alberto Louro Fonseca. 7ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

LUCIANO de SAMÓSATA. Obras I: O Elogio da Mosca. Cambridge/Madrid: Editora Gredos, 1996.

PLÍNIO, O velho. História Natural.  trad. Harris Rackam. Cambridge: Harvard University Press, 1991.

PLUTARCO. Vidas Paralelas. Trad. Carlos Alcade Martín e Marta González González. Madrid: Editora Gregos, 2010.